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Para continuar formando

Estratégia de formação continuada aplicada na Bahia une gestores do estado e de municípios na missão de melhorar os indicadores educacionais


A professora Josélia Cruz, de Barreiras (BA): “É fundamental que a rede estadual, o Instituto Anísio Teixeira e os municípios continuem construindo uma cultura de formação continuada. Só assim teremos os resultados que esperamos há tantos anos”. Foto: Arquivo pessoal

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Lauro de Freitas (BA)

É comum que futuros pedagogos estudem sobre a história da educação, didática, planejamento de aula, alfabetização e outros temas relacionados ao ofício. A graduação em pedagogia tem a duração de quatro anos, em média, com a missão de formar profissionais da educação básica. O problema é que muitos conteúdos absorvidos na faculdade podem logo se tornar desatualizados devido às constantes novidades tecnológicas e a novos debates da sociedade, por exemplo. Por isso, educadores experientes voltam a estudar e não pretendem parar. A isso se dá o nome de formação continuada.

A pandemia da Covid-19 evidenciou o que muitos profissionais da educação poderiam prever. Professores que já estudavam temas como ensino híbrido e novas tecnologias para a educação, em geral, tiveram menor dificuldade para se adaptar ao ensino não presencial. A formação continuada de educadores, no entanto, não trata apenas de revoluções tecnológicas. Evasão escolar, matrizes curriculares, educação integral e avaliações são alguns dos tópicos continuamente revisitados pelos pedagogos.

O grande desafio quando se trata de evasão escolar está nos anos finais da educação fundamental II e no ensino médio. Casos de gravidez na adolescência ou a necessidade do ingresso no mercado de trabalho são alguns dos motivos que levam jovens a abandonar as escolas nessas etapas, sem concluir a formação. Em todo o Brasil, três em cada dez pessoas com idade entre 15 e 17 anos não estão cursando nem concluíram o ensino médio. Nas regiões Norte e Nordeste, o índice se aproxima de quatro em cada dez jovens fora do desenvolvimento escolar esperado. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgada em 2019.

O mesmo levantamento aponta que o estado da Bahia tem um dos piores índices de escolarização para essa faixa etária. Apenas 55,4% dos baianos de 15 a 17 anos estavam frequentando a escola na série adequada. Esse e outros desafios motivaram o Instituto Anísio Teixeira (IAT), órgão da Secretaria da Educação da Bahia, a desenvolver o Plano de Formação Continuada Territorial. No programa, gestores e equipes técnicas das redes de ensino municipais e estadual participam dos encontros formativos, visando uma melhora nos resultados dos indicadores educacionais no estado.

O diagnóstico e o plano
O plano começou a ser executado no mesmo ano, quando foram realizados quatro encontros formativos nas cidades-sede de cada um dos territórios. “No fim de 2019, com os bons resultados, nos sentimos provocados a ampliar o plano para as redes municipais de ensino. Assim começou um outro movimento”, lembra a professora Micheli Cruz, coordenadora da formação no IAT. O Itaú Social tornou-se apoiador do Plano de Formação Continuada Territorial, por meio do programa Melhoria da Educação. Além das escolas municipais, a ampliação do plano incluiu também membros das equipes técnicas das secretarias de Educação. 

Hoje, mais de 9 mil pessoas estão inscritas no programa. O Plano de Formação Continuada já instrui profissionais de educação de 414 dos 417 municípios baianos. Desde o ano passado, toda a formação acontece remotamente, em plataforma própria. A pandemia da Covid-19 também provocou mudanças no conteúdo da atividade. Precisaram ser incluídos na programação temas atuais como a flexibilização curricular, as tecnologias digitais e o ensino remoto.

Para Micheli, a proposta do diálogo entre as redes municipais e a  estadual foi positiva. “Com esse intercâmbio de práticas, tivemos municípios pequenos dando testemunhos potentes e valiosos para cidades maiores que estavam com dificuldades”, conta a professora, antes de destacar o pioneirismo da ação. “Muitas literaturas falam sobre esse arranjo, mas temos poucos registros desse tipo de iniciativa no Brasil. Fomos ousados”, conclui.

Como olha especialmente para os anos finais da educação fundamental, etapa de ensino em que muitas vezes a responsabilidade está dividida entre a rede estadual e as redes municipais, o programa reúne gestores dessas duas esferas em suas formações. “São as equipes de ambas as redes que estão trabalhando com os alunos daquele lugar; é importante que atuem de forma articulada”, lembra Tatiana Bello, gerente de implementação do Itaú Social. Ela explica que o plano é uma experiência-piloto de três anos (2020-22), que leva em conta as especificidades e desafios dessa etapa da educação e que espera poder compartilhar seus aprendizados com educadores e gestores educacionais de todo o país. “Como tudo o que fazemos no programa Melhoria da Educação, queremos sistematizar os conhecimentos no modelo de tecnologia educacional para que outros estados possam propor processos similares que os auxiliem nessa fase.” Há 22 anos, o programa Melhoria da Educação proporciona formação continuada para gestores educacionais. As formações abordam tanto o eixo da gestão pedagógica quanto o da gestão administrativo-financeira. Dessa forma, os profissionais se preparam de maneira ampla para desempenhar suas funções. 

“Identidade estadual do ensino”
Josélia Cruz é professora há 25 anos. Moradora de Barreiras, a 863 quilômetros de Salvador, atua na coordenação dos projetos estruturantes da Secretaria da Educação da Bahia para a Bacia do Rio Grande, um dos territórios de identidade do estado. Ela é uma das matriculadas no Plano de Formação Continuada. Enquanto membro de equipe técnica, ela participa das atividades voltadas para esse público, na sala Paulo Freire, mas também acompanha, na sala Makota Valdina, os diretores e coordenadores dos 14 territórios pelos quais é responsável.

A professora acredita que as dificuldades trazidas pelo novo coronavírus podem atrasar a busca pela melhora dos indicadores educacionais na região, mas os impactos serão menores porque os profissionais continuarão se atualizando. “Quando surgiu a pandemia, a formação foi importante porque orientou os gestores e as equipe técnicas a traçar um plano de suporte e a projetar como as escolas iriam lidar com o período”, conta Josélia, referindo-se ao ano de 2020.

Em Barreiras, a evasão escolar também é um problema, sobretudo no período entre os anos finais do ensino fundamental II e o início do ensino médio, quando o aluno geralmente é transferido da rede municipal para a estadual. “Recebíamos os estudantes e passávamos o ano inteiro tentando identificar a aprendizagem deles para, então, poder traçar um plano. Era um tempo que não voltava”, relata a educadora. No Plano de Formação Continuada, o diálogo entre profissionais das duas redes na busca por soluções é constante.

Ao longo do ano de 2020, foram feitos estudos dos indicadores de cada município. De posse desses dados, municípios e estados puderam traçar planos de trabalho conjunto. De acordo com Josélia, os coordenadores e gestores levam o conhecimento adquirido nos encontros do Plano de Formação Continuada para o chamado “chão da escola”. “Eles estudam os indicadores críticos e, junto com os professores, pensam num plano de melhoria para que os alunos tenham êxito em suas aprendizagens.” Micheli Cruz, coordenadora da formação no IAT, resume: “Quando colocamos na mesma sala de aula um profissional de rede estadual e um de rede municipal, estamos criando a identidade estadual de ensino”.

Alguns impactos já são notados por Josélia Cruz nos 14 municípios que coordena, todos inscritos no plano. “Os municípios, agora, não trabalham mais o conteúdo do livro didático na sequência de páginas, mas as habilidades. Buscam, no objeto do conhecimento, a metodologia adequada para o aluno se desenvolver. Isso já é resultado da formação continuada e se adequa à recomendação da BNCC”, finaliza, referindo-se à Base Nacional Comum Curricular. 

Resultados produtivos
Adustina é um pequeno município do norte da Bahia. Com cerca de 17 mil habitantes, é o único do estado em que a rede municipal de ensino oferta matrículas para todos os níveis, da educação infantil ao ensino médio. Na avaliação dos anos finais do ensino fundamental no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), a cidade saltou da pontuação 3,2 para 4,7 entre os resultados de 2017 e 2019. Nos anos iniciais, Adustina tem pontuação 5,0.

O pedagogo Raphael dos Santos, de Adustina (BA): participante do Plano de Formação Continuada desde 2019. Foto: Arquivo pessoal

Um dos responsáveis pela gestão da educação no município é o pedagogo Raphael dos Santos. Ele é coordenador pedagógico do Colégio Estadual João Francisco da Silva e está à frente da Secretaria de Educação de Adustina. Contemplado pelo Plano de Formação Continuada, Raphael participa dos encontros formativos desde 2019, quando as atividades para o território de identidade Semiárido Nordeste II eram realizadas no polo de Paulo Afonso, a cerca de 160 quilômetros de Adustina.

Desde então, os encontros levam ao educador a discussão de temas relevantes para o seu trabalho. Um desses temas é o papel dos coordenadores e diretores na gestão escolar, o que Raphael chama de compreensão da identidade profissional. “A ideia é fazer com que os gestores escolares sejam pesquisadores e tenham o pleno domínio das fundamentações teórica e legal de todo o trabalho que acontece na escola”, conta. Outros assuntos são a noção de juventude e o desenvolvimento das competências e habilidades dos estudantes, por exemplo.

A adesão de Raphael e de outros profissionais de educação adustinenses ao Plano de Formação Continuada tem se mostrado produtiva. Em 2021, pela primeira vez, todas as oito escolas municipais elaboraram um plano de ação focado nas gestões pedagógica, administrativa e de resultados educacionais. As conversas sobre planejamento pedagógico e ensino híbrido ajudaram os gestores escolares do município a lidar com a pandemia. O pedagogo enfatiza que tem grande satisfação ao ver os resultados do trabalho que está sendo feito, potencializado pelas discussões em torno do Plano de Formação Continuada. “O salto no resultado do Ideb é decorrente de todo um trabalho focado no planejamento estratégico, que é o primeiro conteúdo tratado na formação.”

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