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No extremo sul da capital paulista, uma comunidade leitora produz o livro Nascidos para ler no melhor lugar para se viver, que conta a própria história, para ser lido às crianças desde os primeiros dias de vida


Por Gustavo Queiroz, Rede Galápagos, Curitiba

Um bebê é um mundo. Um livro também. Por isso, quando uma comunidade deseja construir a própria narrativa, ela encontra na literatura uma forma de promover a transformação desde os primeiros dias de vida. É que a leitura tem uma potência única de definir novas realidades. Já os recém-nascidos são descobridores de presentes e futuros por meio do desenvolvimento da linguagem. Essa é a história desvelada pelo livro Nascidos para ler no melhor lugar para se viver, ou ainda, “o primeiro livro das crianças de Parelheiros”. A obra costura imagens e textos produzidos pela comunidade leitora de Parelheiros, bairro de São Paulo. A intertextualidade da obra convida a uma leitura cuidadosa em casa, na biblioteca, na rua ou no berçário. 

O Nascidos para Ler é um projeto-piloto de uma iniciativa que promove a leitura para crianças dos primeiros meses aos primeiros anos de vida e foi inspirado no programa homônimo Nati per Leggere, criado na Itália. Evidências científicas (leia mais nos links ao final do texto) mostram que os primeiros mil dias de vida são fundamentais para o desenvolvimento das emoções, das relações interpessoais e da saúde da criança — sempre mediadas pela linguagem. Vem daí a proposta de construir um livro coletivo que estimule a relação entre famílias, crianças e território com a leitura.

Em 2020, a proposta da Nati per Leggere encontrou terra fértil em Parelheiros, extremo sul da capital paulista, onde nascem cerca de 400 bebês por mês. Com o envolvimento de 60 pessoas em oficinas, encontros e criações, a obra final contém fotografias e textos, para bebês e crianças pequenas, relacionados a diferentes expressões. Os participantes incluíram mães mobilizadoras do Centro de Excelência em Primeira Infância, mediadores e mediadoras de leitura, agentes de desenvolvimento do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, professoras e educadoras, profissionais da saúde e a comunidade. Riso, choro, birra, sono, alegria e fome são diversas situações que as famílias descobrem junto com os primeiros passos dos recém-nascidos. 

Com coordenação do Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (Ibeac) e do Instituto Emília e apoio do Itaú Social, uma série de oficinas foi realizada com a comunidade leitora de Parelheiros. O grupo de formadores contou com o escritor João Carrascoza e a fotógrafa Juliana Carrascoza. Os encontros sobre educação e editoração foram mediados pela editora Dolores Prades e pela artista gráfica Mayumi Okuyama. Já as práticas de mediação de leitura foram facilitadas pela educadora e coordenadora do Ibeac Bel Mayer e pela artista plástica Valdirene Rocha. O resultado é um bonito retrato de momentos vividos pelas famílias — narrados por elas mesmas. “Tornar o bebê um agente da linguagem desde o seu nascimento garantirá o direito à leitura literária, à palavra e a outros bens culturais fundamentais para sua atuação cidadã”, afirma Angela Dannemann, superintendente do Itaú Social, na transmissão em que foi apresentada a publicação. A proposta é que o livro seja lido para as crianças desde cedo, misturando a descoberta da linguagem com demonstrações de afeto. 

Esse cuidadoso trabalho coletivo resultou no primeiro livro das crianças de Parelheiros. O projeto prevê, ainda, uma exposição digital das fotografias produzidas no processo e oficinas para as famílias sobre mediação de leitura na primeira infância. Na primeira etapa, foram produzidos 4 mil exemplares, que serão distribuídos para recém-nascidos em Parelheiros e para crianças de até dois anos acompanhadas pelo Ibeac.

“Faltam tantas palavras na nossa comunidade. A gente não pode perder uma oportunidade para que nosso livro chegue também em contextos escritos por nós”, conta Bel Mayer. Para ela, o livro permitiu que toda a comunidade se envolvesse com a responsabilidade e o prazer de se aproximar do mundo da leitura.

Responsável por mediar as oficinas de literatura e texto, o escritor João Carrascoza entende que é possível fazer milagres quando há pessoas que colocam sua vida à disposição de outras vidas. “No meio disso você pode ceder uma de suas mãos para quem também te busca, te convida para ampliar a corrente de amor entre as pessoas e fazer com que a vida possa ser melhor”, conta sobre a experiência de pensar os textos com o grupo. “Esse projeto é uma história que transforma o peso da desesperança, do desânimo, na ação verdadeira de reduzi-la por meio de um trabalho artístico, de fraternidade, altruísmo, por meio da crença e transformação.” 

O grupo também participou de uma série de oficinas com a fotógrafa Juliana Carrascoza. A ideia é unir literatura e fotografia — duas formas de contar uma história. Mais do que isso, os encontros permitiram às mães olhar para si, como uma forma de honrar a própria memória. “Fotografia é a escrita da luz e é feita com todo o nosso corpo. O ato que nos chama à fotografia precisa ser sentido pelo corpo inteiro”, diz Juliana. “A fotografia tem esse papel de compartilhar o que mexe com a gente; o que nos é importante reverbera.”

Olhar para si é um desafio. Para uma das mães que participaram do projeto, Dilza Souza, todo o processo de produzir textos e imagens foi revelador. “É como se eu fosse a personagem sobre a qual eu estava escrevendo”, lembra. Quando chegou a proposta de unir texto e imagem, achou que não conseguiria. Mas logo entendeu que fotografar é mais que colocar alguém em uma imagem. “A foto para mim era só uma foto. Mas aprendi que é muito mais do que isso. Participar desse projeto foi mais que um presente, foi uma lição de vida. Aprendi a olhar com outros olhos para as coisas que a gente via de qualquer jeito, e entender melhor aquilo que a gente está vendo”. 

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