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Aprendendo com o território

Ao rever seu projeto político-pedagógico, o CEDEP acelera o aprendizado com a comunidade em seu entorno e se aprimora para oferecer desenvolvimento integral aos jovens, crianças e adolescentes que atende em Florianópolis


Equipe do CEDEP saiu às ruas do Monte Cristo para apresentar uma nova proposta  aos comerciantes locais: a Caderneta Social. Foto: Cedep/Divulgação

Por Priscila dos Anjos, Rede Galápagos, Florianópolis (SC)

Em 2020, Paula Madeira, moradora do bairro Monte Cristo, em Florianópolis (SC), começou a fazer as compras do mês no Mercado da Família, localizado bem próximo de onde mora. Até então a mãe de Levi Madeira, de três anos, não costumava comprar arroz, feijão e carne nas mercearias do bairro. Isso mudou quando ela foi contemplada pelo projeto Caderneta Social, promovido pelo Centro de Educação Popular (CEDEP). No início da pandemia a empregada doméstica foi suspensa do trabalho e enfrentou um significativo corte salarial. Foi com o auxílio do recurso emergencial do Itaú Social que o CEDEP conseguiu complementar a renda de Paula Madeira e de outras 300 famílias, por meio de uma articulação com os comerciantes locais 

para a promoção de uma prática de compra que já era bem conhecida na comunidade: a de anotação dos itens comprados em uma caderneta. Uma vez implantada, a operação é relativamente simples. O CEDEP selecionou seis estabelecimentos na comunidade. Cada um deles forneceu mantimentos a 50 famílias, que compravam com caderneta em um estabelecimento cadastrado. A conta era paga pela OSC diretamente aos comerciantes. 

A ação, que procurou garantir a segurança alimentar das famílias atendidas e fortalecer os pequenos comerciantes do bairro, se deu a partir do reconhecimento, pela equipe do CEDEP, da necessidade de fomentar o desenvolvimento da comunidade onde se localiza a sede. 

A formação é um dos eixos estratégicos do programa Missão em Foco, do Itaú Social, e aborda vários aspectos que contribuem para o desenvolvimento de organizações da sociedade civil (OSCs). (Leia mais no boxe Moinho Cultural constrói gestão horizontal.) Segundo o coordenador de projetos do CEDEP, Cayo Pedroso, essa perspectiva de ação junto à comunidade foi construída no processo de revisão do Projeto Político-Pedagógico (PPP), realizada entre os meses de março e agosto, pelos 35 gestores, técnicos e educadores da OSC. Desenvolvida como parte do programa Missão em Foco, a revisão do PPP contou com o apoio da assessoria técnica Cidade Escola Aprendiz, com sede em São Paulo. “Quando fomos selecionados para receber a verba emergencial, começamos a pensar em um projeto que trouxesse uma perspectiva de fomento do desenvolvimento territorial, pois era uma temática que vínhamos discutindo durante a revisão do PPP”, relata Pedroso. 

Olhar o contexto, ampliar a visão
A identificação de potencialidades educativas de um território, como o Monte Cristo, é uma prática necessária para fortalecer o desenvolvimento integral de crianças, adolescentes e jovens. Para a jornalista Raiana Ribeiro, coordenadora de Programas da Cidade Escola Aprendiz, o desenvolvimento integral dos sujeitos está diretamente associado ao fomento das práticas e modos de vida no território onde residem as famílias atendidas pelas organizações da sociedade civil.

Raiana destaca que é preciso ampliar o trabalho das instituições por meio da articulação de ações em rede nos territórios, para que as  transformações ocorram não somente entre os portões das OSCs, mas também no entorno. “Durante a revisão do PPP, impulsionamos a equipe do CEDEP a identificar os potenciais educativos no território. Fomos em busca dos saberes produzidos no entorno”, explica. “Assim é possível promover um processo que impacte o território e garanta o desenvolvimento integral das crianças, adolescentes e jovens que são atendidos na organização.”

Lia Salomão, assessora técnica da Cidade Escola Aprendiz, lembra que a noção de território educativo é um dos fundamentos para a promoção da educação integral. “A revisão de um projeto político-pedagógico, alinhada com os conceitos de desenvolvimento integral, precisa sempre fazer um movimento de ampliação da visão sobre os sujeitos atendidos nos projetos”, observa. “É preciso contextualizar o educando em seu território, para assim construir processos de aprendizagem que sejam significativos”. 

Datado de 2006, o projeto político-pedagógico do CEDEP já não contemplava, totalmente, as atividades realizadas pela instituição. Ao longo dos anos, os educadores identificaram a necessidade de uma atualização no documento, mas foi somente após a adesão ao programa Missão em Foco, que puderam efetivamente parar, tomar fôlego e priorizar as necessidades para a atualização do PPP.

“Estou há 15 anos no CEDEP e acompanhei o crescimento da instituição. A partir de 2006, começamos a desenvolver atividades educativas, culturais e esportivas, com as crianças e adolescentes, no âmbito do Projeto Oficinas do Saber, mas atualmente, com a ampliação de parcerias e recursos, já estamos atuando em outros cinco projetos. Apesar do bom andamento das atividades, era preciso dar um passo atrás e questionar se esses programas faziam sentido dentro de uma proposta pedagógica. Para essa revisão sabíamos que era necessária uma assessoria técnica e qualificada, como a Cidade Escola Aprendiz”, relata a coordenadora-geral do CEDEP, Maria Marlene da Silva. 

Etapas de revisão de um projeto político-pedagógico
Na primeira etapa da revisão, as facilitadoras tiveram acesso aos documentos já produzidos pelo CEDEP, como o PPP, as fichas de matrículas dos educandos e informações coletadas das famílias atendidas pela organização. A partir da leitura crítica dos documentos, iniciou-se uma série de entrevistas com 12 membros da equipe, que possuem funções distintas dentro da instituição.

Depois, foi produzido e compartilhado um diagnóstico que procurou identificar as necessidades latentes da organização. Verificou-se que os educadores e técnicos do CEDEP tinham a intenção de potencializar as atividades de fomento do território e desenvolver os processos de tomada de decisão internos de forma mais democrática e participativa. 

Com base na validação dessas intenções com a equipe do CEDEP, teve início a etapa formativa. Os gestores foram divididos em três comissões de trabalho: mapeamento, práticas pedagógicas e sistematização. A comissão de mapeamento realizou uma ampla pesquisa sobre o território e as condições de vida das crianças, adolescentes e jovens atendidos pelo CEDEP. Já a de práticas pedagógicas procurou reunir os princípios que pautam as ações do CEDEP e elaborar propostas pedagógicas que pudessem impulsionar as atividades da organização. A comissão de sistematização ficou responsável por estudar os marcos legais que ancoram o projeto e sistematizar a produção textual das comissões de mapeamento e práticas pedagógicas. Concomitantemente a essa etapa, foram realizados sete grandes encontros remotos, com toda a equipe, para compartilhar as informações coletadas e analisadas dentro das comissões.

Uma das reuniões do processo de revisão do PPP, inicialmente previsto para ocorrer presencialmente, em Florianópolis: entrevistas com a equipe, análises, formação e cooperação remota. Imagem: Reprodução

Nesse processo de reformulação do PPP, a equipe do CEDEP organizou os projetos já existentes em dois grandes programas. O Semeando Conhecimento, que reúne os três projetos que exercem o desenvolvimento educacional das crianças, adolescentes e jovens atendidos no contraturno da escola: Oficinas do Saber, Projeto Fênix e Avançar. E o Cultivando Comunidade, um programa que visa identificar as demandas da comunidade localizada no entorno, a fim de tornar o CEDEP um espaço de acolhimento e referência do bairro Monte Cristo. Os projetos realizados dentro dessa proposta são o Movimentar e o Mulheres Empreendedoras. 

O coordenador de projetos do CEDEP, Cayo Pedroso, avalia que o processo de revisão do PPP não só atualizou um documento essencial para o cotidiano da organização, como também cultivou uma nova cultura de trabalho pautada na apropriação da equipe sobre a missão, visão e valores do CEDEP. “A revisão do PPP consolidou os papéis de cada educador e técnico do projeto. Faz total diferença ter uma equipe que tem clareza a respeito do que a instituição faz, que entende para onde a instituição está caminhando e como é possível contribuir”, diz Pedroso. “Essa revisão foi potente, positiva e muito transformadora. É incrível perceber quanto eu e os educadores nos apropriamos da instituição.” 

Construção de gestão participativa 
Identificada como uma das preocupações mais latentes para a equipe gestora do CEDEP, a descentralização das tomadas de decisão na entidade está sendo superada após a revisão do projeto político-pedagógico. Uma cultura mais participativa começou a ser semeada a partir do processo de reestruturação do PPP. A metodologia experienciada pela equipe foi pensada para que se garantissem espaços seguros de fala e de acolhimento das diferenças. 

“Foi muito importante que durante esse processo eles pudessem experimentar de fato o que é construir coletivamente, assim como compreender os ganhos e as dificuldades da ampliação da participação. E entender como uma gestão mais democrática e participativa só poderia contribuir para fortalecer essa instituição”, explica a assessora Lia Salomão. 

Moinho Cultural constrói gestão horizontal

A experiência de incluir mais os educadores e gestores nos debates e decisões


A descentralização das tomadas de decisão também foi uma experiência vivida pela equipe do Instituto Moinho Cultural Sul- -Americano, organização da sociedade civil (OSC) que promove o aprendizado de atividades artísticas de crianças e adolescentes em Corumbá (MS) e arredores. Por meio do programa Missão em Foco, o Moinho Cultural foi contemplado com um processo formativo em governança, entre novembro de 2019 e setembro de 2020. A formação teve como facilitadora a consultora Flora Lovato, do Instituto Fonte para o Desenvolvimento Social. 

De acordo com Flora, muitas organizações enfrentam entraves quanto à participação de suas equipes nos processos de decisão. Para superar a centralização na gestão de organizações é necessário que sejam criadas, pelas lideranças, condições propícias para a contribuição dos educadores e gestores. “Muitas vezes, apesar de bem-intencionadas, as lideranças assumem muitos papéis nas instituições, deixando então de criar condições para que outras pessoas se envolvam na organização”, afirma.

O grupo de gestores e conselheiros do Moinho Cultural, em Corumbá (MS), durante formação em governança, em novembro de 2019, com a consultora Flora Lovato (na foto, de branco, ao lado de Marcia Raquel Rolon): novas experiências de gestão. Foto: Alice de Aquino

No processo de formação em governança, em que esteve como assessora, Flora procurou auxiliar os gestores no desenvolvimento de capacidades perante suas diferentes responsabilidades dentro do Moinho Cultural. Após realizar entrevistas com o núcleo gestor e os cinco conselheiros do Instituto, promoveu diálogos conjuntos, nos quais os participantes puderam analisar as potencialidades de trabalho que emergiram nas entrevistas, para então decidirem os encaminhamentos necessários. 

“Foi um processo voltado ao desenvolvimento das diferentes esferas de governança da organização. O trabalho foi o de auxiliar no desenvolvimento das capacidades dos conselheiros e do núcleo gestor, impulsionando-os a fazer a gestão da organização de forma que um complemente o outro, sempre a partir das diferentes responsabilidades que cada instância deve ter”, explica. 

A fundadora e diretora executiva do Moinho, Marcia Raquel Rolon, avalia que a formação em governança produziu uma gerência mais participativa dos gestores e conselheiros. “Eu havia identificado que não queria um conselho que só concordasse com as minhas ideias e decisões. Eu queria que eles discordassem também, mas não sabia como empoderá-los para que pudessem questionar e propor outras soluções. O trabalho com a assessoria proporcionou exatamente essa mudança de postura. Atualmente, a nossa governança está totalmente horizontal. O Moinho Cultural não é só o pensamento da Marcia. Hoje, eu não consigo tomar uma decisão sem consultar o conselho”, relata. 

A nova experiência de gestão do Instituto Moinho Cultural ampliou os espaços de debate e tomada de decisão. A partir da formação em governança foi criado um grupo cogestor constituído por familiares das crianças e adolescentes atendidos pela organização. Neste ano, a gestão do Moinho Cultural se prepara para continuar as mudanças estruturais no projeto, e os gestores e conselheiros vão reformular o estatuto da instituição.

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