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Com iniciativas de educação e de cidadania, Fundação Terra apoia famílias que viviam próximo a aterro sanitário em Arcoverde, Pernambuco


Crianças em atividade lúdica sobre escovação dos dentes na Pax Christi Schola Rural, em Arcoverde (PE): a procura por vagas aumentou durante a pandemia. Foto: Fundação Terra

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Lauro de Freitas (BA)

Na década de 1980, havia uma localidade chamada Rua do Lixo, no município de Arcoverde, a cerca de 250 quilômetros do Recife, em Pernambuco. Era uma comunidade pobre, ao lado do aterro sanitário do município, e seus habitantes costumavam encontrar no lixo o sustento das suas famílias. A maioria das pessoas não sabia ler, e não havia perspectiva de mudança desse cenário, pois a comunidade não tinha acesso a escolas. Nesse contexto, o padre Airton Freire, apoiado pela diocese local, inaugurou a primeira instituição de ensino da localidade, chamada Escolinha Ping Pong, em 1984. A intervenção na Rua do Lixo foi uma das primeiras ações do que hoje é a Fundação Terra. “Agora, tenho muito orgulho de dizer que não há mais lixo. É uma rua com nome e números, habitada por pessoas que vivem com dignidade”, afirma a assistente social Christiane Casal, que atua no setor de promoção social da fundação. Ela é uma entre os mais de 300 colaboradores da instituição, que já atua em outros dois estados da região Nordeste: Ceará e Paraíba. Em Arcoverde, Christiane conta que parte dos esforços da Fundação Terra está no combate ao trabalho infantil. “No entendimento de algumas pessoas, o trabalho dá dignidade. Mas as crianças precisam estudar”, observa.

A Fundação Terra é parceira do programa Comunidade, Presente!, do Itaú Social. Há 15 anos o programa apoia organizações da sociedade civil em todo o Brasil. Em 2020, teve o seu formato reformulado por causa da pandemia do novo coronavírus e, desde então, beneficiou milhares de famílias com a distribuição de kits com itens essenciais de consumo, como alimentos, produtos de higiene e gás de cozinha. A ação foi realizada em 17 estados brasileiros. Com o recurso, pelo menos 490 famílias foram apoiadas pela Fundação Terra, com cesta básica, kit higiene e kit gás, ao longo de quatro meses. Foram priorizadas famílias de crianças matriculadas na Pax Christi Schola (criada a partir da Escolinha Ping Pong) e a participantes de projetos sociais da fundação. “No momento inicial da pandemia, algumas famílias não conseguiram receber o auxílio emergencial ou trabalhar devido às restrições. O recurso foi de suma importância para elas”, lembra Christiane, integrante do setor de promoção social da fundação.

História de conquistas
Antes da criação da Pax Christi Schola, em 1995, com a construção de um prédio no centro da cidade, as crianças tinham aulas embaixo de uma árvore e, depois, numa casa cedida por uma moradora da Rua do Lixo. Hoje, a escola oferece aulas para o público da educação infantil. Em 2007, foi inaugurada uma segunda unidade: a Pax Christi Schola Rural. Compreende desde os anos iniciais até o ensino fundamental 1 e está localizada próximo a uma tríplice divisa entre os municípios de Arcoverde, Sertânia e Buíque, num território conhecido como Sítio Malhada 2.

O modelo utilizado na gestão das duas escolas é chamado de colegiado da educação. “Todos os profissionais são envolvidos nas decisões porque entendemos que, do porteiro ao gestor, somos educadores e construímos a escola”, explica Cenir Ferreira, supervisora pedagógica da Pax Christi Schola. Além do núcleo pedagógico, há um segundo grupo, que cuida da saúde mental dos estudantes, composto de psicomotricista, psicóloga, psicopedagoga e psicanalista.

As escolas da Fundação Terra oferecem ensino gratuito e, por isso, têm uma alta procura por parte de famílias em situação de vulnerabilidade. Essa característica é levada em conta nos processos seletivos de trabalhadores e de alunos da instituição. Para o primeiro grupo, é preciso que o profissional tenha sensibilidade ao trabalho com públicos vulneráveis. Já para as matrículas, o principal critério utilizado é o grau de vulnerabilidade da família da criança.

As duas unidades do Pax Christi Schola atendem mais de 400 crianças e funcionam em modelo de gestão colegiada. Foto: Fundação Terra

A supervisora conta que a região não dispõe de outras creches e as famílias, por sua vez, não têm acesso ao planejamento familiar. “São, em média, quatro ou cinco crianças por família.”

Juntas, as duas unidades da Pax Christi Schola recebem 402 estudantes. Eles passam a manhã e a tarde na escola, tendo direito a três refeições, banhos, repousos e atividades extras, como música ou esportes. De acordo com Cenir, existe a perspectiva de ampliação dos serviços, em que as escolas passariam a oferecer aulas até o ensino fundamental 2. “É uma necessidade da comunidade, mas não basta a nossa vontade. Temos uma limitação de espaço, portanto não sabemos quando poderemos implantar.” O projeto, entretanto,está sendo desenvolvido pelos gestores.

Com a pandemia, as escolas mudaram a forma de atendimento, mas nenhuma criança deixou de ser atendida. No início, as atividades eram impressas semanalmente e retiradas na escola pelos pais e responsáveis. Atualmente, o retorno à modalidade presencial está em curso. As turmas de trinta alunos estão divididas, com quinze indo à unidade pela manhã e os outros quinze, à tarde. “Uma avaliação positiva é que, com a pandemia, as famílias passaram a socializar mais. Alguns pais, por exemplo, não são alfabetizados e pediam ajuda a nós e aos vizinhos para as atividades dos filhos”, relata a supervisora pedagógica Cenir Ferreira. Ela enfatiza que a pandemia escancarou a desigualdade social da região e fez com que a procura por vagas nas unidades da Pax Christi Schola aumentasse notavelmente.

Hortas têm levado as comunidades do Sítio Malhada 2 a reduzir o consumo de legumes e verduras cultivados com agrotóxicos. Foto: Aline Ramos/Fundação Terra

Agricultura familiar
Em 2021, a Fundação Terra finalizou um projeto de dois anos chamado Quintais Produtivos. A iniciativa visou desenvolver a agricultura familiar sustentável da zona rural de Arcoverde, através da implementação de quintais baseados no modelo de mandala, sistema que une a plantação de hortaliças com a criação de peixes ou aves.

O objetivo principal do projeto foi ensinar às famílias o manejo dos cultivos sem a utilização de agrotóxicos. Criou-se assim a oportunidade de quebrar um ciclo vicioso na região, onde era comum que as famílias fossem exploradas por donos de plantações, sobretudo de tomate, tendo contato direto com agrotóxicos.

De acordo com a fundação, 29 famílias foram atendidas pelo Quintais Produtivos e outras 50 foram impactadas indiretamente. Elas tiveram aulas teóricas e práticas a respeito de como os agrotóxicos são prejudiciais e sobre alimentação saudável, por exemplo. “Essas famílias se tornaram referências para a comunidade no plantio de hortaliças como coentro, cebolinha e rúcula”, celebra a assistente social Christiane Casal. Além de abastecerem suas próprias casas com verduras e legumes orgânicos, as famílias têm conseguido uma renda extra com a venda da colheita excedente.

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