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Muito além do pão

Aprendizados do Instituto Maná do Céu, em Campo Grande (MS), que apoia crianças e adolescentes com educação e cultura — em parceria com o Itaú Social


Atividades presenciais, retomadas aos poucos: revezamento e limitação de participantes a 30% da capacidade. Foto: Instituto Maná do Céu para os Povos/Divulgação

Por Maria Ligia Pagenotto, Rede Galápagos, São Paulo, com Lidiane Barros, Cuiabá (MT)

“As pessoas têm fome diariamente. A fome é hoje, não pode esperar”, assim, enfatizando a urgência de atendimento nas periferias de Campo Grande (MS), Carla Alexandra Rodrigues, presidente do Instituto de Desenvolvimento Humano, Social, Econômico e Cultural Maná do Céu para os Povos, define conceitualmente o nome dessa organização da sociedade civil, nascida em 2009. A fome não é só de pão: é de educação, saúde, atenção. O maná é, na tradição bíblica, o alimento que não pode ser armazenado, pois estraga de um dia para o outro. Se há excesso, precisa ser doado. 

Localizado junto à comunidade Jardim Canguru, em Campo Grande — com 1.600 habitantes e grandes desafios a serem vencidos —, o Maná atende 120 crianças e adolescentes, de 6 a 17 anos, tanto do bairro como de áreas próximas, com perfis bem parecidos. Parceiro do Itaú Social no programa Missão em Foco, que promove o apoio institucional a organizações da sociedade civil, o instituto é uma referência na área de educação cidadã. Antes de atuar nesse território, a organização trabalhava junto ao Parque dos Novos Estados. Deixou o local porque, com o trabalho desenvolvido na região, os problemas mais urgentes foram sanados.

Paralelamente, as situações de risco social se intensificaram em outros pontos, como no Canguru. No diagnóstico das urgências, sentiram que seria necessário se fixar no bairro. “Tínhamos poucos recursos, mas não havia outra forma de dialogar com o território se não fincássemos o pé ali”, afirma Carla Alexandra, pedagoga de formação. 

Em janeiro de 2020, visita a São Paulo e Peruíbe, no litoral paulista: conhecendo o mar. Foto: Instituto Maná do Céu para os Povos/Divulgação

Multiplicação de conhecimento
O desafio era grande: fazer muito com pouco e atender demandas na gestão de conflitos. O bairro havia se verticalizado e as famílias precisavam se adaptar a outro estilo de vida, convivendo agora em conjuntos habitacionais recém-construídos. A equipe do instituto, composta de oito pessoas, entre educadores, assistentes sociais e psicólogo, abraçou o trabalho com muita garra. “Desde sempre, temos muita paixão pelo que fazemos”, diz a presidente. Foram em frente até que, no fim desse mesmo ano, 2017, surgiu a oportunidade de estender o trabalho para 80 crianças e adolescentes do Canguru, por meio de incentivo do Itaú Social. “Na verdade, nosso vínculo foi estabelecido nos dois anos anteriores, quando fomos contemplados com o Prêmio Itaú-Unicef. Mas em 2017 o fomento recebido nos permitiu vivenciar um salto.”

Com o recurso veio a ampliação do grupo de crianças atendidas — e o necessário fortalecimento institucional. “O Itaú Social chegou como uma estrela guia, justamente quando estávamos passando por dificuldades financeiras. Recebemos o convite para participar do programa de fortalecimento institucional, o Missão em Foco, em 2019. Estruturamos a gestão, trabalhamos a governança e a sucessão de liderança. Olhando para dentro da instituição, crescemos, fortalecemos nossas parcerias e melhoramos nossa receita.”

Apresentação do coral, em registro feito antes da pandemia: Foto: Instituto Maná do Céu para os Povos/Divulgação

Carla explica que o programa de consolidação da organização trouxe sustentabilidade e desenvolvimento ao Maná. “Identificando nossa identidade e potencialidades, focamos esforços em ações mais estratégicas. Chegou a um ponto em que estávamos incorporados a uma rede de instituições de fora do Estado e, de outro lado, começamos a repassar o que aprendemos, nos tornando assim multiplicadores de conhecimento dentro do nosso território.”

Notebooks e cestas
Estruturado, o instituto pôde enfrentar a pandemia de uma maneira diferenciada: ao mesmo tempo em que se reformulou diante das situações impostas pela crise sanitária, cresceu na adversidade. “Vivenciamos uma inesperada mudança de fase: estruturamos processos, reformamos a sede, compramos móveis e investimos em equipamentos para interagir à distância com as crianças e adolescentes em um momento em que o distanciamento social era imperativo.”

Além do incentivo via programa Missão em Foco, o Instituto Maná foi contemplado no edital Comunidade, Presente!, nas edições 2020 e 2021. “Também pudemos adquirir notebooks para os professores, para que a equipe trabalhasse em segurança no regime de home office.” Seguindo a regulação que limita o atendimento de entidades assistenciais a 30% de sua capacidade, hoje o Maná trabalha com crianças e adolescentes no sistema híbrido e o comparecimento à sede é feito em revezamento. Das aulas de dança, teatro e música, participam 15 por vez. Com os protocolos de biossegurança, não podem mais realizar as refeições na sede, mas, quando saem, recebem o lanchinho para comer no caminho ou em casa.

“Conseguimos atendê-los de modo que estejam aqui semanalmente. É uma forma de mantermos ativo nosso vínculo.” Quando não estão na sede, têm programação on-line de oficinas e palestras via ferramentas de conferência. O instituto ajuda também uma parcela que não tem como pagar por créditos para o celular. E criou ainda o “caderno interativo”, entregue semanalmente com tarefas preparadas pelos professores e conferidas depois de concluídas. Além das crianças, as demandas das famílias receberam atenção especial, desde o início da pandemia, em março de 2020. Para tanto, o Maná criou uma tecnologia social, para mapeamento e monitoramento das necessidades, e, na primeira fase, finalizada em agosto de 2020, proporcionou assistência, com apoio de parceiros, a 500 famílias — cerca de 3 mil pessoas. Foram entregues kits com alimentos, produtos de higiene e material pedagógico. Em nova etapa, desde maio de 2021, todas as famílias das crianças e adolescentes atendidos pelo Maná têm assegurada uma cesta básica mensal.

Para nutrir a alma
“Giovanna se desenvolveu muito. Era uma criança tímida demais, hoje é outra pessoa”, conta Patrícia Ferreira sobre a filha de dez anos, que frequenta o Maná há três. Voluntária no projeto, Patrícia — antes da pandemia — era ativa na cozinha e na limpeza. Gostava de estar ali, junto dos filhos (ela é mãe também de Juan, de 13 anos) e de outras crianças.

Oficina de culinária, em foto pré-pandemia: aprendendo a fazer e a repartir o pão. Foto: Instituto Maná do Céu para os Povos/Divulgação

Participar do Maná é, para ela, uma forma de retribuir o que os filhos recebem. “A comunidade aqui é difícil; fico feliz de meus filhos terem pra onde ir depois da escola.” Lá eles faziam dança, teatro, coral, atividades interrompidas pela pandemia. Nas boas lembranças de 2020, está a viagem feita com o instituto para São Paulo e Peruíbe. “Foi maravilhoso, fomos para a praia, as crianças conheceram o mar, fizemos muitos passeios, coisas que não teríamos chance de fazer nunca.” Com a pandemia, a atenção que recebeu do Maná do Céu foi fundamental, pois o marido de Patrícia perdeu o emprego, única fonte de renda da família. 

Vínculos comunitários
“Tem criança que sofre violência e não fala para escola, fala pro Maná. Então chamamos a família e a escola e tentamos resolver o problema”, conta Carla. A relação do Maná com os equipamentos do território é muito afinada, ela diz. O instituto também tem vínculos fortes com a unidade de saúde e com o Centro de Referência de Assistência Social (Cras). Na área da saúde, o Maná tem funcionado quase como um posto de atendimento médico, suprindo ausências do posto do bairro. Fechou uma parceria com um hospital evangélico e com alguns médicos. 

“Em alguns dias da semana temos clínico e gastro, além de apoio de uma clínica que faz atendimento obstétrico.” Para o futuro, Carla Alexandra quer que o Maná se fortaleça, porque as necessidades são muitas. “Não conseguimos dormir sabendo que tem gente passando fome, que tem criança sem estudar.” De olho nesse crescimento, ela detecta alguns avanços importantes na condução do instituto. “Com o apoio do programa Missão em Foco, temos investido na formação de pessoal e em planejamento estratégico — isso nos orientou, nos faz ver o futuro.”

A pedagoga Carla Alexandra Rodrigues: “Não medimos esforços para minimizar os impactos da vulnerabilidade social”. Foto: Instituto Maná do Céu para os Povos/Divulgação

Ao fim de cada dia, depois de enfrentar uma jornada nem sempre fácil, a equipe tem o hábito de se perguntar: valeu a pena? “Vemos então que valeu porque a Marjorie comeu, porque outra criança aprendeu, um jovem nos procurou para contar dos seus problemas, e assim vamos em frente.” A energia e a paixão pela transformação social, diz, são marcas dos que se vinculam ao Maná. “Nossa equipe é muito engajada, não medimos esforços para minimizar os impactos da vulnerabilidade social.” O engajamento se traduz na preocupação em levar respostas para o território, ainda que às vezes faltem parcerias para concretizá-las. “A gente não se abate, segue repartindo o pão diariamente”, diz Carla. “Porque a fome é hoje — e não espera.”

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