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MARIA APARECIDA LAGINESTRA – O desafio da aprendizagem coletiva

O envolvimento de alunos, professores e comunidade escolar na produção do conhecimento dá a tônica à 7ª Edição da Olimpíada de Língua Portuguesa, com inscrições abertas até 30 de abril


Dez perguntas para
Maria Aparecida Laginestra
Pedagoga, coordenadora do Programa Escrevendo o Futuro no Cenpec — Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária

Maria Aparecida Laginestra entrega prêmio na Olimpíada de Língua Portuguesa de 2019: “Não é apenas uma competição. Queremos ver o que foi realizado nesse processo de ensino e aprendizagem”.  Foto: Itaú Social

Por Maria Ligia Pagenotto, Rede Galápagos, São Paulo

Maria Aparecida Laginestra é uma entusiasta da produção coletiva na sala de aula. Coordenadora do Programa Escrevendo o Futuro, responsável por realizar a Olimpíada de Língua Portuguesa, a pedagoga acredita que, quando vivenciado de forma conjunta, o processo de ensino e aprendizagem tem um impacto positivo muito grande para alunos e docentes. “Compreendemos que a premiação deve contar com a colaboração de todos”, diz. Maria Aparecida fala na entrevista a seguir sobre essa produção coletiva e outros pontos que norteiam a olimpíada deste ano — com inscrições abertas até 30 de abril.

NNotícias da Educação O foco da Olimpíada de Língua Portuguesa está no professor, em sua formação. O que motivou a proposição dessa estrutura para o programa?

MMaria Aparecida Laginestra — O objetivo da olimpíada é contribuir para a melhoria da leitura e escrita nas escolas, e o desempenho do professor é fundamental. Nossa proposta este ano é premiar os resultados do seu trabalho. Por isso, investimos na formação continuamente, pois esse é nosso foco principal. Oferecemos formação em todos os estados e no Distrito Federal. Para tanto, temos o que chamamos de rede de ancoragem, que é o apoio que recebemos de parceiros. Em alguns anos, nós nos dedicamos intensamente à formação, alternando no ano seguinte com o evento, sem nunca deixar de lado a oferta de cursos para o professor, pelo nosso portal Escrevendo o Futuro. Sobre a olimpíada, optamos este ano por premiar o Relato de Prática, uma produção que é fruto do trabalho do professor feito com toda a turma, por meio dos subsídios que oferecemos. O relato contém as reflexões sobre os processos de ensino e aprendizagem vivenciados de maneira colaborativa pela classe. Alunos participam da produção do conteúdo juntamente com os professores. Sem esse envolvimento, o relato perde o sentido. 

“O professor deve colocar no relato todas as intercorrências e as estratégias que utilizou para superar as dificuldades. Isso é muito importante e é uma maneira de atrair outros professores”

NQual é a expectativa com o Relato de Prática este ano, visto que ele já estava presente nas edições anteriores do programa?

MO relato em si não é novidade; ele já existe. Só que era o aluno quem levava o professor para a final. Este ano é o contrário. Fizemos algumas alterações no regulamento — antes, o relato era algo opcional, que o professor apresentava se queria. Nesta nova edição ele ficou mais robusto. O professor vai trabalhar com esse material a partir do que foi desenvolvido com toda a classe, valendo-se de um dos cinco gêneros em que é possível participar — poema, memórias literárias, crônica, artigo de opinião e documentário. Este, por tudo o que estamos vivendo, é um ano muito desafiador. O professor deve colocar no relato todas essas intercorrências e as estratégias que utilizou para superar as dificuldades. Isso é muito importante e é uma maneira de atrair outros professores.

NPodemos dizer então que o que torna o relato diferente neste ano é que, além da escrita do professor, o material deve conter um histórico da participação da turma toda?

MSim, o envolvimento da classe é o diferencial no relato. A gente quer fazer com que essa aprendizagem seja de ajuda, de colaboração da classe como um coletivo. A olimpíada não é apenas uma competição, em que um ou mais alunos vencem uma etapa e vão para as subsequentes. É um trabalho conjunto. Por isso o professor vai colocar junto com o relato o Álbum da Turma, que é um registro multimídia do que foi realizado. Ele vai escolher um só registro, que tem de ser compatível com o que foi vivido na sala de aula. E quem vai escolher esse registro, junto com o professor, é a classe, com base no que foi mais significativo para eles. Por exemplo, no gênero memórias literárias, tem uma sugestão de entrevistar um morador local que tenha representatividade, que tenha o que dizer sobre aquela comunidade. O professor pode colocar no relato um pequeno podcast dessa entrevista feita pelos estudantes, ou um vídeo rápido. Pode inserir ainda, por exemplo, um sarau dos poemas dos alunos da sala. Os meninos e meninas vão escolher com o professor o registro que julgam ser o mais representativo para colocar nesse álbum. Ainda temos a linha do tempo, que, para nós, é uma metodologia da sequência didática, a partir da qual o professor avalia o conhecimento dos alunos sobre o gênero proposto. Em cima disso ele vai dosar as atividades que virão depois.

NComo funciona isso na prática, com a turma envolvendo-se no trabalho colaborativo?

MEste ano estamos pedindo que a classe escolha três textos, realizados ao longo do ano, em diferentes momentos, por dois alunos. Precisam ser produções significativas, ou seja, que mostrem como o grupo avançou. O professor vai recuperar as primeiras produções desses alunos e isso deve estar no Relato de Prática. É preciso que constem nesse material as produções preliminares e as do final da jornada. É por aí que vemos o percurso de aprendizagem e que vamos enaltecer o professor. Porque pedimos que ele coloque no Relato de Prática quais foram as intervenções que ele fez, tomando por base essas produções selecionadas, para conseguir os avanços que constatamos. Queremos saber os detalhes, quais as intervenções feitas, as atividades propostas, como foram realizadas as devolutivas da produção. Vale ressaltar que trabalhamos muito com bilhetes orientadores na produção de texto, que são perguntas provocativas. Que questionamentos eu fiz a esses alunos para que enxergassem que ali estava faltando alguma situação que poderia ser melhorada? 

“Nós, da olimpíada, valorizamos muito essa questão da aprendizagem coletiva, do conhecimento compartilhado”

Cartaz da 7ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa, em 2021: neste ano os professores ganham ainda mais relevância. Imagem: Escrevendo o Futuro

NPelo conteúdo dos relatos, é possível avaliar como a classe trabalhou conjuntamente? 

MSim, porque cada Relato de Prática deve contar com detalhes todo o processo de ensino-aprendizagem vivenciado de maneira colaborativa pelo grupo. Com o material entregue a nós pelo professor, identificamos os desafios enfrentados pela sala, as dificuldades encontradas no meio do caminho, as reflexões feitas em cima de cada etapa, as discussões e os debates realizados em classe desde o início até a conclusão do trabalho. Podemos identificar também as conquistas de cada aluno, algo a que se chega graças ao trabalho colaborativo. O professor tem que contar como fez para mobilizar e engajar os alunos, para terem uma aprendizagem mais colaborativa, com este objetivo comum: de que essa turma toda pode aprender junto e pode ajudar no processo interativo para a aprendizagem ser mais efetiva. Então isso vai ter que estar no relato e nas produções da linha do tempo. É interessante ressaltar que nós, da olimpíada, valorizamos muito essa questão da aprendizagem coletiva, do conhecimento compartilhado, de ter o princípio de interação mais exacerbado.

NCom o reconhecimento do professor, toda a classe se sente igualmente reconhecida com essa proposta?

MCom certeza! E esta é a nossa preocupação: o que queremos é dar atenção especial ao trabalho desenvolvido pelo professor, valorizando o que foi realizado no coletivo por ele. Assim, quando premiamos um professor, toda a classe é premiada também, pois o que foi apresentado leva a marca do trabalho conjunto; todos são responsáveis por essa produção. Desta vez é necessário ter registros do percurso de aprendizagem para a composição do Relato de Prática.

NO que mais esperam desse trabalho coletivo neste contexto de pandemia?

MEste ano é bastante desafiador, por vários motivos. Nas aulas on-line, existe uma diferença muito grande de conectividade, entre outros fatores que marcam a heterogeneidade na educação. Sabemos que é possível trabalhar colaborativamente à distância porque já tivemos muitas experiências em nossos cursos nessa modalidade. Mas existem problemas, pois a situação é muito diferente de um lugar para outro. O professor tem que criar, pela conexão, um ambiente interessante para atrair os alunos. Compartilhar o trabalho nessa situação é mais difícil.

“Queremos fazer esse movimento de troca, para que a produção de toda a turma não fique concentrada e fechada na gaveta, ou apenas nos murais, mas que saia desse espaço e ganhe vida na comunidade”

NQue tipos de formação estão disponíveis para auxiliar o professor nessa jornada?

MProduzimos vários materiais de apoio. Por exemplo, o portal é semanalmente atualizado com publicações. Temos também um trabalho bastante interativo com o professor e, ao longo das etapas do concurso, fazemos vários webinários com a participação dos docentes. Neste ano, em que a gente sabe que haverá muitas dificuldades com a questão do acesso, no ato da inscrição pedimos para eles um aceite, para saber se podemos mandar, semanalmente, o que chamamos de pílulas pedagógicas — objetos interativos de aprendizagem, com situações que podem provocar o aluno, para eles usarem com a turma. A gente faz isso com cada um dos gêneros, para ajudar o professor, seja na aula presencial, na híbrida ou na totalmente on-line. Já o webinário, com uma professora de português, é para tirar dúvidas. São vários procedimentos, além dos cadernos docentes, que têm algumas pistas para o trabalho virtual, e vamos intensificar isso também no portal.

NO aluno também participa dessa formação ou recebe outro tipo de acompanhamento?

MQuando chegam à fase semifinal, todos os alunos, mais o professor, participam de algumas situações de aprendizagem. Fazíamos isso presencialmente; era ótimo. A última vez foi aqui em São Paulo; ficamos três dias oferecendo atividades de forma intensa para alunos e professores. Agora vamos fazer isso à distância, utilizando plataformas específicas de trabalho e realizando atividades voltadas para a questão da produção de um texto, de acordo com o gênero. Certa vez levamos, por exemplo, um cronista para falar com eles, depois saímos e fotografamos alguma situação que merecesse uma crônica, e eles tinham de produzir esse texto. Agora vamos tentar fazer isso em um ambiente de aprendizagem virtual, com algumas atividades síncronas e outras assíncronas.

NA escolha pelo trabalho conjunto e coletivo como viés desta olimpíada é uma decisão que passa também pelo desejo de engajar a escola e a comunidade onde ela está inserida no programa?

MSim, porque estamos falando bastante de turma, mas na nossa proposta a gente está dizendo muito para que, por exemplo, os professores conversem com outros professores e possam fechar uma parceria. Eles podem, por exemplo, tratar de assuntos ao longo do percurso que demandem conhecimento de outras áreas — do professor de história, do professor de geografia ou mesmo do de ciência. O formato da olimpíada permite essa participação e acena para o envolvimento do diretor da escola no programa. A comunidade também pode marcar presença quando alguém leva para a escola um poeta, cronista ou repentista do local, por exemplo. Transitar pela comunidade é nosso desejo, que fique claro. Queremos fazer esse movimento de troca, para que a produção de toda a turma não fique concentrada e fechada na gaveta, ou apenas nos murais, mas que saia desse espaço e ganhe vida na comunidade.