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Língua portuguesa no centro das discussões pedagógicas

A formação continuada ganha destaque para lidar com os impactos que a pandemia deixou na alfabetização das crianças


A formação continuada em língua portuguesa ganha maior relevância para alcançar o desenvolvimento pleno das competências de leitura e escrita das crianças. Foto: Imagem de vídeo do Itaú Social

Por Paula Salas, Rede Galápagos, São Paulo

Se estiver lendo este texto, é provável que por sua vida passaram diversos professores que fizeram parte de sua formação. No dia 5 de maio, celebramos a língua portuguesa, código que permite que hoje você esteja diante deste conjunto de parágrafos e consiga decodificar e atribuir um significado a estas palavras. 

A tarefa de alfabetizar uma criança em uma língua não é simples. Para alcançarem esse objetivo, os educadores precisam de muito apoio, seja nos anos iniciais da educação básica para apresentar as letras às crianças, ou, no ensino médio, para ajudá-las a se aprofundar na língua materna. “A formação continuada precisa ser entendida como um direito dos educadores, não como um dever ou algo pontual”, afirma Raidalva da Silva, educadora e formadora do Instituto Chapada de Educação e Pesquisa (Icep). Nessa mesma linha, Janara Botelho, formadora do Icep, defende que a gestão escolar garanta as condições para os momentos formativos. “Todos têm de assumir a responsabilidade pela gestão das aprendizagens”, afirma. Além de garantirem os momentos na rotina para essas formações, a coordenação e a direção devem acompanhar os professores na mudança de sua prática a partir do que aprenderam.

De todos os impactos causados na educação durante a pandemia, os que tiveram consequências diretas na alfabetização da criança estão entre os principais pontos de atenção dos educadores. Divulgada no início de 2022, a nota técnica “Impactos da pandemia na alfabetização de crianças”, do Todos pela Educação, apresentou o preocupante cenário. Com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), foi identificado um aumento de mais de 70% no número de crianças entre seis e sete anos que não sabiam ler e escrever — enquanto em 2019 eram 1,4 milhão, em 2021 saltou para 2,4 milhões. As mais afetadas são as crianças pretas e pardas. Diante desse contexto, ganham força os esforços para a recuperação das aprendizagens e para conseguir consolidar a alfabetização dessas crianças. 

“A escola não esteve ausente, porque ela se fez presente, mas foram dois anos de ausência de práticas efetivas para aprender a ler e escrever”, afirma Raidalva. Diante desse cenário, ela enfatiza a necessidade de uma boa formação para apoiar os educadores nesse desafio. “Agora mais do que nunca, é necessário fortalecer as ideias de como se aprende e como apoiar os estudantes a seguir aprendendo”, diz.

As práticas sociais e a iniciação na língua
O trabalho com a língua portuguesa tem início ainda na educação infantil. “Não ensinamos a língua escrita, mas as práticas sociais da linguagem a partir das obras literárias, dos jogos”, explica Raidalva. Para Janara, na alfabetização é necessário haver um foco nas práticas sociais de leitura e escrita. “Os alunos devem poder vivenciar dentro da sala de aula a leitura que precisamos fazer do mundo, aquela que faz parte do dia a dia”, comenta. 

A centralidade do texto deve estar nas práticas de sala de aula. Fotos: Imagens de vídeo do Itaú Social

Ela pontua que, para tal, os professores devem incluir atividades que explorem textos do cotidiano, textos literários e textos de incentivo à investigação. “O texto precisa ser o ponto de partida para a leitura e para a produção textual. A partir dele os demais conteúdos vão emergir”, observa Raidalva.

O que não pode faltar em uma boa formação em língua portuguesa

As formadoras Janara e Raidalva compartilham sugestões

  • Reconhecer-se em sua condição de profissional. Para Raidalva, o início de todo percurso formativo deve ser marcado pela percepção de si e do colega em sua condição de profissionais que devem ser valorizados. “Ser professor é de uma complexidade incrível. Precisa estar o tempo inteiro atualizado. Não é simplório”, defende a formadora. Nesse processo, ela também destaca o reconhecimento da importância da educação e de seu poder de transformação social para dar significado à prática docente. 
  • Ter bem definida a concepção de alfabetização. É a partir dela que será possível pensar no que é necessário estudar e mudar na prática docente. Essa percepção deve ser discutida internamente pelos integrantes da equipe; e a prática docente precisa ser o centro das formações. “O foco deve ser a prática de sala de aula, o que o professor faz ali, e refletir sobre a abordagem”, destaca Janara.
  • Desenvolver o professor como leitor. “Os professores precisam se apaixonar pela leitura”, afirma Janara. Essa transformação fará toda a diferença para que ele, posteriormente, faça o mesmo com seus estudantes. 
  • Refletir sobre como formar leitores e escritores. “Quais são os comportamentos de quem lê? E de quem escreve? Como ensino isso? Quais são os conteúdos necessários para desenvolver as habilidades que se busca atingir?”, sugere Raidalva como uma boa pauta para reflexão e exploração em aula. Ela explica que ao colocar o texto como centro do trabalho docente é possível desenvolver os demais conteúdos curriculares.
  • Pensar em boas estratégias formativas. Raidalva destaca duas: a dupla conceitualização e a tematização da prática. A primeira está relacionada a possibilitar que os professores vivenciem aquilo que devem desenvolver com os estudantes. Dessa forma conseguirão, na prática, perceber o que os alunos precisam dominar para, por exemplo, produzir uma resenha literária. Já a segunda pode ser explicada como a “discussão dos desafios e possibilidades que eles podem enfrentar em uma situação didática. Depois eles realizam a prática e trazem a resposta para o momento formativo seguinte. Eles ficam nesse processo de ir e vir”, diz Raidalva. 
  • Estimular a parceria. “A educação não se faz sozinha. Sempre na coletividade. Ainda que na sala de aula o professor esteja sozinho, ele já discutiu com seus parceiros, com sua rede. É uma representação da coletividade. Ele não pode se isolar’”, destaca Raidalva.
Para se pensar em ações pedagógicas efetivas, formadoras colocam a necessidade de os educadores refletirem sobre o modo como as crianças aprendem. Fotos: Imagens de vídeo do Itaú Social

Formação continuada na prática
O programa Melhoria da Educação, do Itaú Social, criou em 2018 a tecnologia educacional Formação docente em língua portuguesa, que tem como objetivo apoiar as secretarias de Educação a planejar formações que colaborem com ações pedagógicas que permitam o desenvolvimento e o aprimoramento da fluência leitora e de escrita dos alunos. 

O programa gratuito traz um conjunto de estratégias que vão desde a implementação até a avaliação das ações pedagógicas na frente de trabalho da língua portuguesa. Janara e Raidalva participaram da pesquisa de campo que resultou na elaboração desse percurso. Hoje ambas acompanham a implantação da política em diversas redes municipais no Nordeste do país — Janara no Piauí e Raidalva na região da Chapada Diamantina, na Bahia. 

Para a elaboração de um plano de formação continuada, Janara diz que o primeiro passo é fazer um diagnóstico das aprendizagens das crianças. “Essa avaliação não tinha intenção de expor ou detectar os problemas, mas de obter informações que nos ajudassem a definir as frentes de trabalho”, conta Janara. “A partir das fragilidades e potencialidades, montamos um plano de formação que olhasse onde as crianças estavam e pensasse o novo currículo, alinhado à Base Nacional Comum Curricular”, complementa.

Durante esse trabalho, deram início a um processo de formação, planejamento, execução das ações e avaliação. “Para termos sucesso, precisamos ter todo mundo engajado e mobilizado. Quanto mais os educadores aprendem e mudam suas práticas, mais entendem que é importante continuar se mobilizando”, diz Janara. 

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