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A leitura no ambiente digital: uma mediação possível

Webinário promovido pelo Itaú Social destaca como é possível promover uma leitura crítica e profunda usando juntos o suporte impresso e o digital


Luisa Setton: “Esse cuidado faz com que a leitura já chegue como um presente de alguma forma. Para além da maravilha do livro, essa relação [entre leitor e literatura] já vem pautada no afeto.”. Foto: Arquivo Pessoal

Por Gustavo Queiroz, Rede Galápagos, Curitiba

Existe uma biblioteca no Amapá que dialoga com outra, próxima ao mar, no Pará. As duas estão distantes geograficamente, mas pertencem à mesma Amazônia. Essa sensação de pertencimento, de partilhar um chão comum, levanta o interesse que as comunidades leitoras têm de reconhecer as próprias potências por meio da leitura. Nesses lugares, um livro vivo significa uma comunidade viva, e vice-versa. Mas os desafios para expandir o acervo em meio às dificuldades logísticas que existem aqui e ali abrem uma nova oportunidade: a chegada do digital como ferramenta complementar de mediação de leitura.

Essa relação que a leitura tem com a cultura local é muito viva na história da Vaga Lume, organização que promove a gestão de bibliotecas em comunidades rurais da Amazônia. “A Vaga Lume surgiu do reconhecimento não de uma região que tinha falta de algo, mas de que tinha muita coisa para oferecer e, ao mesmo tempo, era muito desconhecida”, lembra Luisa Setton, coordenadora de negócios sociais nessa organização da sociedade civil. Com o tempo, a descoberta da biblioteca como espaço de articulação comunitária deu espaço a novos projetos, que agora permitem o uso das ferramentas digitais na formação de leitores. Essas ferramentas chegam aos poucos e se incorporam ao dia a dia de uma comunidade já interessada em ler.

Essa e outras experiências foram narradas no webinário A leitura no mundo digital, promovido pelo Itaú Social e que contou com a presença de Mara Sofia Zanotto, professora da PUC-SP; Giselly de Moraes, da Universidade Federal da Bahia (UFBA); e Luisa Setton. A abertura foi feita pela pesquisadora americana Maryanne Wolf, autora do livro O cérebro no mundo digital (Editora Contexto, 2019). Na obra e no encontro virtual, Wolf levanta uma discussão urgente: como podemos encontrar aprendizado por meio da leitura, a partir da conexão entre o texto impresso e o virtual?

Marianne Wolf: ”Vocês estão conscientes que a sua leitura está mudando?” Foto: Reprodução

Letramento duplo
Maryanne Wolf defende a possibilidade de um letramento duplo. A proposta é juntar as duas formas de mediar a leitura em um contínuo que leva ao que chama de “leitura profunda”. No último capítulo de seu livro, a neurocientista cita o escritor italiano Italo Calvino, que diz: Festina lente (em português, “apresse-se devagar”). Para ela, a expressão latina é uma metáfora para a paciência cognitiva com que a leitura pode acontecer no mundo digital. “Você lê depressa (festina) até tornar-se consciente (lente) dos pensamentos que cabe compreender”, escreve. 

É essa a ideia que os novos projetos da Vaga Lume impulsionam nas comunidades leitoras da Amazônia. A organização já tinha um histórico de atuar com a formação de mediadores de leitura para inserir mais pessoas nos processos democráticos. “A literatura é uma das principais formas de termos uma democracia efetiva. Vivemos em um sistema que precisa que as pessoas saibam ler. Ela é fundamental para essa formação de país”, afirma Setton.

Nesse processo a OSC atua em várias esferas possíveis de mediação, que diminuem a distância entre o livro e a criança. Em 2019, a Vaga Lume iniciou um projeto piloto em cinco comunidades rurais no norte do país, no qual levou um acervo de 200 livros baixados em kindles — aparelhos digitais para leitura de textos. A partir de um edital, chegaram a bibliotecas vinculadas à organização onde havia jovens que buscavam um acesso mais adequado às suas vontades literárias.

No mesmo compasso do que afirmou Wolf, Luisa Setton considera que o digital é um novo meio, mas que não elimina a leitura do livro embaixo da árvore ou dentro da canoa. “O ideal é explorar os potenciais de cada forma de leitura”, propõe.

“Os jovens tiveram curiosidade pelo equipamento e o sentimento de estar de alguma forma mais inseridos”, conta. No formato do projeto, os adolescentes podem pegar emprestado um kindle na biblioteca, o que contorna diversos problemas de acesso. Em lugares afastados dos centros urbanos, a logística para levar 200 livros muitas vezes dificulta que a biblioteca tenha um acervo mais adequado. O digital, então, surge como alternativa.

Giselly de Moraes “O problema da leitura ainda é um problema político, de políticas públicas e acesso ao livro.” Foto Reprodução

Além dos kindles, a Vaga Lume também inicia projetos de implementação de internet em duas comunidades com pouco acesso. A próxima etapa inclui a mediação do uso da ferramenta para a cidadania digital.

Leitura profunda
No webinário, Wolf revela que a leitura digital é um caminho possível. Ela explica que a plasticidade do cérebro permite o rearranjo de muitas maneiras de ler. Essa flexibilidade facilita a compreensão do texto, seja no papel ou na tela. Mas o mais importante é que o leitor e a leitora possam conectar o que se lê com o reconhecimento dos valores. Ou seja, não se trata apenas de ler no digital, mas também de reconhecer o contexto em que aquele texto se dá. 

A pesquisadora chama essa interpretação crítica de “leitura profunda”. “No digital, estamos preparados para processar quantidades maciças de informação”, explica. “Tudo isso pode ser bom, ou pode ser ameaçador, devido ao tempo que se atribui ao processo de leitura profunda.” Isso quer dizer que as tecnologias não estão fora do processo de aprendizado. Há vantagens na leitura na tela eletrônica e há vantagens na palavra impressa. Mas a qualidade com que se lê é que vai determinar a aprendizagem. 

A pesquisadora em literatura infantil digital da UFBA Giselly de Moraes concorda com a neurocientista. Para ela, não é possível opor o impresso ao digital. “Existe uma dificuldade de leitura profunda que não vem somente com o digital. Ela vem desde o impresso. A leitura exige qualidade de mediação, qualidade do texto, qualidade da escola. Em algum momento esse cérebro vai se adaptar ao digital, porque ele é plástico”, defende. 

Leitura fragmentada
Sobre a ideia de que a leitura no digital é muito fragmentada, Moraes lembra que toda leitura precisa de pausas, inclusive quando feita no meio impresso. “Cada leitura requer uma temporalidade. A gente lê de forma fragmentada um livro de poemas. Dependendo do gênero, a gente também faz uma leitura fragmentada no impresso”, aponta. “A leitura digital traz novos contextos de leitura. Tem cada vez mais gente lendo romances nos leitores digitais, por exemplo.”

Mara Zanotto: “A decodificação é o estágio inicial da leitura. O que vem depois é raciocínio referencial e raciocínio coletivo no grupo para resolver os enigmas da linguagem figurada.” Foto: Reprodução

A professora da pós-graduação em linguística da PUC-SP Mara Zanotto também aponta que a vivência em grupo e a prática escolar são outras formas de mediação que podem levar a uma melhor interpretação do texto. “A prática escolar para na decodificação. Não favorece uma leitura profunda, como Maryanne Wolf propõe. Os leitores podem ser mediadores entre si, não somente o professor”, conclui.

Os diálogos no webinário apontam que a tecnologia digital pode ser boa, desde que adequada ao tempo e à necessidade de cada um. É o que lembra Wolf. “Acesso e equidade permeiam tudo o que eu disse. Parte do que eu quero é justiça social. Essas questões de desenvolvimento da linguagem, da leitura, do conhecimento de base e do acesso à tecnologia digital serão afetadas por questões de igualdade”, afirma. “Como sociedade, nós temos de estar certos de que entendemos quem lê, o que lê e onde lê em nosso país.”