Ir para o conteúdo Ir para o menu Ir para a Busca

AGÊNCIA DE

Notícias

Dez perguntas para

Juntos, somos mais fortes

Especialista em impacto social comenta a atuação das OSCs durante a pandemia, seu papel fundamental na busca por justiça social e no desenvolvimento da democracia — e como elas podem contribuir no enfrentamento das desigualdades


Dez perguntas para
Célia Schlithler
Consultora em desenvolvimento profissional para impacto social

“A atuação das OSCs, incluindo as de base comunitária e os coletivos, têm sido primordiais no enfrentamento dos problemas decorrentes da pandemia”, afirma a consultora Célia Schlithler. Foto: Arquivo pessoal

Por Paula Salas, Rede Galápagos, São Paulo

É preciso uma aldeia para se educar uma criança. A pandemia reforçou o significado desse provérbio africano. Os desafios impostos pelo contexto exigiram a cooperação de diferentes setores. A parceria que existia antes mostrou-se ainda mais essencial. Célia Schlithler, consultora em desenvolvimento profissional para impacto social, vê esse trabalho de perto desde 1979, quando se diplomou na faculdade de serviço social. Recém-formada, foi trabalhar em uma organização da sociedade civil (OSC) que atendia crianças e adolescentes com deficiência. “Na época fiz um curso para trabalhar com grupos, porque eu tinha a convicção de que as famílias tinham muito a contribuir entre si, podiam trocar experiências e pensar juntas em caminhos para vencer as dificuldades”, explica a especialista. “É um processo transformador, em que indivíduos vão se desenvolvendo a partir da relação com os demais integrantes do grupo, e eles são estimulados a propor ações. Desse modo, as mudanças chegam ao âmbito social, que, por sua vez, alimenta novas mudanças nos grupos e indivíduos”, complementa. Célia acompanhou muitos grupos, trabalhou com desenvolvimento de diversas OSCs e com formação de centenas de facilitadores. A partir dessa experiência, Célia fala das iniciativas comunitárias durante a pandemia e como elas podem contribuir para enfrentar os impactos sociais deixados por esse período.

NNotícias da Educação — Vivemos uma crise socioeconômica agravada pela pandemia. Qual é o papel das OSCs no enfrentamento dessa realidade?

CCélia Schlithler Na conjuntura atual, com as consequências sociais da pandemia de Covid-19 e os retrocessos em políticas e programas conquistados, o que já era complexo ficou mais desafiador ainda. 
As OSCs têm um papel fundamental na busca por justiça social e no desenvolvimento da democracia. Elas fazem parte do Sistema Único de Assistência Social (Suas), ao levar serviços, programas, projetos e benefícios à população, e contribuem no enfrentamento da complexidade dos problemas sociais desde sempre — além de ter um papel muito importante na garantia de direitos sociais. 

NComo tem sido a atuação dessas organizações durante a pandemia? 

CQuando as escolas tiveram de ser fechadas, no começo da pandemia, muitas organizações evitaram que crianças fossem ainda mais prejudicadas, inclusive na manutenção da segurança alimentar. Elas mantiveram as portas abertas e foram muito procuradas pelas famílias em busca de orientação sobre seus direitos. 
Há muito a fazer diante do agravamento dos problemas sociais decorrentes do período de pandemia, as mortes; as perdas de empregos e de poder aquisitivo; o aumento da violência doméstica e do trabalho infantil; os transtornos mentais, entre outros. As OSCs estão mapeando os problemas, ampliando atendimentos, mobilizando recursos para novas ações e projetos e articulando as redes de proteção.

NDesde a Constituição de 1988, muitas conquistas e avanços em políticas sociais foram possíveis. Durante esse período, de lá para cá, o que mudou para as OSCs?

CNo início, tínhamos instituições de caridade fundadas com forte influência religiosa. Basta lembrar que a Santa Casa de Misericórdia de Santos foi uma das primeiras organizações sem fins lucrativos do Brasil. Foi nos anos 1970, em resistência ao autoritarismo do período de ditadura, que surgiram muitas OSCs relacionadas a causas e organizações de base comunitária. Eram entidades criadas pelas comunidades, e não para elas. Desde os anos 1980, acompanho a evolução das organizações sociais em sua trajetória rumo a uma ação destinada a transformações sociais, superando o cunho assistencialista que está em suas origens. Nos anos 1990, começaram as oportunidades de profissionalização das OSCs. Essas parcerias foram evoluindo. Mais recentemente, estou acompanhando o surgimento dos coletivos, que estão oxigenando o setor social com sua visão inovadora, gestão horizontal e trabalho em rede na defesa da diversidade e de grupos com direitos violados.

“Nenhuma escola consegue fazer bem o seu trabalho se os professores estão angustiados com o aumento dos problemas sociais dos alunos.”

Assine nossa newsletter

Com ela você fica por dentro de oportunidades como cursos, eventos e conhece histórias inspiradoras sobre profissionais da educação, famílias e organizações da sociedade civil.

NA senhora fala de uma superação do assistencialismo. Pode explicar a diferença?

CO assistencialismo é uma prática que estabelece uma relação de dependência entre quem é ajudado e quem ajuda; por isso não cria condições para as pessoas buscarem transformações na vida delas. Já a assistência social é um direito fundamental, garantido constitucionalmente.

NHouve uma mudança de percepção da imagem das OSCs nesse período de pandemia?

CHouve muitas empresas que decidiram fazer doações para ações sociais e logo se deram conta de que, sem parceria com as OSCs, não conseguiriam definir para quem doar, teriam de resolver muitas questões de logística, entre outros aspectos incompatíveis com a urgência da situação. Dessa forma, a partir da pandemia, aquele perverso discurso de desqualificação e desconfiança relacionado às OSCs deu lugar à valorização de sua agilidade, capilaridade e capacidade de articulação para o enfrentamento das vulnerabilidades decorrentes das desigualdades sociais.

NComo esses grupos se organizaram para apoiar a população?

CAs OSCs, incluindo as de base comunitária e os coletivos, têm sido primordiais no enfrentamento dos problemas decorrentes da pandemia. As associações e coletivos de moradores de favelas criaram rapidamente iniciativas de grande impacto, com sua capacidade de operar de forma desburocratizada, com agilidade e em rede. Veja, por exemplo, o caso de Paraisópolis, na capital paulista, onde cada grupo de 50 famílias elegeu uma pessoa como referência para detectar necessidades e buscar soluções. A partir disso, foram feitas parcerias que viabilizaram até um serviço próprio de ambulância. A articulação em rede, como a da Central Única das Favelas (Cufa) e a do G10 das Favelas, e todas as OSCs que trabalharam no atendimento emergencial também são exemplos de iniciativas que vêm mudando o olhar da população sobre essas organizações.

NAlém da oferta de serviços da assistência social, as OSCs também têm uma contribuição importante na educação. Qual é o papel que elas ocupam dentro do setor educacional?

CNenhuma escola consegue fazer bem o seu trabalho se os professores estão angustiados com o aumento dos problemas sociais dos alunos. Tampouco as OSCs conseguem suprir todas as necessidades das crianças e famílias. O melhor a fazer pelas crianças, adolescentes e jovens é atuar em rede. Desde que a pandemia começou, as OSCs já ficaram alertas para isso, pois, mesmo sem poder atender as crianças e adolescentes, permaneceram com as portas abertas e acompanharam o que estava acontecendo. Quem pensa que as organizações sociais querem reproduzir atividades escolares não conhece seu dia a dia. Não é esse o seu papel. 
Contudo, sabendo que agora há defasagens consideráveis, as OSCs estão criando estratégias para trabalhar mais a leitura, o pensamento lógico e tudo que possa contribuir para o desenvolvimento cognitivo de forma lúdica e criativa. Sua atuação habitual no desenvolvimento de competências socioemocionais e no relacionamento com familiares e comunidade escolar ganhou mais relevância. 

“Cada criança é uma só. Não podemos dividi-la e colocá-la em quadrados. Aquela absurda cisão entre a educação e a assistência social hoje faz menos sentido do que nunca.”

NO que significa trabalhar em rede?

CAtuar em rede não é fazer o que eu chamo de “prática do encaminhamento”, que consiste em dar o endereço de outro serviço. Isso é passar o problema para a frente e levar as famílias a percorrer um frustrante labirinto de filas que reforça o senso comum de ineficácia dos serviços. Nas redes as pessoas e organizações se conectam de forma horizontal através do diálogo, cocriação, interações em que todos têm o poder de opinar, propor e agir.

NNeste momento de enfrentamento dos impactos da pandemia, coloca-se muito a importância da colaboração. Qual é a importância desse trabalho em parceria?

CCada criança é uma só. Não podemos dividi-la e colocá-la em quadrados. Aquela absurda cisão entre a educação e a assistência social hoje faz menos sentido do que nunca. O aumento das dificuldades de aprendizagem e o abandono e a evasão escolar são problemas complexos. É necessário reconhecer a interdependência: cada profissional ou organização precisa dos demais para atingir seus próprios objetivos. Todos, juntos e articulados, conseguem enfrentar essa situação tão desafiadora com mais leveza, potencializando seus próprios recursos e ampliando as possibilidades de incidência em políticas públicas para que haja efetivo impacto social.

NComo essa parceria pode acontecer na prática?

COSCs, escolas, Unidades Básicas de Saúde (UBS), Centros de Referência de Assistência Social (Cras), Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas), Centros de Atenção Psicossocial (Caps), conselhos tutelares, Conselhos Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente e associações de moradores precisam dialogar e analisar juntos as dificuldades, a situação das famílias e o contexto comunitário para planejar e realizar ações colaborativas e complementares. Um bom exemplo é o programa Experiências em Rede, do Itaú Social, que resulta de um projeto-piloto em que ficou comprovado que OSCs conseguem criar e implementar ações em rede para enfrentar problemas na aprendizagem de crianças e adolescentes.

Assine nossa newsletter

Com ela você fica por dentro de oportunidades como cursos, eventos e conhece histórias inspiradoras sobre profissionais da educação, famílias e organizações da sociedade civil.