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De revistas usadas a aipim: itens de kits pedagógicos valorizaram a cultura local e estimularam mais de 100 crianças a desenvolver a criatividade enquanto aprendiam, em Ilhéus (BA)


Crianças se divertiram durante a aula de surfe: “Foi difícil conter a empolgação”, diz Ligia Mendes, conselheira do Instituto Mãe Terra. Foto: Ricardo Miura

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Salvador (BA)

Talvez seja difícil imaginar o que um projeto de extensão de uma universidade, uma associação pelo desenvolvimento social e escolas de surfe podem ter em comum. Em Ilhéus, na Bahia, a resposta passa pelo compromisso com o futuro das crianças. Com atuações em diferentes áreas, seis instituições do município trabalham em rede no projeto Brincando e Aprendendo, que visa amenizar o impacto que a pandemia causou na educação.

A variedade de grupos envolvidos na iniciativa proporciona o atendimento a crianças em toda a cidade, estejam elas na aldeia indígena Tabajairi, na zona sul, ou na comunidade São Miguel, ao norte, por exemplo. Ao longo de seis meses, os estudantes receberam materiais e desafios pedagógicos e temáticos para incentivá-los a se manterem estudando. “Em princípio, trabalharíamos com 60 crianças, mas acabamos atendendo 118″, conta a educadora social Ligia Mendes. Ela é conselheira do Instituto Mãe Terra, uma das instituições envolvidas no projeto.

O projeto Brincando e Aprendendo foi um dos selecionados para participar do programa Experiências em Rede, do Itaú Social, que tem como objetivo incentivar a construção de ações colaborativas entre organizações da sociedade civil de um mesmo município para que, juntas, contribuam para o combate ao abandono e evasão escolar. Mais de 10 mil crianças e adolescentes foram beneficiados no ano de 2021. Ao todo, 173 organizações de 41 municípios participaram do programa. 

Valorizando o contexto local
“É gostoso e nutritivo, além de estar à disposição nas comunidades.” Ligia fala sobre o aipim, que fez parte do kit pedagógico entregue às crianças no segundo mês das atividades. O tema daquele período foi qualidade de vida e alimentação saudável, motivo pelo qual os estudantes foram desafiados a produzir brigadeiros de aipim. “Cozinhar é uma atividade que aproxima. Recebemos vários vídeos de pais e mães fazendo o brigadeiro junto com a criança”, lembra a educadora social, com um sorriso no rosto. Segundo ela, promover esse momento de integração entre a criança e sua família também era objetivo da atividade.

A proposta do projeto foi parecida em todos os meses: o desafio pedagógico estava vinculado ao kit de materiais e ao tema definido para aquela etapa. Os temas, por sua vez, estiveram relacionados ao contexto local. Ecossistemas marinhos e costeiros foram abordados no primeiro mês. As comunidades atendidas estão localizadas à beira-mar. Em São Miguel, parte considerável das famílias inclui pescadores ou marisqueiras. O desafio da vez foi juntar tampinhas de garrafas PET, posteriormente encaminhadas para uma associação de reciclagem.

Ao fim de cada mês, havia um desafio adicional. Em casa, as crianças deveriam confeccionar fanzines sobre o tema em questão. “Demos todas as dicas aos pais e mães para que os desafios proporcionassem um momento instrutivo”, ressalta Ligia. Além das orientações, as famílias receberam as matérias-primas das fanzines, como revistas, tesouras e colas em bastão. Ligia conta que pediu a sua mãe, dona de um sebo, a doação de jornais e revistas. “Os professores gostaram porque é cada vez mais difícil encontrar revistas impressas para esse tipo de trabalho.” Entre os 118 meninos e meninas alcançados pelo projeto estão alunos dos projetos de surfe e de escolas locais, como o Colégio Estadual Indígena Tupinambá de Olivença e a Escola Municipal Sérgio Carneiro, também de Olivença, além de crianças e adolescentes atendidos pela Instituição de Acolhimento Renascer. 

Desafios e oportunidades
Sucesso entre pais, mães e estudantes, as fanzines temáticas foram uma alternativa de baixo custo para que o projeto Brincando e Aprendendo pudesse atender mais pessoas. No escopo inicial, os desafios pedagógicos envolveriam, principalmente, materiais em formato de vídeo. “Quando chegamos, a realidade era outra. As crianças não tinham acesso à internet, computador ou dispositivos móveis. O que projetamos no início não funcionaria”, lembra Ligia, uma das idealizadoras da iniciativa.

As crianças estavam sem aulas pelo mesmo motivo. Os professores não tinham como disponibilizar os conteúdos ou dar aulas on-line. Após reunião entre as instituições participantes do projeto e coordenadores das escolas, ficou decidido que o recurso – antes destinado aos custos com o audiovisual – deveria ser utilizado para a produção de materiais impressos. O alívio no orçamento foi imediato. “Não precisaríamos mais pagar videomaker, edição. Tudo isso é custoso e trabalhoso.”

A estratégia deu certo. Além de ter alcançado mais crianças, o projeto encontrou o seu objetivo pedagógico. “Quando recebemos as fanzines, percebemos que tinha funcionado. Tinham aprendido de forma lúdica e estavam usando a criatividade.”

Ao longo de seis meses, o projeto entregou materiais e desafios pedagógicos a 118 crianças, em Ilhéus. Foto: Ricardo Miura

De acordo com Ligia, a entrega dos materiais escolares às famílias foi um importante fator motivador. “Quando chegavam os materiais, os olhinhos das crianças brilhavam.”

Algumas estratégias precisaram ser estabelecidas para chegar às crianças que vivem em algumas das comunidades mais distantes. Na aldeia Tabajairi, por exemplo, os moradores não recebiam pessoas de fora, devido à pandemia. Nesse caso, as famílias foram assistidas por intermédio de um educador parceiro que já realizava atividades no local. Já em São Miguel, localidade conhecida como “favelinha”, Ligia explica que “não é todo mundo que pode entrar”. “A presidente da associação de moradores e o professor de surfe fizeram a ponte.”

As dificuldades encontradas em São Miguel serviram de aprendizado para a continuidade do trabalho. Apesar de o projeto ter conseguido chegar até as famílias do local, o retorno das atividades pedagógicas foi insuficiente. “Até recebíamos os vídeos e as fotos, mas muito pouco do produto final mesmo”, lamenta a educadora social. O mesmo não aconteceu nas escolas e na Instituição de Acolhimento Renascer, onde o engajamento foi positivo. “Percebemos que o retorno é mais concreto quando a criança tem uma tutoria e estamos alinhados com a coordenação pedagógica. Faz parte do caminho ir fazendo e vendo o que funciona e o que não.”

A execução do projeto ainda não foi concluída. As fortes chuvas que acometeram municípios do sul da Bahia em dezembro de 2021 adiaram o encerramento da atividade: uma aula de surfe para as crianças do Instituto Renascer e da comunidade de São Miguel. As demais atendidas pelo projeto já tiveram o seu encontro de fechamento. “Foi difícil conter a empolgação das crianças na hora de entrar no mar”, celebra Ligia.

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