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Em Caetité (BA), associação promove acolhimento, suporte e acesso às terapias necessárias para mais de 60 famílias de crianças com autismo


Ana Lis brinca sob os olhares de voluntárias da Associação Anjo Azul. Valéria, à direita, é mãe de Ana e tesoureira da organização. Foto: Arquivo Associação Anjo Azul.

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Salvador (BA)

Agda Toledo tem um filho de dois anos. Quando suspeitou que a criança poderia ter o transtorno do espectro autista (TEA), buscou ajuda para encontrar um médico que pudesse fazer o diagnóstico. “Na mesma semana, o meu filho começou a fazer as terapias. Diagnóstico e intervenção precoces são muito importantes.” Pessoas com TEA geralmente precisam de algumas terapias para lidar melhor com a condição, como fonoaudiologia e psicopedagogia.

Caetité, onde moram Agda e o filho, é uma pequena cidade do sudoeste baiano, a mais de 600 quilômetros de Salvador. O diagnóstico e o rápido início do tratamento só foram possíveis graças à atuação da Associação de Pais e Amigos dos Autistas de Caetité — Anjo Azul. A organização surgiu em 2016, a partir da demanda das famílias de crianças com TEA, que não encontravam o suporte necessário no município. Hoje, cerca de 100 pessoas com autismo são impactadas de alguma forma pelo trabalho da associação.

Pouco tempo depois de se associar, Agda passou a integrar a diretoria da Anjo Azul. “Percebi quanto a associação estava me ajudando e quis contribuir para que outras mães tivessem o acolhimento e o suporte que eu tive.” Entre os objetivos da instituição, está o de desconstruir a ideia de que pessoas com autismo são incapazes. Para isso, são realizadas ações de conscientização, como simpósios e passeatas, que promovem visibilidade às demandas das pessoas com deficiência.

Uma parceria com a prefeitura de Caetité garante uma sede para a Associação Anjo Azul. Alugado, o espaço é utilizado para reuniões, palestras e atividades de lazer para as crianças. “É um momento de alívio para as mães. Uma oportunidade de compartilhar as suas dores e encontrar suporte em outras pessoas que vivem a mesma situação.” O local também tem servido como ponto de apoio da Secretaria de Desenvolvimento Social do município para que caetiteenses façam a Carteirinha do Autista, uma identificação da pessoa com deficiência.

Por meio do projeto intitulado Suporte e Acolhimento em Tempos de Pandemia: Intervenção Terapêutica Multiprofissional para Crianças e Adolescentes com Deficiência na Associação Anjo Azul em Caetité-BA, a instituição tem garantido às famílias dos associados o acesso às terapias necessárias para uma vida melhor. A ideia foi uma das selecionadas no Edital Fundos da Infância e da Adolescência (Edital FIA), do Itaú Social, em 2021.

O edital é parte do programa IR Cidadão, que estimula os colaboradores do Itaú a destinar parte de seu imposto de renda devido aos Fundos da Infância e da Adolescência (FIAs). Já no preenchimento da declaração do imposto de renda, qualquer contribuinte pode destinar até 3% de seu imposto de renda devido aos FIAs, ação que também é incentivada pelo Itaú Social.

Núbia Souza, vice-presidente da Associação Anjo Azul, Agda Toledo, presidente, e Jordana Santos, psicóloga, em dia de atividades na sede. Foto: Arquivo Associação Anjo Azul

“Transformamos a dor em motivação”
“Com a pandemia, as pessoas estavam tendo que escolher entre comer e fazer as terapias”, lamenta Agda, atual presidente da Associação Anjo Azul. ”Quando coloquei na ponta do lápis, vi que o custo de uma sessão por semana de cada uma das terapias solicitadas pelo neurologista dava mais de R$ 1.500 no fim do mês”, continua, destacando que esse preço já considera os descontos a que os associados têm direito. Em 2021, o valor máximo do auxílio emergencial, benefício destinado a famílias de baixa renda durante a pandemia, era de R$ 375.

Antes da Covid, profissionais de saúde da região realizavam os atendimentos terapêuticos por um valor social, na sede da associação. Ainda assim, muitas famílias não tinham condições de pagar pelos serviços. “Uma semana ou mesmo um dia sem terapia faz muita diferença para uma pessoa que tem atrasos no neurodesenvolvimento, como o nosso público.” Agda conta que o edital surgiu como uma oportunidade de proporcionar o tratamento necessário aos associados da Anjo Azul.

O primeiro passo foi realizar um levantamento entre os associados para entender quais eram as maiores necessidades. Seis diferentes tipos de terapia entraram no catálogo do projeto: fisioterapia, fonoaudiologia, musicoterapia, psicologia, psicopedagogia e terapia ocupacional. Esta última não pôde ser ofertada, pois não foram encontrados profissionais disponíveis na região. A redução no número de modalidades terapêuticas, porém, representou um aumento no número de pessoas contempladas. Isso aconteceu porque nem todos os associados tinham em seus laudos médicos a recomendação para cinco ou seis tipos de acompanhamento. Algumas pessoas precisavam de apenas um. Assim, as horas antes destinadas à terapia ocupacional foram redistribuídas para as outras terapias.

Semanalmente, mais de 60 pessoas se dirigem à sede da Associação Anjo Azul para os atendimentos. Ao todo, são 25 horas de fonoaudiologia, psicologia e psicopedagogia, mais 15 de fisioterapia e 10 horas de musicoterapia, indicação menos comum nos laudos. O recurso financeiro é exclusivamente destinado à contratação dos profissionais de saúde, todos de Caetité ou de municípios vizinhos. Os atendimentos começaram em março deste ano e estão previstos até o mês de dezembro.

Evoluções a partir dos acompanhamentos terapêuticos são mais bem notadas a longo prazo. Em algumas ocasiões, entretanto, apresentam resultados imediatos. “Houve um caso em que a criança estava sem se alimentar havia duas semanas. Após a primeira sessão com a psicóloga, chegou em casa e comeu”, lembra a dirigente da associação. Ela explica que crianças com autismo podem desenvolver seletividade alimentar e, consequentemente, não conseguir comer alimentos de determinadas texturas.

Com a visibilidade do projeto, famílias de pessoas com TEA estão tendo a oportunidade de conhecer o trabalho da associação. “Posso garantir que as famílias estão muito agradecidas porque há crianças que nunca haviam feito terapia nenhuma.” A Associação Anjo Azul faz a diferença na vida de muitas famílias em Caetité, e a de Agda Toledo está inclusa nessa conta. “Não dá para ficar só olhando quando ouvimos os depoimentos de outras famílias”, afirma. E ela quer mais. “Agora é pensar grande, porque, depois de darmos um passo gigante como esse, não queremos dar outro menor.”

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