Ir para o conteúdo Ir para o menu Ir para a Busca
Polo de desenvolvimento educacional
Notícias Especiais

Desenvolvimento institucional: modos de fazer

Conheça os desafios e as oportunidades de programas com foco no apoio ao desenvolvimento institucional de organizações da sociedade civil


Qualquer aprendizado é mais rico quando tem lastro na experiência. Quando se trata de programas sociais, esta afirmação é ainda mais verdadeira. O fazer social se dá no cotidiano, no curso das relações, por isso é fundamental que sejamos capazes de compreender o que a prática nos diz, tendo como ponto de partida o saber consolidado da área.

É preciso alertar: não há receitas. As soluções só são eficazes quando formuladas no processo, considerando o contexto e a realidade de cada grupo. Ainda assim, os aspectos levantados aqui podem contribuir com outras experiências, à medida que oferecem um conjunto de elementos importantes a serem considerados em iniciativas que apoiam o desenvolvimento institucional de organizações da sociedade civil (OSCs).

Neste episódio, os aspectos em destaque são:

Conheça como cada um desses elementos se desenvolve na experiência dos programas de fortalecimento da sociedade civil do Itaú Social.

Fomento a partir de recursos flexíveis

Historicamente, a forma de apoio mais comum às organizações sociais tem sido a de linhas programáticas específicas definidas pelo investidor. Segundo dados do Censo 2018 do GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas), 58% dos respondentes disseram aportar recursos segundo esta lógica. Ao longo de décadas, esta prática fragilizou as OSCs que, para se adaptarem aos editais, muitas vezes se viram obrigadas a desviarem de seus propósitos para desenvolver um projeto específico no intuito de captar recursos básicos para se manterem.

Do ponto de vista simbólico, este cenário a longo prazo contribuiu também para a cristalização de uma visão equivocada no setor: a de que OSC deveriam centrar esforços em projetos, em detrimento da sua estrutura institucional. Em outras palavras, criou-se um senso comum de que, ao se investir na própria instituição – como por exemplo, em áreas de comunicação, monitoramento e até infraestrutura –, desviavam-se recursos preciosos que deveriam ser canalizados prioritariamente ao atendimento às comunidades. Assim, muitas organizações não puderam investir em seus alicerces, que é condição fundamental para a vitalidade de suas ações e para o fortalecimento do campo da sociedade civil como um todo.

Felizmente este cenário, em alguns aspectos, apresenta melhores perspectivas. O Censo GIFE 2018 apontou que 30% dos investidores afirmaram investir na estrutura institucional das OSCs, contra 24% de 2016. No próprio campo do Investimento Social Privado tem-se debatido esta questão, ampliando cada vez mais o entendimento de que, para que haja um tecido social forte, é necessário zelar pelas organizações e redes que o compõem.

Diante deste quadro, em 2017, o Itaú Social se propôs o desafio de reestruturar seus programas de fomento à OSCs. Para desbravar este novo caminho, contou com a parceria de diversas organizações sociais que aceitaram o convite para fazer parte desta jornada de aprendizagem.

Após quatro anos, já no final do primeiro ciclo do Missão em Foco e com outras iniciativas em andamento que também atuam nesta perspectiva do desenvolvimento institucional – como o Programa Itaú Social Unicef – é possível partilhar conhecimento acumulado em torno desta agenda.

Logo de início, a oferta de recursos flexíveis foram fundamentais para restituir a autonomia das organizações na tomada de decisão de acordo com seu olhar para as demandas locais, em tempo real. Uma das consequências do investimento a partir de rubricas preestabelecidas é que muitas vezes as organizações não podem realizar mudanças significativas na forma de atuação, seja pela necessidade de corrigir a rota ou mesmo para acolher transformações em curso – característica inerente da realidade social. Daí a necessidade de implementar os recursos flexíveis como modalidade de apoio.

Por outro lado, ficou evidente que a mudança de lógica trazia consigo outros desafios, como por exemplo, o da priorização. Para a maioria das instituições participantes do Missão em Foco, a novidade de poder tomar a decisão de investimento com base em seus objetivos de atuação levantou a demanda de um novo planejamento estratégico. Tornou-se urgente a necessidade de repactuar a missão, crenças e a forma de diálogo com a comunidade em seu entorno.

Considerar o apoio de longo prazo foi outro aspecto que emergiu já na origem dessas reflexões. Provocar o movimento intencional de mudança nas organizações requer um trabalho longo, de envolvimento de toda a equipe, algo que não poderia ser feito no decorrer de poucos meses. Este propósito prevê uma relação de partilha e troca contínua sobre erros e acertos. Além disso, a geração de vínculos de confiança entre OSC e investidor – outro elemento central neste âmbito – só se mostrou viável por meio de uma interação cuidadosa, atenta ao ritmo de cada organização.

A vivência com as instituições participantes desta modalidade de apoio tem revelado que o aperfeiçoamento estrutural gera um ciclo virtuoso para a sustentabilidade das OSCs. Ao ampliar a capacidade de implementação de projetos de forma articulada – aliada à reflexão sobre a prática, a produção de conhecimento e a formas de comunicação mais eficazes –, a atração de novos parceiros, doações e investidores ocorre como uma consequência deste esforço.

Desafios do monitoramento e avaliação

Ao estabelecermos uma forma de apoio que prevê maior autonomia das organizações para aplicação dos recursos, bem como para decisão de suas prioridades de atuação, o monitoramento e a avaliação também precisam ser aderentes a essas escolhas. Este aspecto trouxe um desafio na concepção de um processo de monitoramento que funcionasse no contexto de todas as organizações, sem abrir mão da particularidade de cada uma. Para isso, um conjunto de estratégias de acompanhamento foi concebido para que fosse possível um olhar transversal das experiências nos diferentes níveis de amplitude. Ou seja, do peculiar ao comum.

Neste âmbito, o programa Missão em Foco desenvolveu a matriz de Desenvolvimento Institucional, que teve como ponto de partida as dimensões avaliativas de iniciativas semelhantes conduzidas por outros investidores, como por exemplo, a Ford Foundation. Com a prática, este instrumento foi aprimorado com base na experiência em andamento e no envolvimento de todos os participantes.

Um dos pontos fundamentais da matriz é que ela é um instrumento avaliativo do processo de desenvolvimento, ao mesmo tempo que também gera reflexão sobre o momento que a organização está vivendo. Para cumprir esses objetivos, a matriz é preenchida pela própria organização como forma de autoavaliação em diferentes momentos do ciclo de apoio. Este preenchimento, por sua vez, é feito com o envolvimento das equipes e um mediador externo que acompanha todo processo, gerando um debate intencional sobre os resultados apontados, para que, ao final, o instrumento registre a percepção coletiva da instituição e não apenas o olhar dos dirigentes.

O diálogo constante a partir dos dados foi um dos aspectos ressaltados pelas organizações, que revelam a eficácia do monitoramento como um processo vivo. É comum, nas práticas do monitoramento, que a lógica de controle e prestação de contas impere em detrimento da reflexão que os dados podem gerar. Desta forma, utilizar as análises geradas pelos instrumentos avaliativos como base para os encontros técnicos se mostrou uma estratégia acertada para fazer com que o monitoramento atue no sentido de contribuir para o aprimoramento dos processos e resultados.

Formação como parte do apoio

Além do investimento de recursos financeiros, a oferta de formações conjuntas e específicas que auxiliem nas dificuldades das organizações são outras formas de apoio. Para a maioria das organizações sociais, empregar recursos próprios em processos formativos é considerado luxo. É assim também considerado o tempo das equipes para participar das formações continuamente. Os recursos são escassos e geralmente já estão comprometidos com a implantação do projeto financiado (considerando que os repasses estão, na maioria, atrelados a projetos). Assim, quando a formação faz parte do apoio, a instituição ganha a possibilidade de se dedicar inteiramente, sem ter que abrir mão de outras necessidades consideradas urgentes frente aos desafios a que está exposta.

A assessoria técnica, ou seja, a orientação realizada por uma equipe ou um profissional de um tema específico, contribui para o avanço dessas agendas com mais agilidade e qualidade. Trata-se de um atendimento muito mais próximo, que se debruça sobre as questões sensíveis de cada localidade. Esta estratégia tem se mostrado promissora para a dissolução de nós críticos históricos na dinâmica das instituições participantes.

Porém, para as organizações, um dos principais desafios da assessoria é justamente a escolha de qual solicitar. O trabalho nos últimos anos com o Missão em Foco tem apontado que os reais entraves – aqueles que mais necessitam de intervenção – levam tempo para emergir. Isso porque é natural que haja uma maior percepção das incompletudes, ou falhas, daquilo que já está latente no grupo. Daí a importância de um processo próximo e cauteloso, para que aquilo que ainda não passa pela consciência da equipe possa se revelar, e assim possa ser tratado.

Por fim, como um ator que ocupa um lugar estratégico, é papel do investidor criar ambiências de troca entre pares, para que o grupo possa aprender com as soluções concebidas em cada iniciativa. Forma-se, portanto, uma comunidade de aprendizagem: espaço rico para as possibilidades de intercâmbio entre instituições e entre as diferentes realidades brasileiras.


Navegue na série

FICHA TÉCNICA

Coordenador de comunicação: Alan Albuquerque R. Correia | Diagramação: Juliana Araujo |  Textos e entrevistas: Fernanda F. Zanelli
Identidade visual: Rodrigo Souza Silva | Direção de arte: Caronte | Ilustração: Julia Coppa | Revisão ortográfica: Patrícia Logullo
Colaboração: Ana Maria Carminato, Camila Feldberg, Claudia Costa, Eduardo Baptista, Érica Bombarda,

Fernanda Andrade, Luan Paciencia, Milena Duarte