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Carinho faz a diferença

Em Brasília, Instituto do Carinho oferece cuidado e afeto a crianças em situação de risco e vulnerabilidade


Cinco das 16 crianças acolhidas pelo Lar Bezerra de Menezes. Foto: Arquivo Instituto do Carinho

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Lauro de Freitas (BA)

O ano era 2010, e a nadadora Ana Laura Mazzei estava decidida a fundar um abrigo. Assim como as piscinas e os números — Ana é formada em matemática —, o voluntariado sempre fez brilhar seus olhos. Passou a pesquisar o tema e logo no início do ano seguinte, numa feliz coincidência, conheceu um grupo de pessoas que também queriam criar uma casa de acolhimento. Entre essas pessoas estava Mc Arthur Camargo, hoje casado com Ana. Juntos, presidem o Instituto do Carinho, responsável pelo Lar Bezerra de Menezes e pelo cuidado de dezenas de crianças em Brasília.

No início, o projeto já era ousado. Queriam construir cinco abrigos, cada um com capacidade para 20 crianças. O Lar Bezerra de Menezes foi fundado em junho de 2011, no bairro Ceilândia Norte. Em pouco tempo, entretanto, ficou claro que a quantidade não deveria ser o principal parâmetro para guiar o trabalho. “Quando começamos a receber as crianças, entendemos a missão de um abrigo. O objetivo é ser um meio para que encontrem uma família. Nosso papel é transitório”, explica Ana Laura. Atualmente, 16 crianças estão sendo assistidas pelo Lar.

Acolhimento
O entendimento da real função dos abrigos na vida das crianças assistidas foi a virada de chave para a implantação do segundo programa do Instituto do Carinho. O Resgate foi lançado em 2014 para apoiar e estabelecer parceria com instituições de acolhimento, incentivando-as a reintegrar a criança abrigada na sua família ou a buscar uma adoção. De acordo com o site do instituto, o apoio às casas se dá “na parte administrativa, jurídica, financeira ou social, auxiliando para que elas consigam prestar o serviço da melhor forma possível e busquem sua autonomia financeira”.

As crianças chegam ao Lar Bezerra de Menezes por meio da Vara da Infância e da Juventude do Distrito Federal (VIJ/DF). Geralmente, são levadas por um oficial de Justiça, quando identificada situação de risco, como abuso ou agressão. Algumas dessas crianças vivem em situação de rua e chegam sem documentos ou informações a respeito da família delas, o que dificulta o trabalho do instituto. “Quando recebemos a criança, temos que descobrir se há alguém na família dela que tenha condições de recebê-la. É mais importante que tentemos reintegrar a criança à sua própria família do que pô-la para adoção.” 

Síndromes raras
O reconhecimento do trabalho executado pelo Lar Bezerra de Menezes fez com que a VIJ/DF propusesse ao Instituto do Carinho a criação de um novo espaço, dessa vez voltado ao acolhimento de meninos e meninas portadores de síndromes raras. Essas crianças, algumas em leitos de unidade de terapia intensiva, precisam de atenção constante e suas famílias, muitas vezes, não reúnem condições financeiras ou de tempo para oferecer o cuidado necessário. Ana Laura Mazzei, vice-presidente do instituto, lembra-se dos momentos iniciais do que viria a ser um novo programa. “Vimos que o trabalho de resgate nesse novo desafio seria maior. Teríamos que resgatar essas famílias e dar dignidade para que voltassem a conviver com seus filhos.”

Inicialmente, duas crianças com deficiência foram acolhidas no Lar Bezerra de Menezes, mas em pouco tempo os funcionários perceberam que elas precisavam de um espaço adaptado para que recebessem os cuidados médicos necessários. Após mobilização nas redes sociais, o Instituto do Carinho arrecadou o valor suficiente para a aquisição de um terreno ao lado do Lar.

A Casa do Carinho acolhe crianças acometidas por síndromes raras. Foto: Arquivo Instituto do Carinho

Em janeiro de 2019, foi inaugurada a Casa do Carinho, único local de acolhimento no Brasil que recebe crianças com síndromes raras, de acordo com a vice-presidente, Ana Laura Mazzei. Ao todo, 15 crianças vivem na Casa do Carinho, tendo a mais velha 17 anos e a mais nova 7 meses de idade. Assim como no Lar Bezerra, a capacidade máxima é de 20 acolhidos, que chegam por intermédio da VIJ/DF. As famílias são apoiadas com cestas básicas e auxílio-transporte para visitar as crianças durante a semana. 

Crianças da Casa do Carinho e do Lar Bezerra de Menezes se preparando para passeio de barco a vela: parceria com o projeto Vela Para Todos. Foto: Reprodução/Instagram Instituto do Carinho

Um futuro diferente
Mensalmente, são realizadas doações às famílias dos acolhidos, assim como àquelas em situação de vulnerabilidade da região da Ceilândia Norte. Durante a pandemia da Covid-19, a instituição contou com o apoio do Itaú Social, através do edital Comunidade, Presente!. Desde março de 2020, o programa beneficiou pelo menos 14 mil famílias de 35 municípios brasileiros com a distribuição de kits com itens essenciais de consumo, como alimentos, produtos de higiene e gás de cozinha. A ação foi realizada por intermédio de organizações da sociedade civil (OSCs), como o Instituto do Carinho. “O apoio do Itaú Social nos possibilitou chegar a 600 famílias, durante três meses”, conta Ana Laura Mazzei, ao comentar que as famílias da região têm seis filhos, em média. 

Desigualdade e fome são problemas a serem resolvidos na região. Constituem fatores de risco para toda a população local, inclusive para as crianças, constantemente expostas ao trabalho infantil. O projeto Família do Futuro, do Instituto do Carinho, está em fase final de elaboração e pretende oferecer à comunidade capacitações nas áreas de empreendedorismo, educação financeira e administração, além de cursos profissionalizantes. Para Ana, “é preciso mostrar aos pais que eles podem oferecer aos filhos um futuro diferente da vida que tiveram”. Na mesma linha, o projeto Criança do Futuro promove, no contraturno escolar, aulas de balé, judô, capoeira, street dance, música e futebol. 

Sorriso das crianças
Por causa de sua boa reputação, o Instituto do Carinho tem facilidade para conseguir vagas em escolas próximas para que as crianças acolhidas no Lar Bezerra de Menezes possam estudar. No máximo, duas semanas separam o momento em que chegam à casa da primeira aula na escola. Recentemente, as crianças com deficiência atendidas na Casa do Carinho também estão tendo aulas. Nesse caso, os educadores vão até o espaço e lá realizam as atividades pedagógicas adaptadas. “Para quem não acompanha, pode parecer pouca coisa. Mas, para nós, é uma vitória ver uma criança que não mexia nada, aos poucos, movimentando o dedo ou a perna como resultado da interação com as professoras.”

Foram necessárias algumas reuniões para a definição dos nomes da casa e do instituto. Por pouco, “amor” teria sido o termo escolhido,  em vez de “carinho”, mas já havia muitas “casas do amor”. Hoje, o carinho já é unanimidade no nome e no cotidiano. “Temos a oportunidade de transformar a vida de quem chega até nós. Seja uma criança, um pai, uma mãe ou um voluntário.” Emocionada, a vice-presidente do instituto contou a história de uma criança acolhida pela Casa do Carinho enquanto estava em coma num hospital público, após ser vítima de violência física. Os médicos diziam não haver perspectiva de que ela saísse do coma. Na casa, ela não apenas saiu, como deixou de usar a cânula de traqueostomia, passou a se alimentar sozinha e está voltando a andar. Para Ana, o segredo está justamente no carinho. E a motivação, no sorriso das crianças. “Há muito trabalho a ser feito, mas a recompensa é boa demais.”

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