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Diretoras falam sobre as exigências do cargo, os desafios atuais e pontuam a importância da formação continuada para apoiar a rotina escolar


A formação continuada é uma peça-chave para preparar professores e gestores escolares para que ofereçam a melhor educação possível a todos os alunos. Na imagem, uma sala de aula da Emeief Manoel Alves de Araújo, em Pilar (PB). Foto: Geciele Ramos

Por Paula Salas, Rede Galápagos, São Paulo

A capitã de um navio, o maestro de uma orquestra. Essas metáforas servem para descrever a função de um diretor escolar, que precisa equilibrar como um malabarista as demandas pedagógicas e administrativas e mediar relacionamentos com a comunidade escolar, funcionários, professores, parceiros e a Secretaria de Educação. “O diretor é líder, por isso tem que saber lidar com todos”, explica Geciele Ramos, diretora da Emeief Manoel Alves de Araújo, em Pilar (PB).

“O diretor é bombardeado com questões administrativas, é muita planilha, orçamento. Tem que ter conhecimento da parte administrativa, mas também saber do pedagógico, entender a sala de aula, a dinâmica do planejamento para poder avaliar os resultados e direcionar os esforços”, afirma Rita Nunes, diretora da Emeb Vereador João Rogério dos Santos, em Campo Alegre (AL). “É preciso ser um bom analista de resultados”, complementa. 

Saber gerir pessoas e ser uma liderança são competências fundamentais para ocupar esse cargo da gestão escolar. “A gente precisa aprender a fazer da escola um espaço mais democrático. Tenho um projeto no qual convido grupos de responsáveis para conversar uma vez por mês para ouvi-los, entender a percepção deles”, conta Patrícia Dantas, diretora no Cemeb Prof. Paulo Mariano de Arruda, em Itapevi (SP). “Aprender a gerir equipes, saber o que está dando certo e errado e fazer cronograma de trabalho são coisas importantes”, diz Elisete Mendes, diretora na Emeief Profª. Honorina Albuquerque, em Apiaí (SP), há 13 anos.

A diretora Geciele Ramos, de Pilar (PB), destaca o papel do diretor como liderança na escola e na articulação de diferentes figuras presentes na rotina escolar. Foto: Arquivo pessoal

“Além das capacidades no campo pedagógico, o cargo exige competências de gestão, dada a necessidade de liderar uma equipe e de processos voltados para que os alunos estudem e se desenvolvam da melhor forma possível. Dirigir uma escola é gerir uma organização extremamente complexa”, avalia Angela Dannemann, superintendente do Itaú Social. 

“A gente precisa aprender a fazer da escola um espaço mais democrático”, afirma Patrícia Dantas, diretora de escola municipal em Itapevi (SP). Foto: Arquivo pessoal

Apesar de todas essas especificidades e das grandes responsabilidades da função, 49% dos diretores discordam total ou parcialmente que receberam a formação necessária para assumir a direção, segundo levantamento “Pesquisa de opinião com diretores de escolas públicas brasileiras”, publicado em junho de 2022 e realizado pelo Datafolha em parceria com o Itaú Social e a Todos pela Educação. 

Formação: diretor
Há 18 anos, Marilene Muniz é diretora. Desde 2018 ocupa esse cargo no Cemeb Prof. Jossei Toda, em Itapevi (SP). “Fracassei nos dois primeiros anos”, afirma. “Eu achava que ser gestora era fazer prevalecer meu olhar, mas não conseguia os resultados que queria. Refleti e fiz uma roda de conversa para saber onde estava errando. Foi difícil, mas descobri que eu precisava ouvir mais. Os colegas me ensinaram a ser diretora, a escutar a equipe e fazer juntos — sem isso não chegamos a lugar nenhum.”

Marilene aprendeu na prática e encontrou sua forma de ser gestora. Ela precisou desenvolver uma série de competências e desconstruir concepções que se mostraram pouco eficientes. 

Mesmo para quem já ocupa o cargo há anos e está habituado à rotina, os desafios da escola estão sempre se renovando — afinal, o mundo e os estudantes se encontram em constante transformação. O ensino remoto emergencial foi a prova disso. Ele evidenciou a urgência de investimentos na educação e exigiu uma mobilização para os educadores se adaptarem e reinventarem a forma de ensinar diante das possibilidades de cada escola. 

Perceber a importância de fazer uma escuta ativa da equipe e da comunidade escolar foi um ponto de virada para a trajetória de Marilene Muniz como diretora em Itapevi (SP). Foto: Arquivo pessoal

Nem os professores nem os gestores escolares estão sozinhos nessa missão. As secretarias devem garantir o suporte necessário (seja de recursos, seja de acompanhamento pedagógico) e oferecer formações frequentes para a atualização e aperfeiçoamento dos profissionais. “Cada dia é um novo dia de aprendizagem, é uma capacitação constante para lidar com as transformações do dia a dia e ajudar os professores”, diz Marilene. 

Mas será que isso acontece no dia a dia? A pesquisa do Datafolha revela que apenas 55% dos diretores afirmam receber formações da secretaria com muita frequência. Mostra também que 80% se sentem satisfeitos com as ações de desenvolvimento profissional, e mais de 90% acreditam que o acompanhamento pedagógico da rede contribui para a sua função como gestor. “Temos o acompanhamento da secretaria. Eles vêm à escola com uma pauta definida e depois temos retorno. Em cada visita tentam verificar um aspecto. Por exemplo, na última focaram na inclusão”, concorda Patrícia. 

Esse mesmo cuidado e atenção para a formação continuada deve ser estendido para os professores — e não é responsabilidade única dos coordenadores pedagógicos. “Prezo muito para ter um olhar mais humano, mais cuidadoso para o outro. Inspirar meus professores e alunos”, afirma Rita Nunes.

Perspectivas para o futuro das escolas

A pesquisa do Datafolha revela a opinião dos diretores sobre quais deveriam ser as prioridades para os próximos anos nas redes de ensino. As cinco primeiras prioridades destacadas são: 

  • Aumento da remuneração para os professores (45%);
  • Programas de recuperação de aprendizagens (42%); 
  • Melhoria das condições de infraestrutura (28% ); 
  • Promoção de formação continuada (22%); 
  • Oferta de apoio psicológico aos professores e estudantes (18%).

Fonte: “Pesquisa de opinião com diretores de escolas públicas brasileiras” — Itaú Social/Todos pela Educação

No contexto atual, as demandas não são apenas da aprendizagem. Para Patrícia, os aspectos socioemocionais vão ganhar ainda mais destaque nos próximos anos. “Atender não só as questões pedagógicas, mas o emocional, a convivência, as relações entre as pessoas”, afirma a diretora de Itapevi. 

Diante dos esforços de enfrentamento dos impactos deixados pela pandemia da Covid-19, Elisete Mendes, diretora escolar em Apiaí (SP), reforça a necessidade de formações específicas para os educadores darem conta do contexto atual. Foto: Arquivo pessoal

Como prioridade dentro da rotina escolar, Rita menciona a importância de estimular o desenvolvimento socioemocional das crianças e olhar para a convivência e os relacionamentos na escola. “A prioridade maior seria uma formação mais específica para avançar na questão da aprendizagem das crianças considerando os impactos da pandemia”, complementa Elisete.

Quaisquer que sejam os desafios que ainda possam vir a se somar às necessidades apontadas pelas diretoras, não será possível descuidar do apoio e capacitação dos profissionais que garantem a educação diariamente. Como liderança escolar, o diretor ocupa um papel central para orientar o trabalho pedagógico da escola e apoiar as famílias no desenvolvimento integral das crianças e adolescentes. “Para os próximos anos teremos de nos refazer todos os dias para conseguir alcançar os objetivos desejados. A educação é a forma de transformar o mundo; não há outro caminho”, finaliza Marilene.

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