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Dez perguntas para

“Abraçar os valores de igualdade e democracia é o desafio do nosso tempo”

Especialista explica que o conceito de investimento social privado é um resultado do processo de democratização do país e enfatiza o papel da sociedade civil em ações que reduzam a desigualdade


Dez perguntas para
Atila Roque
Historiador, cientista político e diretor da Fundação Ford no Brasil. Faz parte do conselho diretor do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife)

Atila Roque, diretor da Fundação Ford, defende o acesso de mulheres, negros e indígenas a espaços de poder: “Precisamos ter coragem para romper com os privilégios arraigados na sociedade brasileira”. Foto: Imagem do seminário Investidores Sociais e o Fortalecimento Institucional de OSCs

Por Alexandre Raith, Rede Galápagos, São Paulo

Criar e implantar políticas voltadas aos direitos humanos faz parte da carreira de Atila Roque. Atualmente diretor da Fundação Ford no Brasil, onde supervisiona a concessão de subsídios, o historiador e cientista político tem extensa atuação na área. Ele já desenvolveu pesquisas e estratégias ligadas à desigualdade social, discriminação de gênero e justiça racial em diversas organizações nacionais e internacionais. Além disso, integra o conselho diretor do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife).

Por 17 anos, Roque foi diretor executivo da ActionAid International, em Washington, nos Estados Unidos. No Brasil, assumiu cargos na Anistia Internacional, Instituto Brasileiro de Análise Socioeconômica (Ibase), Instituto de Economias e Estudos Sociais (Inesc), Associação Brasileira de ONGs (Abong) e na filial da rede Social Watch. Em termos acadêmicos, repassou os seus conhecimentos como professor convidado do Instituto Rio Branco — Ministério das Relações Exteriores, onde ministrou curso sobre política estrangeira e sociedade civil. Já como pesquisador visitante no Centro de Pesquisa Ásia-Pacífico, em Tóquio, no Japão, estudou o impacto socioambiental de investimentos japoneses em infraestrutura em nosso país.

A vasta experiência lhe permite chancelar a atual situação do setor de investimento social privado no Brasil, que, segundo Roque, está no caminho certo, apesar dos enormes desafios. “O próprio conceito é um resultado do processo de democratização do país. Isso não veio apenas de uma tomada de consciência do mundo privado, mas de uma pressão crescente da sociedade civil por incorporação de marcadores sociais e ambientais na avaliação do impacto das empresas”, explica o diretor da Fundação Ford. Em 2021 Roque participou do seminário Investidores Sociais e o Fortalecimento Institucional de Organizações da Sociedade Civil, organizado pelo Itaú Social, Instituto Unibanco, Laudes Foundation, Synergos e Gife. 

Na entrevista a seguir, Roque fala sobre o papel do investimento social privado no desenvolvimento e fortalecimento das organizações da sociedade civil, os impactos da pandemia no setor e como empresas e investidores podem reivindicar o acesso de mulheres, negros e indígenas a espaços de poder.

NNotícias da Educação — Pode nos explicar o que diferencia o investimento social privado de ações assistencialistas?

AAtila Roque — A principal diferença, no meu entendimento, é a perspectiva de mudança estrutural presente na ideia de investimento social. O investidor social procura ter um impacto mais duradouro com o seu investimento, contribuindo, por exemplo, para a redução ou o enfrentamento de desigualdades estruturais, como aquelas decorrentes de discriminações raciais ou de gênero. A ação tipicamente assistencialista visa o alívio imediato de uma necessidade urgente, sem a garantia de sustentabilidade disso no futuro. Uma ação assistencialista, no entanto, pode despertar a sensibilidade e motivar um investimento social.

NQual é o papel do investimento social privado no desenvolvimento e fortalecimento das organizações da sociedade civil?

AO impacto ainda está muito aquém do potencial. As organizações da sociedade civil, historicamente, foram apoiadas pela chamada cooperação internacional oficial e pela não governamental predominantemente europeias e por fundações privadas predominantemente estadunidenses. O investimento privado no Brasil, especialmente nas duas últimas décadas, privilegiou iniciativas próprias e com intensa focalização na área de educação e cultura. Nos últimos anos, vemos uma gradativa mudança de perspectiva, com a valorização e o reconhecimento cada vez mais amplos no campo do investimento social privado, a importância de fortalecimento institucional e de apoios de longo prazo para organizações da sociedade civil, com o crescimento de apoios a pautas mais amplas da luta por garantia de direitos socioambientais, inclusive aqueles relacionados às desigualdades de gênero e raça. Um bom sinal dessa ampliação do foco é a adesão crescente de empresas e investidores às agendas ESG [governança ambiental, social e corporativa, na tradução da sigla em inglês].

“O compromisso com a redução das desigualdades, a garantia dos direitos econômicos e sociais e a democratização da política passam necessariamente pelo enfrentamento do racismo estrutural e da discriminação de gêneros.”

NDiante da pandemia, que aumentou ainda mais as desigualdades sociais, o desemprego e a fome, o investimento social privado ganhou um novo papel?

AA crise da Covid, conforme vários estudos publicados pelo Gife, serviu para trazer novas possibilidades de parcerias na sociedade civil e novas modalidades de apoio. Ficou muito evidente que quem tinha efetivamente capacidade de mobilizar parcerias e chegar efetivamente às populações mais necessitadas, graças a uma capilaridade e a redes de confiança construídas por uma presença de longo prazo nos territórios, eram as organizações da sociedade civil. O investimento social privado respondeu com velocidade e abertura a esse desafio e foi capaz, em um período muito curto, de identificar novos parceiros e modos de ação, com maior compartilhamento efetivo de responsabilidade e decisão sobre onde alocar os recursos. Estamos, acredito, diante de uma grande janela de oportunidade para que o investimento social privado contribua de maneira decisiva para o fortalecimento das organizações da sociedade civil, com vista à promoção da igualdade e da justiça social. A crise trouxe aprendizados, mas resta saber se os investidores sociais privados saberão aproveitá-los nas suas práticas.

NA existência de territórios e comunidades que vivem em extrema vulnerabilidade social é uma característica marcante do Brasil. Há falta de acesso a moradia, saneamento básico, educação e alimentação. Por onde começar diante de tanta desproteção social?

AA vulnerabilidade social é decorrência direta das desigualdades econômicas e sociais que estão refletidas nas profundas desigualdades de poder em relação às decisões de prioridades de políticas públicas e alocações orçamentárias que impactam diretamente a vida dessas comunidades. Fortalecer o protagonismo de atores sociais, redes e organizações dos próprios territórios atingidos pelas desigualdades sociais é fundamental para mudar esse quadro em longo prazo. Ações que respondam às necessidades imediatas são importantes. Como dizia o saudoso Herbert de Souza, o Betinho, “Quem tem fome tem pressa”. Mas essas ações precisam vir acompanhadas de apoios que fortaleçam institucionalmente as organizações que representam e priorizam o fortalecimento daqueles que melhor conhecem a própria realidade e prioridades, especialmente negros, indígenas, mulheres, com atenção especial aos mais jovens.

“Quanto mais democrática a esfera pública, maior a chance de valores de responsabilidade social avançarem no meio empresarial.”

NDe que forma as empresas envolvidas com o investimento social privado podem participar da elaboração de políticas públicas dirigidas à redução das desigualdades sociais?

AO melhor caminho é fortalecer os atores da sociedade civil para que possam ocupar os espaços de decisão e influência sobre as políticas públicas. Empresas e investidores sociais privados devem usar o próprio privilégio de acesso aos espaços de poder para reivindicar a presença de outras vozes, em particular aquelas historicamente excluídas, como a das mulheres e a dos negros.

NCom o avanço das discussões em torno do racismo estrutural e da igualdade de gênero, chegou o momento de ampliar o foco dos investimentos?

APassou da hora. O racismo e a discriminação de gênero são fatores estruturais de nossas desigualdades e marcadores de violência. São os corpos negros e o das mulheres os que mais sofrem com os mais variados tipos de violência. O compromisso com a redução das desigualdades, a garantia dos direitos econômicos e sociais e a democratização da política passam necessariamente pelo enfrentamento do racismo estrutural e da discriminação de gêneros. Negros e mulheres, em particular as juventudes de periferias, e indígenas são os portadores do futuro.

“A doação não pode ser vista como favor ou caridade, mas como parte da contribuição devida por qualquer setor ou pessoa detentores de privilégios e de riqueza em uma sociedade e um mundo tão profundamente desiguais como os nossos.”

NA democracia no Brasil e em alguns países do mundo vem sofrendo ataques. Isso pode afetar o comprometimento, seja por parte do governo ou de instituições privadas, com a igualdade e justiça social?

AEm vários países e no Brasil assistimos à ascensão de forças políticas retrógradas e abertamente autoritárias que buscam corroer as instituições democráticas por dentro, mesmo tendo chegado ao poder pela via eleitoral. O estímulo aos sentimentos xenófobos, racistas e a outros tipos de intolerância está na origem de processos de polarização que cada vez mais se aproximam de pontos de ruptura institucional, com o aumento da violência e da repressão estatal a qualquer forma de dissenso. Mais do que nunca, é preciso um esforço de aproximação e de construção de confiança em torno do compromisso com a defesa dos direitos fundamentais e da democracia que amplie o espaço de colaboração entre investidores sociais privados e organizações da sociedade civil.

NO setor privado está mais atuante e mais disposto a investir em causas sociais. Essa transformação decorre de uma nova postura das empresas em relação à sua governança ou é o resultado de uma demanda da sociedade civil?

AA ideia de responsabilidade social se disseminou ao longo das duas últimas décadas. Institutos e associações foram criados para aprofundar essa discussão. O próprio mercado financeiro passou a considerar o grau de cidadania empresarial entre os seus critérios de ranking, ou seja, existe um ambiente de negócios mais indutor do investimento social. Isso não veio apenas de uma tomada de consciência do mundo privado, mas de uma pressão crescente da sociedade civil por incorporação de marcadores sociais e ambientais na avaliação do impacto das empresas. É claro que isso avança mais rápido em sociedades com mais densidade democrática e capital social acumulado do que onde ainda prevalecem ambientes de contenção de iniciativas da cidadania. Quanto mais democrática a esfera pública, maior a chance de valores de responsabilidade social avançarem no meio empresarial. A cobrança de mais diversidade e pluralidade nas esferas de governança, conselhos administrativos e em cargos de direção, por exemplo, se faz cada vez mais presente, impactando o modo como a empresa opera.

NAs empresas precisam repensar a ideia de que basta doar e passar a se envolver diretamente com as organizações sociais que estão na linha de frente?

AA doação não pode ser vista como favor ou caridade, mas como parte da contribuição devida por qualquer setor ou pessoa detentores de privilégios e de riqueza em uma sociedade e um mundo tão profundamente desiguais como os nossos. É uma dimensão de um exercício pleno de cidadania que se espera como parte do esforço comum de inclusão social. No caso das empresas, o envolvimento com organizações e iniciativas da sociedade civil será mais saudável e produtivo na medida em que se respeitarem a autonomia e o conhecimento das organizações apoiadas. A relação entre um investidor social privado e uma organização da sociedade civil precisa ser estabelecida com base na confiança mútua; não equivale a uma contratação de um serviço nem à compra de um produto.

NO investimento social privado no Brasil está no caminho certo, seja em ações práticas ou em desafios institucionais?

AAcredito que estamos no caminho certo. O investimento social privado, como setor organizado e atuante, é um fenômeno relativamente recente no Brasil, onde não há a mesma tradição e infraestrutura institucional de outros países. De certa maneira, podemos dizer que o próprio conceito de investimento social privado é um resultado do processo de redemocratização do país. Os desafios são enormes para o investimento social privado, assim como para o restante da sociedade civil. Abraçar sem hesitação os valores de igualdade e democracia é o desafio do nosso tempo. A herança do racismo e demais fatores de desigualdades estruturais é enorme e muito resistente. Precisamos ter coragem para romper com os privilégios arraigados na sociedade brasileira. Reconhecer o seu próprio lugar de privilégio e a sua responsabilidade na superação dele é, portanto, um passo que se encontra ao alcance dos investidores sociais privados. Uma escolha a ser feita.

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