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A emoção da escrita que abraça gerações

Premiado na 6ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa, o estudante Matheus de Sousa, de Goiás, conta sobre sua participação e quanto aprendeu no percurso até o texto final


Matheus Fernandes de Sousa, com a professora Marília Alves de Oliveira Magalhães, durante premiação da 6ª Olimpíada de Língua Portuguesa, em 2019: “O aprendizado que se ganha é uma coisa que fica pra sempre”. Foto: Itaú Social

Por Maria Ligia Pagenotto, Rede Galápagos, São Paulo

Nos anos 1950, no distrito de Iporá, em Goiás, uma criança acalentava o sonho de aprender a ler e a escrever. Sétima filha entre 12 irmãos, Beronice nunca conseguiu realizar seu desejo. Muitos anos depois, em 2019, Matheus Fernandes de Sousa, neto de Beronice, foi o vencedor, no gênero memórias literárias, da Olimpíada de Língua Portuguesa. O texto premiado conta a história de sua avó materna — a menina que queria ser alfabetizada e acabou vivendo em regime de semiescravidão na tentativa de se escolarizar. 

Matheus, com 14 anos hoje, orgulha-se de ter contado a história da avó de 67 anos e, com isso, ter levado o primeiro lugar na Olimpíada de Língua Portuguesa quando cursava o 7º ano da Escola Municipal Valdivino Silva Ferreira, em Iporá, sua cidade natal. O simbolismo por trás das memórias teve um significado especial para a família do vencedor. “Minha avó ficou muito feliz e se emocionou por eu ter chegado tão longe, contando justamente a história dela, que queria tanto aprender a ler e a escrever.” Foi Marília Alves de Oliveira Magalhães, a professora de língua portuguesa de Matheus na época, quem o apoiou no processo de produção do material. “Eu não sabia o que era uma memória literária; fui aprendendo aos poucos, fazendo e refazendo o texto.” Chegar “ao ouro”, como ele diz, e ainda homenageando a avó, foi um momento único, especial, com o qual ele nem sonhava na sua vida de adolescente. 

Este ano, Matheus participa novamente, agora com o gênero crônica. Está aberta a 7ª edição da olimpíada. O entusiasmo com que o jovem fala do seu envolvimento com o programa e de como trabalhou seu texto ao longo de meses reflete bem os bastidores da ação, que tem um caráter formativo muito forte, como enfatiza Claudia Petri, coordenadora de Implementação Regional do Itaú Social, na entrevista Aprender para melhor ensinar — a Olimpíada de Língua Portuguesa.

Textos cada vez mais consistentes
À frente da equipe que se ocupa especificamente da formação no programa Escrevendo o Futuro, que abarca a Olimpíada de Língua Portuguesa, está Patrícia Calheta, mestre em linguística aplicada pela PUC-SP. Como colaboradora do Cenpec — Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária —, há dez anos Patrícia trabalha com professores que participam da olimpíada. Ela acompanha o desenvolvimento das sequências didáticas, conjuntos de atividades que promovem o passo a passo para o ensino de um gênero discursivo. “Estimulamos o professor a verificar o que os alunos já conhecem sobre o gênero a ser trabalhado. A partir desse reconhecimento, ele deve selecionar as oficinas, apresentadas nos cadernos docentes da olimpíada, para oferecê-las às turmas”, explica. 

Foi assim que a professora Marília, com base na formação que recebeu, aos poucos colocou Matheus em contato com o gênero memórias literárias. O caminho traçado para chegar ao texto final foi composto de muitos desafios, mas nem por isso deixou de ser prazeroso, segundo o jovem. “Eu queria muito participar. Desde os nove anos de idade, quando soube da olimpíada, queria ter um texto meu concorrendo”, diz o estudante. Ele vê a vitória como fruto de seu empenho, do conhecimento compartilhado com a professora, de sua adesão à proposta e do incentivo da mãe e da avó, com quem mora. “Eu sempre gostei de ler e escrever, mas o fato de participar e ganhar aumentou ainda mais meu interesse pela leitura e escrita”, conta Matheus. No meio do caminho, admite que enfrentou obstáculos. Entre estes, ter que entender as figuras de linguagem e fazer e refazer o texto algumas vezes, até chegar ao que levou o prêmio. “Exige esforço, sim, mas eu nunca pensei em desistir. Minha mãe, minha avó e a professora sempre me deram apoio para eu continuar, e isso foi muito importante.” 

O comprometimento de Matheus e toda a dedicação da professora Marília no processo de aprendizagem são claramente consequências do trabalho que o Itaú Social e o Cenpec destinam há anos à formação de docentes. Patrícia Calheta diz que, ao longo de uma década atuando, vê mudanças significativas no envolvimento de professores e, consequentemente, de alunos com o programa. “Analisando todos os textos produzidos, participando das comissões julgadoras, percebo avanços muito grandes na produção.” Hoje, assegura, os alunos fazem textos mais consistentes, com uma proposta mais alinhada de acordo com o gênero apresentado para sua turma — poema, memórias literárias, crônica, artigo de opinião e documentário, do 6º ano do ensino fundamental até a 3ª série do ensino médio.

Patrícia destaca ainda que a Olimpíada de Língua Portuguesa é uma oportunidade significativa para os professores olharem para o ensino da língua de maneira articulada, de forma alinhada com as práticas da linguagem. “O nosso objetivo é propor atividades que articulem a oralidade, a escrita, a análise linguística e a leitura. Ao estudarem os gêneros a partir da proposta da olimpíada, os alunos têm a possibilidade de olhar para o que foi proposto entendendo que práticas orais, de leitura e de análise linguística são importantes para conseguir escrever uma crônica, por exemplo”, assegura. E isso ocorre com todos os gêneros.

Patrícia Calheta, que lidera a equipe dedicada à formação dos professores: “A olimpíada tem se tornado uma porta aberta para a aprendizagem e o aprofundamento de práticas mais consistentes do professor, que repercutem em textos de melhor qualidade por parte dos estudantes”. Foto: Arquivo pessoal

Porta aberta para a aprendizagem
Este ano, há o desafio de fazer a olimpíada remotamente, assim como o trabalho do professor com os estudantes também será feito virtualmente. Matheus conta que já se inscreveu para a oficina que haverá em abril. A expectativa de Patrícia e equipe é que a professora atual de Matheus, bem como os demais docentes envolvidos com outras turmas de alunos, possam utilizar os cadernos preparados pela equipe do programa Escrevendo o Futuro. “Nosso intuito é auxiliar os estudantes nessa produção”, reafirma Patrícia. Ela lembra que essa é uma oportunidade para que os participantes interajam virtualmente, para que possam compor os textos e falar das dificuldades enfrentadas. 

O Relato de Prática, que é o grande foco desta edição, conforme explicam Claudia Petri e Maria Aparecida Laginestra em suas entrevistas (links ao final), é que vai trazer as possibilidades para essa troca de experiências, de aprendizado conjunto. “O professor vai registrando o dia a dia desses estudantes. Tem de eleger um foco para compor esse texto, que será o relato”, explica Patrícia.  

Dessa maneira, o professor se coloca também no lugar de autor e, com os alunos, realiza um trabalho efetivo para o ensino da língua portuguesa, de forma articulada, como a especialista aponta.

“É assim, com esse trabalho de linguagem bem alinhado, que a olimpíada tem se tornado uma porta aberta para a aprendizagem e o aprofundamento de práticas mais consistentes do professor, que repercutem em textos de melhor qualidade por parte dos estudantes”, explica Patrícia. No relato, o professor deve deixar claro todo o percurso vivido, para que ele sirva de inspiração a outros. “Nossa ideia, com o Relato de Prática, é tocar outros docentes. Um professor que conta, por exemplo, como os seus alunos se surpreenderam com a descoberta de um elemento novo num gênero, está colaborando muito para a aprendizagem de outros professores e de outros alunos.” 

O mesmo ocorre quando ele discorre sobre como adaptou as oficinas do caderno docente para conseguir realizar seu trabalho. Para Patrícia, esses movimentos favorecem a reflexão de professores que estão lendo o relato e podem ter dificuldades parecidas.  

Matheus de Sousa é um dos muitos exemplos que indicam que a formação é essencial. Para ele, o que ficou da experiência de participar, vencer, integrar oficinas, viajar para acompanhar a premiação em São Paulo, entre outros aspectos, foi o conhecimento que adquiriu e compartilhou. Quer viver tudo novamente, agora se aprofundando no gênero crônica. Ele diz que sua maior afinidade na escola é com as matérias de exatas, mas vê a leitura e a escrita como ferramentas indispensáveis para se desenvolver como ser humano. “Vencer a olimpíada foi maravilhoso, mas eu sei que o que vale mesmo é o aprendizado que se ganha. Isso é uma coisa que fica pra sempre.”

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