Dez perguntas para
Karla Annyelly Teixeira de Oliveira
Doutora em geografia, professora do curso de geografia do Instituto de Estudos Socioambientais da Universidade Federal de Goiás e coordenadora do projeto Nós Propomos! Goiás


Por Maggi Krause, Rede Galápagos, São Paulo
“Para que serve a geografia? Em geral, o jovem responde que não serve para nada. Se pensar um pouco, ele consegue ver que as estratégias de guerra e o planejamento territorial dependem dela, mas é uma realidade distante. A gente precisa que ele reconheça um território no lugar onde vive, na escala urbana, da cidade, do bairro, da rua”, defende a professora e pesquisadora Karla Annyelly Teixeira de Oliveira, coordenadora do projeto Nós Propomos! Goiás e integrante do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Educação Geográfica-Lepeg/Iesa, da Universidade Federal de Goiás (UFG).
Conduzido entre 2019 e 2021, o projeto foi uma das 14 propostas de pesquisa selecionadas pelo edital Anos finais do ensino fundamental: adolescências, qualidade e equidade na escola pública, lançado pelo Itaú Social e pela Fundação Carlos Chagas. Sua origem vem da metodologia Nós Propomos!, criada na Universidade de Lisboa e presente em vários países, cidades e estados brasileiros. Em Goiás, as atividades iniciaram em 2018 no ensino médio e, a partir de 2020, nos anos finais do fundamental.
Quando o professor Sérgio Claudino, do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa (Igot-ULisboa), visitou Goiânia, no final de 2016, Karla tinha acabado de ingressar como professora do curso de geografia do Instituto de Estudos Socioambientais da UFG. Desde o mestrado, em 2008, sua intenção era trabalhar com construção do conhecimento escolar, na perspectiva do ensino sobre a cidade. “Nessa época, em pesquisa financiada pelo CNPQ e pela FaPeg, surgiram os primeiros fascículos didáticos de geografia que elaboramos, um sobre cartografia e outro sobre bacias hidrográficas, e logo depois, entre 2008 e 2011, atuei como professora concursada da rede municipal de Goiânia”, explica a pesquisadora, participante da Rede de Pesquisa em Educação e Cidade (Repec).
Uma passagem pela Universidade de Sevilha, durante o doutorado na UFG, levou Karla a conhecer o Nós Propomos!, que em 2017 e 2018 aconteceu de forma experimental em Goiás no ensino médio de quatro escolas. Ao final daquele ano, um colega identificou o edital do Itaú Social e Fundação Carlos Chagas. “Em parceria com professores que se formaram juntos na Universidade Estadual de Goiás e que atuavam em várias cidades, pensamos a metodologia para a etapa dos anos finais do ensino fundamental. Acho que fomos escolhidos muito pela força dessa rede de colaboração e pelas primeiras versões dos nossos fascículos didáticos”, conta.
Karla assumiu a coordenação de uma equipe com pessoas espalhadas em várias cidades e o processo de execução do projeto. No meio da pandemia os desafios, que não eram poucos, se multiplicaram. A pesquisadora sênior Lana de Souza Cavalcanti, com pós-doutorado em geografia e professora da graduação e da pós-graduação em geografia do Instituto de Estudos Socioambientais da UFG, teve papel crucial. “Ela liderou a execução durante a minha licença-maternidade, a partir de junho de 2020, e conseguiu motivar os professores a manterem o trabalho à distância. A Lana ajudou a pensar o projeto, e sua atuação foi muito significativa nesse momento de adversidade.”
Como explicado no e-book Construção de pensamento geográfico e atuação cidadã, que esmiúça o projeto, “a versão do Nós Propomos! Goiás coloca em foco o conceito de cidadania territorial articulada com os fascículos didáticos da Repec. Trata-se de uma proposta de aprender geografia identificando, analisando e propondo soluções para problemas do entorno”. Na entrevista a seguir, Karla detalha como a educação geográfica pode estimular o protagonismo dos estudantes e a cidadania, tornando-se relevante tanto para a escola como para a sociedade.
NNotícias da Educação — O que é o conceito de cidadania territorial?
KKarla de Oliveira — É colocar o território de vivência do estudante como importante dimensão para o exercício da cidadania na prática, como ação. Ou seja, o lugar onde a vida acontece torna-se o centro do debate. É o lugar de fato ocupado pelo estudante: com seu corpo, sua identidade, sua cultura. A cidadania territorial traz a ação do sujeito como ferramenta de conhecimento, com uso e apropriação dos territórios. É sempre uma possibilidade de exercício da cidadania no nível do bairro, como reutilizar uma praça abandonada, fazer uma intervenção ou propor novo uso. É uma cidadania que se reforça se cada um entende seu lugar e compreende sua relação com o mundo. As situações variam conforme os contextos. Se aqui no Brasil uma professora é exonerada por causa de uma fala homofóbica, no Catar as pessoas estão sendo condenadas à morte por fazerem manifestações a favor da diversidade. É preciso entender melhor os territórios, pois mesmo pautas locais podem apontar para temáticas globais.
NComo funciona a metodologia do Nós Propomos!?
KSua proposta é atuar na escala do bairro, do imediato do aluno, é fazer com que ele olhe para esse lugar, esse percurso, problematize e estude a realidade, elabore perguntas e queira compreendê-la. Nas escolas onde aconteceu o projeto, os estudantes precisavam identificar um problema local, levantar dados, fazer estudos de campo, aprender conceitos e realizar uma pesquisa e um seminário sobre tudo o que foi produzido. Havia um roteiro metodológico a seguir: após apresentarmos a proposta para os professores parceiros, fazíamos reuniões semanais, e cada educador era acompanhado e apoiado por um professor da universidade. Em geral, decorriam dois ou três meses entre o início de um projeto e a apresentação do seminário.
NEsse tipo de projeto depende de parcerias?
KSim, precisa haver um diálogo entre escola e universidade. Estabelecemos parcerias com as secretarias quando procuramos professores com disponibilidade para o trabalho. Em alguns momentos os acadêmicos já têm uma relação com a escola por meio do estágio supervisionado, outras vezes há professores que sabem do projeto e um indica outro. Em nossa equipe há 35 pessoas: doze professores da Universidade Federal de Goiás (metade fica responsável pelos fascículos e metade, pela pesquisa na escola), nove professores das escolas, e os demais dão apoio à pesquisa, são colaboradores, estudantes de graduação e de pós.
“A proposta metodológica do projeto contribui para a tarefa principal da geografia na escola, que é formar o cidadão capaz de ver o mundo pela perspectiva da espacialidade.”
NNo projeto de Goiás, o que foi seguido da proposta metodológica da Universidade de Lisboa e o que ficou diferente?
KO objetivo do Nós Propomos!, que é aprender a ler o lugar a partir da geografia e da cidadania, se combinou na nossa rede de ensino com os fascículos que já tínhamos publicado, que pensam conceitos geográficos na escala urbana de Goiânia. Mas desde o início nós somos diferentes, pois as escolas em Portugal se inscrevem por edital no projeto e depois apenas vêm ao seminário na universidade apresentar seus resultados. Em Goiás, a pesquisa é mais tutelada, convidamos o professor, explicamos a proposta e verificamos o interesse e a disposição para o diálogo, pois ninguém obriga a participar. Aqui fazemos junto, é um acompanhamento próximo. Não basta os meninos dizerem que tem problema de lixo nas ruas: é preciso ligar isso ao processo de expansão urbana, fazer relação com o fascículo que estuda isso na geografia. Tanto que, na primeira edição do projeto, algumas investigações ficaram com muito conteúdo teórico, foi necessário reequilibrar com o estudo de campo e dar mais autonomia aos alunos.
NPor que é importante instituir a pesquisa como requisito no trabalho do professor no ensino fundamental? O que é preciso para que ela se efetive dentro das escolas?
KA construção de conhecimento é dinâmica, é um processo. Eu acredito no princípio da pesquisa. Um exemplo foi a escola que realizou um projeto sobre o entulho na rua. Ao fazer um levantamento, descobriu que Goiânia tem oito ecopontos para receber restos de construção, lixo eletrônico, móveis velhos, e eles não eram divulgados. O processo de metodologia ativa só é possível com um professor pesquisador e intelectual crítico. Ele precisa ter espírito investigativo, ser construtor de texto e de conhecimento. Os desafios para que se tenha esse profissional na educação pública são a formação inicial e garantir as condições de tempo e espaço na escola para a pesquisa.
“Penso que precisamos investir no professor como intelectual de pesquisa dentro da escola, pois é ele quem planeja e orienta as ações dos estudantes.”
NPode comentar algum dos projetos realizados por estudantes dos anos finais, descrevendo o tema, as investigações e os reflexos no conhecimento geográfico e na postura cidadã dos adolescentes?
KNo Colégio Estadual Rui Barbosa, na cidade de Inhumas, três estudantes abordaram o problema da violência urbana e escolar, em 2020. Como temos um fascículo didático sobre o tema, o grupo começou entrevistando os colegas para verificar dados de violência da escola, buscaram registros com o batalhão da polícia militar da cidade para saber sobre os principais crimes e tabularam tudo. Por se tratar de uma cidade pequena, foi possível dialogar com várias instâncias e chegar ao secretário de Segurança Pública. Ao final, entre as propostas, sugeriram contratar psicólogos para escolas e instalar câmeras para inibir ações violentas na cidade. Em um projeto do segundo semestre de 2021, uma única estudante da EJA (Educação de Jovens e Adultos), do período noturno, trabalhou a intolerância religiosa e o racismo em relação a religiões de matriz africana. Organizou na escola um debate com especialistas de diferentes credos que oportunizou a participação de muitos estudantes. Ao todo realizamos 14 projetos nos anos finais ao longo de dois anos.
NQuais são os principais benefícios dos projetos realizados com a metodologia Nós Propomos!?
KTrabalhar em grupo é um dos aspectos mais positivos e outro é divulgar as propostas para alunos de outras escolas por meio dos seminários. Eu diria que o projeto contribui nos seguintes aspectos: compreender o que é geografia, conhecer melhor o local onde se vive, saber realizar um trabalho de campo e ter acolhidas suas propostas de melhoria territorial. Fizemos uma sondagem entre estudantes para saber como eles definiriam o Nós Propomos! em três palavras. As mais citadas foram: aprendizagem, divertido (empatou com legal) e inovador. O resultado foi ótimo, considerando que tudo aconteceu em época de pandemia, com distanciamento e pouco estudo, e por isso engajando um grupo pequeno de estudantes.
NQuais são as contribuições da metodologia do Nós Propomos! Goiás para o desenvolvimento dos estudantes dos anos finais?
KNão fizemos avaliação pré-projeto, portanto as análises que realizamos tomam por base nossa observação e a fala dos estudantes. Mas percebemos que eles conseguiram estudar conteúdos e operar instrumentos de pesquisa próprios da geografia, elaboraram e aplicaram questionários, fizeram entrevistas com moradores do bairro. Além dos trabalhos de campo, elaboraram mapas, construíram gráficos, escreveram textos, prepararam apresentações… em resumo, fizeram um projeto de iniciação científica na escola. Em um dos nossos seminários, uma estudante portuguesa que investigou a precariedade do transporte público em Lisboa disse: “O projeto contribuiu para eu aprender como e onde buscar respostas para nossas perguntas, a trabalhar em grupo, organizar as coisas, criar uma página na internet e divulgar o que fizemos”.
NExiste também um impacto na sociedade, consequência das investigações e propostas dos estudantes?
KPara a população, acho que vale ressaltar as ações de conscientização para mudança de atitude, o que ocorre quando são trabalhados temas ambientais, étnico-raciais, de patrimônio cultural e outros. Além do desenvolvimento conceitual, ele aponta para a cidadania como ação, sejam ações dos alunos, cuidadas e cumpridas pela comunidade escolar, ou aquelas executadas por gestores públicos.
NO que foi fundamental nos resultados do projeto e que não teria sido possível sem o apoio do edital?
KO próprio projeto nos anos finais do ensino fundamental não teria acontecido, pois nosso foco era o ensino médio. Graças ao apoio e à parceria com os professores pesquisadores, todas as escolas compraram computador, impressora, papel e outros equipamentos que são bens permanentes e fazem diferença na vida deles. O financiamento e a tutoria foram essenciais, pois também foi um desafio grande trabalhar com alunos dessa idade. Não dá para deixar os meninos de 12 a 14 anos pesquisarem sozinhos pelas ruas; é preciso autorização e acompanhamento do professor no trabalho de campo. Outro destaque para mim foi a produção do livro, pois fizemos o relatório-síntese do projeto nesse formato, que foi um ótimo fecho para a pesquisa e está disponível para download para quem se interessar.
Saiba mais
- No site do Lepeg há uma página que explica sobre a metodologia Nós Propomos! e fornece orientações para quem deseja aplicar o projeto em sua escola ou rede de ensino.
- Estudantes de Goiás propõem soluções para problemas sociais em projeto de pesquisa.
- Proposta metodológica do Nós Propomos! Goiás.
- Nós Propomos! Livreto com roteiro de orientação para o desenvolvimento do projeto.
- Construção do pensamento geográfico e atuação cidadã: livro sobre o projeto Nós Propomos! Goiás.
- Fascículos didáticos temáticos sobre a região metropolitana de Goiânia produzidos pela Rede de Pesquisa em Educação e Cidade (Repec), em parceria com professores de geografia da educação básica.
- Novas visões sobre os anos finais do ensino fundamental.
- ROBERTA GURGEL AZZI — Acreditar na própria capacidade faz grande diferença no sucesso dos estudantes.