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Uma orientação para os educadores

Marcianne Lima de Morais, formadora de professores no Piauí, conta como os Mapas de Foco têm contribuído para a definição das aprendizagens essenciais e a reorganização de práticas pedagógicas na pandemia


A pedagoga Marcianne enfatiza a importância das formações que habilitem os professores a trabalhar com os novos currículos: “É visível a diferença entre o educador que usa o Mapa de Foco e o que insiste em trabalhar todas as habilidades ao mesmo tempo”. Foto: YouTube Itaú Social

Por Maria Lígia Pagenotto, Rede Galápagos, São Paulo.
Depoimento de Marcianne Lima de Morais, pedagoga, especialista em psicopedagogia e educação infantil. Atua na formação de professores em várias redes públicas e privadas do Piauí.

Quando começou a pandemia, eu e meu irmão — Márcio Lima —, professores há mais de 25 anos, vimos a angústia dos colegas docentes diante de tantas mudanças na educação. Montamos então, de forma independente, um programa de mentoria para educadores, desde o plano de curso até o processo de avaliação nesse período de ensino remoto. Muitos municípios, de vários lugares do Brasil, inscreveram seus professores nessa mentoria. 

Em janeiro de 2021, começamos a montar um outro programa, para os estados do Piauí e do Ceará, pensando no novo ano letivo e nas orientações do Conselho Nacional de Educação sobre o trabalho com as aprendizagens essenciais. Decidi me aprofundar no assunto para oferecer um material de apoio aos municípios, pois acompanho há anos as discussões sobre a Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

No computador, ao pesquisar o assunto, deparei com os Mapas de Foco da BNCC, elaborados pelo Instituto Reúna em parceria com o Itaú Social. Busquei me aprofundar no tema e vi que era exatamente o que precisávamos. Sugeri então o uso desse material às redes e escolas e, a partir desse mapa, eles puderam incluir especificidades do currículo de suas localidades.

O resultado foi surpreendente, pois muitos professores e coordenadores tinham dificuldade para definir as aprendizagens essenciais e para trabalhar com as habilidades e as competências da Base — estava tudo começando. 

As escolas e redes que aceitaram trabalhar com os Mapas de Foco ficaram encantadas com a qualidade do material. Muitos até então não tinham claro o que é uma aprendizagem essencial; e os mapas facilitam essa compreensão. Foi extremamente útil e importante para avançarmos alguns pontos na educação durante a pandemia.  

Em abril, dediquei uma semana para explicar aos municípios o passo a passo sobre como trabalhar com os mapas. Estamos fazendo um processo de recuperação das aprendizagens do ano passado, então eles utilizam aquela parte que fala sobre conhecimentos prévios para poder selecionar o que tem do ano anterior também. 

Quem conseguiu se organizar para trabalhar com os Mapas de Foco não pensa mais em mudar de método. Ao contrário, deve ficar trabalhando com os mapas até o final deste ano, pelo menos. O que eu vejo é que houve muitos avanços a partir do uso dos mapas. No ano passado, por exemplo, os educadores estavam totalmente perdidos naquela imensidão de habilidades da BNCC — ficamos o ano de 2020 inteiro trabalhando 70, 80 habilidades, sem sucesso. Os Mapas de Foco vieram para dar um norte a esses educadores. Agora eles conseguiram definir o que é essencial, trabalham com mais propriedade, sabem o que estão fazendo. 

Os relatos que recebo são provas de que eles obtiveram algumas conquistas nesse processo e a mais importante, acho, é a melhor compreensão do que é proposto pelo Conselho Nacional de Educação. É enorme a diferença entre 2020, considerado um ano angustiante, frustrante, e 2021. No ano passado, todos trabalharam sem direção; hoje conseguem ter mais clareza sobre o que estão fazendo. 

Nesse contexto, avalio que 2020 foi um ensaio, com perdas muito grandes para a educação como um todo, mas vejo perspectivas boas para 2021. Há que se levar em conta também que a nossa realidade aqui no Piauí é muito dura. A maioria dos alunos não tem ou não utiliza tecnologia digital, por falta de recursos ou de conhecimento. A educação se resume, normalmente, a um caderno de questões enviado para a casa dos alunos. Aqui o ensino remoto, on-line, como proposto, só existe no papel. 

Pedimos muito aos prefeitos que ofereçam essa tecnologia às famílias, pois isso facilitaria muito o estudo das crianças e jovens. Muitas mães nos dizem que têm poucos recursos para fazer uma atividade remota, pois o plano de dados do celular é muito restrito, quando existe. Qualquer acesso consome os créditos disponíveis. Para dar conta dessa realidade, estamos tentando trabalhar com as escolas aqui do Piauí e do Ceará um roteiro que desenvolva as aprendizagens essenciais, e não uma simples lista de atividades. 

Cena da live de lançamento dos Mapas de Foco na Rede e na Escola: orientações para flexibilização curricular no contexto da pandemia. Imagem: YouTube Itaú Social

Os educadores que trabalham com os Mapas de Foco já aprenderam que não se desenvolve uma aprendizagem essencial sem metodologia ativa, sem aprendizagem significativa. É, portanto, visível a diferença entre o educador que usa o Mapa de Foco e o que insiste em trabalhar todas as habilidades ao mesmo tempo. Dessa forma, ele lota a criança de atividades cansativas, extensas e sem sentido. 

Os Mapas de Foco têm um impacto muito grande na organização dos planos dos professores, na elaboração de atividades, na compreensão do trabalho com as competências e habilidades e com a progressão das aprendizagens. Não nos vemos mais sem esse material. Ele é claro e objetivo e nos ajuda a identificar com facilidade os pontos que temos de trabalhar.

Hoje, alguns gestores municipais de educação relatam que não veem a possibilidade de ficar menos de três anos trabalhando com o que é proposto nos Mapas de Foco. Vejo também que muitos professores procuram a formação, sentem falta de apoio. No ano passado, com a implantação da BNCC, eles perceberam a importância da formação para trabalhar com os novos currículos. E a pandemia só tornou essa necessidade mais urgente — sem tecnologia digital, as desigualdades e as dificuldades se acentuaram. Lutamos para que os governos se sensibilizem com essa questão do acesso, que é fundamental para que a educação de qualidade chegue a mais pessoas. 

Mas, mesmo com essas limitações, reconheço que temos colhido resultados bons, embora a implantação dos Mapas de Foco ainda seja muito recente — de janeiro para cá. O retorno que recebemos nos mostra que estamos caminhando na direção certa, acredito. O que temos hoje é o professor satisfeito.

Ouvi de um professor de matemática que agora, graças aos Mapas de Foco, ele está entendendo a BNCC. Uma professora me disse que no início ela e os colegas tinham dúvidas — assim como nós  — em relação à sequência de habilidades apresentadas nos Mapas de Foco em comparação com o livro didático adotado na rede. Mas, à medida que o plano de curso foi sendo executado, as dúvidas foram sanadas. 

Outra professora, do Ceará, em mensagem enviada para mim, disse que os Mapas de Foco funcionam como uma grande orientação para ela, pois a ajudaram a compreender significativamente as habilidades focais. Em muitos relatos, os educadores contam que o plano de curso foi refeito com as habilidades essenciais. Espero que isso tudo se reflita no aluno.

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