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Um salto para a inclusão social

Como um circo-escola muda por meio da arte a realidade de crianças que vivem no centro histórico do Rio de Janeiro


Mathews, no alto, durante aula com seu irmão Lucas, em foto de 2019: manobras desafiadoras nas lições de circo e aprendizado para a vida. Foto: Circo Crescer e Viver

Por Luciana Vicária e Julia Fabri, Rede Galápagos, São Paulo

Matheus só tem dez anos e já domina manobras aéreas pendurado em uma corda. Ao lado de mais dois irmãos, ele se arrisca em números difíceis de contorcionismo como se fosse um boneco de borracha. Acha tudo divertido no circo, mas tem algo de que gosta mais do que brigadeiro e festa de aniversário: pintar o próprio rosto e dar vida a algum personagem mágico no picadeiro do Circo Crescer e Viver. Felicidade para ele, que vive sob a tutela da avó no Morro da Mineira, comunidade da zona central do Rio, é dobrar duas esquinas e enxergar lá no fundo a ponta do mastro azul-vibrante, que se destaca em um cenário todo cinza de concreto e asfalto. 

O Circo Crescer e Viver é uma fonte inesgotável de esperança para meninas e meninos que desde muito pequenos sabem o que é viver sem proteção. “Aqui, as crianças aprendem a lidar com o risco do circo e a administrar os riscos da vida, exercitando o foco, treinando a cooperação e, sobretudo, aprendem que é possível superar até os desafios mais difíceis”, diz Junior Perim, diretor-presidente do Circo Crescer e Viver e um dos idealizadores da instituição, instalada na Cidade Nova, bairro central do Rio de Janeiro.

Boa parte das conquistas do Circo Crescer e Viver se deve aos diversos parceiros públicos e privados que apostaram na causa. A organização foi uma das selecionadas para integrar o Programa Missão em Foco, do Itaú Social, que investe em organizações da sociedade civil que contribuem para o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes, concedendo a elas autonomia para aplicar os recursos em recursos humanos, comunicação, planejamento, inovação, monitoramento de resultados e sustentabilidade econômica. “É uma ajuda que nos permite ter mais segurança e clareza em nossos objetivos”, diz Perim. “A parceria foi essencial para o nosso reposicionamento, o que incluiu, por exemplo, nosso foco no desenvolvimento territorial. Os consultores nos deram as ferramentas necessárias para construirmos juntos a nossa forma de trabalhar” (Leia mais sobre o trabalho de inteligência de dados, com monitoria de resultados e mapeamento de potencialidades e desafios no entorno geográfico do Circo Crescer e Viver). 

Acesso à cultura e ao desenvolvimento integral
A ideia de criar um circo social nasceu quando Perim era diretor da escola de samba Porto da Pedra, a grande campeã do grupo de acesso do Carnaval carioca em 2001. A agremiação se mobilizou com o samba-enredo que homenageava os dez anos, completados em 1990, do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e criou uma iniciativa que passou a atender crianças vulneráveis na quadra da agremiação. Ao lado do amigo e palhaço Vinícius Daumas, Perim começou a oferecer aulas de cavaquinho e capoeira, o projeto se desenvolveu e o circo não saiu mais de cena. Matheus é uma das 300 crianças em situação de risco atualmente beneficiadas pelo Circo Crescer e Viver, organização que usa as artes circenses como ferramenta pedagógica de educação complementar e desenvolvimento integral. 

Em outubro de 2004, o circo-escola fincou seus mastros de ferro em um antigo estacionamento desativado, na Cidade Nova, com a missão de promover o acesso à cultura e ao desenvolvimento motor e emocional de crianças e jovens de 6 a 24 anos. Perim ainda se lembra de quando ergueu a lona pela primeira vez. “Um lavador de carros me abordou e disse que o sonho dele era ser um trapezista, com pouco mais de 1,90 metro e mais de 100 quilos. Hoje, aquele ex-lavador, de nome Djeferson, é um dos principais artistas que formamos e já rodou o mundo como trapezista e bailarino”, diz. 

Mais do que aulas de interpretação, técnicas circenses e dança, o circo se tornou uma referência de instituição política para todo o bairro da Cidade Nova. A lona multiúso que recebe os jovens para atividades físicas também sedia encontros, espetáculos e eventos para toda a comunidade. “A gente já tem o conhecimento necessário para ajudá-los a encaminhar demandas que afetam diretamente a qualidade de vida do nosso entorno imediato, como a falta de moradias dignas e de serviços públicos de qualidade. Sabemos da importância de nos comprometermos com os vizinhos e de ajudá-los a superar os dramas e desafios urbanos da comunidade”, afirma Perim, que também abastece seu público com palestras. 

O Circo Crescer e Viver sofreu inúmeras transformações até chegar ao nível atual de maturidade: esteve à beira de baixar a lona por falta de apoio financeiro, sem saber gerir muito bem os recursos, e hoje se orgulha de caminhar em direção à sustentabilidade financeira. Não cobra mensalidade daqueles que não têm condições de arcar com os cursos, mas oferece aulas pagas de circo aos interessados em praticar e aprender. Também aluga o picadeiro para eventos esporádicos e tem uma lanchonete para receber os visitantes.  

Registro de uma apresentação feita antes da pandemia: presença no território e espetáculos regulares, com entrada franca. Foto: Circo Crescer e Viver

Autoestima e empoderamento
O ponto alto da dedicação de alunos e professores são as mostras e exibições públicas realizadas regularmente e com entrada franca. Além disso, a organização promove o Festival Internacional de Circo do Rio de Janeiro, que na última turnê, em 2019, realizou 200 apresentações gratuitas em 60 pontos da cidade; sem contar a lona volante com capacidade para 500 pessoas que já percorreu 20 cidades do interior do estado. No mesmo ano, o espetáculo Clássico, com supervisão de Deborah Colker, foi um marco para a instituição. “As crianças e jovens têm orgulho do que fazem e de quem estão se tornando. É uma injeção de autoestima e empoderamento para que se apropriem do futuro e transformem o local onde moram”, afirma Perim, que calcula ter atendido 20 mil crianças ao longo de 16 anos. 

Após mais de cinco meses sem receber crianças no picadeiro, monitorando à distância as mais vulneráveis e levando apoio financeiro às mais carentes, o Circo Crescer e Viver retomou as aulas presenciais em outubro – e já está atendendo o público. Jovens de até 24 anos estão frequentando o picadeiro de segunda a sexta-feira na parte da manhã. Crianças e adolescentes, de segunda a quinta-feira. Até os mais novinhos, de 4 anos, que antes ficavam de fora, foram contemplados com um programa chamado trampolim para a vida. “Foi bom ver meus amigos e voltar a fazer aquilo de que eu mais gosto”, disse o jovem Matheus, sorridente, expressando um sentimento compartilhado com Perim: “A alegria de saber que as dificuldades estão sendo vencidas nos faz acreditar em um futuro próspero e acolhedor para as nossas centenas de meninas e meninos do circo”.

Inteligência de dados guia reposicionamento 

Consultoria de start-up promove monitoria de resultados e mapeamento de potencialidades e desafios na Cidade Nova, região central do Rio de Janeiro


Detalhe de página do diagnóstico socioterritorial feito pela consultoria Pyxis sobre a área de atuação do Circo Crescer e Viver: indicadores para aprimorar a gestão Imagem: Pyxis

Quem vê hoje as conquistas do Circo Crescer e Viver talvez nem imagine os desafios enfrentados ao longo dos mais de 15 anos de história. Nos bastidores, em muitos momentos as alegrias dividiram espaço com as dificuldades financeiras. As incertezas deixaram claro que somente uma gestão eficiente poderia viabilizar a continuidade das ações. Graças ao Programa Missão em Foco, uma virada organizacional começou a tomar forma em julho de 2020. “Apesar da experiência prática de anos no território da Cidade Nova e adjacências, faltava aprofundar o repertório analítico. O principal desafio do Circo Crescer e Viver era tomar decisões assertivas a partir do uso estratégico de dados e informações qualificadas”, diz Rodrigo Costa, sócio e diretor executivo da Pyxis, start-up de inteligência de dados e geoinformação que entrou em cena para ajudar a estruturar os processos. “A OSC já desenvolvia diferentes ações sociais, mas precisava mensurar de forma sistemática e efetiva o impacto dessas ações.” 

Para Rodrigo, adaptar-se às transformações digitais e atrelar a tomada de decisões ao uso estratégico da inteligência de dados e das informações é um dos grandes desafios enfrentados hoje pelas organizações da sociedade civil (OSCs). “Nossa missão é construir caminhos para fortalecer as instituições, entendendo suas necessidades e elaborando soluções customizadas alinhadas às expectativas e às características de cada uma delas. Não acreditamos em soluções prontas replicáveis para diferentes realidades. A escuta qualificada e permanente com os atores-chave da organização é uma etapa fundamental do nosso trabalho.” Os profissionais da Pyxis fizeram uma imersão no Circo Crescer e Viver e participaram de reuniões com gestores para compreender as fragilidades e facilidades de cada setor para se adequarem à estratégia de reposicionamento. “Assim, identificamos os gargalos e propusemos a construção de dois produtos: o Diagnóstico Socioterritorial e a Metodologia Pyxis de Monitoramento e Avaliação Multidimensional.”

Indicadores alinhados aos objetivos
O Diagnóstico Socioterritorial é uma tecnologia social de mapeamento que orienta a tomada de decisões. É uma ferramenta estratégica de planejamento e gestão que fornece elementos analíticos com base na caracterização multidimensional dos territórios, revelando as potencialidades e os desafios locais. No caso do Circo, para viabilizar sua implementação, foram aproveitados recursos já existentes. “Um grupo de jovens que distribuía cartões-alimentação e máscaras para mitigar os impactos da Covid-19 na região foi treinado em técnicas de pesquisa para fazer a coleta domiciliar de dados por meio de um aplicativo elaborado por nós”, explica Rodrigo. Ele defende que a construção da matriz de indicadores deve estar alinhada aos objetivos, metas e condições operacionais de cada organização. “Se um indicador for sofisticado por causa da formulação matemática, mas complexo para ser medido e acompanhado sistematicamente pela organização, não é recomendado para aquela realidade.” 

Rodrigo acrescenta que a Metodologia Pyxis de Monitoramento e Avaliação Multidimensional é uma tecnologia social que avalia o impacto dos projetos do Circo Crescer e Viver no território. A matriz de indicadores foi definida pelos próprios colaboradores em um processo orientado e supervisionado pela equipe da Pyxis. “A cocriação é como uma transferência dos nossos conhecimentos de inteligência de dados. Queremos contribuir para uma trajetória de autonomia, amadurecimento e evolução das práticas de monitoramento e avaliação”, diz Rodrigo. 

Assim, o Circo passou a dispor de um repertório analítico composto de ferramentas e técnicas para a mensuração mais efetiva e sistemática dos resultados de suas ações. Você pode acessar uma versão sintética do relatório socioterritorial aqui. “A principal diferença entre a gestão das organizações da sociedade civil e a das empresas privadas está na cultura organizacional e no grau de entendimento quanto à importância da inteligência de dados e das informações como ativos estratégicos para a tomada de decisões”, explica Rodrigo. “Felizmente, temos percebido uma crescente conscientização das organizações do terceiro setor nesse sentido.”