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Todas têm o direito de sonhar

Em Serra (ES), organizações da sociedade civil trabalham em rede para acolher meninas em potencial evasão escolar — e todas seguem estudando


Dinâmica sobre autocuidado e rede de apoio: prática se repetiu semanalmente nas rodas de conversa realizadas na biblioteca da escola em que as meninas estavam matriculadas. Foto: Carolina Lima

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Lauro de Freitas (BA)

“Segundo o UNICEF, nós já tínhamos no Brasil 1,1 milhão de estudantes fora da escola. Com a pandemia, esse dado ultrapassa os 5,1 milhões.” Os números dão suporte a Luiz Miguel Garcia, presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), em recente alerta sobre o agravamento do problema da evasão escolar no Brasil, durante uma live em que discutiu o assunto. Uma das estratégias adotadas por escolas de todo o país durante a pandemia foi o ensino remoto, o que escancarou problemas causados pela desigualdade, como a ausência de acesso às tecnologias e à conectividade de qualidade em regiões pobres e periféricas.

Nesse contexto, em 2021 o Itaú Social lançou o projeto Experiências em Rede: Práticas Educativas e Colaborativas entre as OSCs na Pandemia. A iniciativa tem como objetivo promover o trabalho colaborativo entre organizações da sociedade civil (OSCs), buscando soluções para enfrentar o agravamento da evasão e abandono escolar, além de possibilitar o desenvolvimento de ações que promovam o aprendizado de crianças e adolescentes no contexto da pandemia. As organizações dos 41 municípios participantes criaram propostas de atuação coletiva e contaram com um auxílio financeiro para apoiar a implementação da proposta. 

Em Serra, no Espírito Santo, um grupo de meninas com idade entre 14 e 18 anos foi acompanhado de perto, numa ação de prevenção da evasão escolar intitulada Mente Saudável Feminina. O projeto, executado por três OSCs do município através do Experiências em Rede, promoveu encontros semanais na biblioteca da Escola Vila Nova de Colares, onde as meninas estavam matriculadas. A ideia foi proporcionar um espaço em que elas se sentissem à vontade para falar sobre suas dificuldades e, assim, identificar as possíveis causas do abandono escolar.

Nove das 11 participantes do projeto estavam grávidas ou deram à luz recentemente, situações que as colocam em risco de precisar abrir mão dos estudos para lidar com as responsabilidades da maternidade. “Perguntamos à escola quais eram as meninas em potencial evasão escolar. Observamos a lista e notamos que a maior parte das meninas estava grávida ou tinha filhos”, lembra Carolina Lima, assistente social do Instituto PEB, um dos realizadores do projeto. A gravidez na adolescência é um dos principais motivos de evasão escolar entre as meninas. Um estudo realizado pela Fundação Abrinq em 2019 revelou que 29,5% das mães com até 19 anos não concluíram o ensino fundamental. O documentário Meninas (2006), da diretora Sandra Werneck, ajuda a compreender o cenário problemático da gravidez na adolescência nas periferias brasileiras.

O Instituto PEB atende crianças e adolescentes com aulas de basquete e projetos de assistência social. O projeto Mente Saudável Feminina é realizado em parceria com outras duas instituições: o Instituto IDE, que conecta organizações sociais, voluntários e empreendedores no terceiro setor, e o Instituto Ponte para Vida, que realiza ações voltadas para a saúde mental.

Carolina: “Se estamos preparados para receber mães, precisamos estar para receber os filhos. Isso faz com que elas se sintam acolhidas”. Foto: Carolina Lima

Em rede, as três OSCs contribuem com suas respectivas expertises para enfrentar a exclusão escolar. “É uma junção do útil ao agradável”, conclui Carolina. “Com o grupo consolidado, a experiência em rede tem fluído bem. Fazemos reuniões periodicamente para ver o que está funcionando e o que precisa melhorar.”

O início do projeto foi complicado. A abordagem às meninas não surtiu o efeito esperado e elas não pareceram interessadas em participar do grupo. Carolina conta que, com o tempo, percebeu que as meninas e suas famílias eram mais receptivas quando o contato inicial era feito por mulheres. Assim, a assistente social passou a ser uma das responsáveis por convidar e explicar do que se trata o projeto. “As famílias apoiam e incentivam as meninas, mas sentiam falta desse olhar cuidadoso sobre elas”, aponta. 

Uma delas quer ser atriz. Em um dos encontros, pôde conversar com uma convidada que teve vivência parecida com a dela e, através da educação, realizou o sonho de ser profissional do teatro. Uma das estratégias da iniciativa é mostrar às meninas como a educação transformou a vida de pessoas com quem elas se identificam. O formato de roda de conversa, com incentivo à participação ativa de todas, mostrou-se mais efetivo que o de palestra, parte da proposta original. Aos poucos, com a consolidação do sentimento de pertencimento ao grupo, a desconfiança desapareceu e as meninas começaram a se expressar.

“Como a maioria delas está em licença-maternidade e estudando on-line, é difícil conciliar o estudo com os cuidados de uma criança e da casa”, observa a assistente social Carolina Lima, lembrando os depoimentos feitos durante os encontros. Ela e Roselaine de Pádua, do Instituto Ponte para Vida, são as responsáveis por conduzir os encontros. Os homens resolvem os bastidores, como finanças e questões administrativas com a escola. “Apenas mulheres participam das rodas. Com isso, as meninas acabam falando várias coisas que provavelmente não falariam na presença de um homem.” Esse método é importante para entender por que elas pensam em desistir da escola. Além das questões relacionadas à maternidade, a didática dos professores ao passar os conteúdos é outro motivo citado com alguma frequência.

Desistindo de desistir
Ainda no início do projeto, boa parte das meninas respondeu sim quando questionada se pensava em desistir da escola. “Voltamos a perguntar agora, e todas disseram que não. Devido às circunstâncias, pode ser que algumas sejam reprovadas este ano. Mas para nós já é uma conquista saber que não desistirão”, conta uma orgulhosa Carolina. “Algumas delas diziam que não tinham sonhos e que a vida estava boa assim. Hoje, têm objetivos claros e sempre incluem na fala o processo do estudo.”

Para a assistente social, foi fundamental insistir na ideia de que ter uma criança não anula quem as meninas são e quem pretendem ser. Por fim, elas entenderam que estão vivenciando uma experiência desafiadora. Entretanto, a caminhada pode apresentar menos obstáculos se elas contam com uma rede de apoio e se sentem que fazem parte de uma comunidade. Agora, elas têm consciência do que querem, sabem que podem e se sentem capazes. Sabem também que, para alcançar os seus objetivos, devem fazer uso de uma ferramenta essencial: a educação.

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