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Semeando a consciência

Iniciativa parceira do IR Cidadão ensina crianças e adolescentes a gerar menos resíduos e a plantar árvores no sertão do Moxotó, em Pernambuco


Em foto anterior à pandemia, jovens aprendem a selecionar e cultivar sementes e distribuem mudas para arborização de Ibimirim (PE): 300 novas árvores por mês. Foto: Ceasape/Divulgação

Por Cley Scholz, Rede Galápagos, São Paulo

Gláucia Cordeiro tinha 16 anos quando ganhou uma muda de árvore (uma acácia) e um regador para cuidar da planta. Foi o seu primeiro contato com um grupo de educação ambiental criado para estimular o reflorestamento da cidade onde mora, Ibimirim, no sertão de Pernambuco, a 334 quilômetros de Recife. A iniciativa da prefeitura buscava atenuar os efeitos do calor e ar seco agravados por décadas de exploração descontrolada da área de caatinga. Por influência dos educadores ambientais, Gláucia formou-se em biologia e hoje, 15 anos depois, é presidente da Associação Umburanas do Vale do Moxotó e coordenadora do projeto “Minha Cidade, Minha Imagem”, o mesmo no qual aprendeu as primeiras lições sobre o meio ambiente.

Em meio a tantas notícias sobre desmatamentos e queimadas no país, é alentador saber que adolescentes de uma pequena cidade do semiárido nordestino plantaram mais de 8 mil mudas de árvores nativas e exóticas para tornar mais agradável o clima local. O ponto de partida do trabalho consiste em entregar a cada criança uma muda, um regador e instruções para cuidar da sua árvore. “A ideia do projeto sempre foi cuidar do meio ambiente e levar a questão ambiental para a juventude”, comenta Gláucia. “Quando começamos a ver nossas árvores crescendo percebemos que estávamos fazendo alguma diferença no mundo.”

Criada em 2002, a Associação Umburanas é responsável pelo Centro de Educação Ambiental do Semiárido de Pernambuco (Ceasape), que administra o “Minha cidade, minha imagem”.

Colheita de tomates na horta, em imagem de 2019: aprendizado e cultivo de alimentos entre as atividades de contraturno para jovens de 14 a 17 anos. Foto:  Ceasape/Divulgação

A iniciativa atende jovens de 14 a 17 anos. Neste ano a turma é composta por 55 adolescentes encaminhados pelo Conselho Tutelar. Destes, 20 são mantidos por meio do convênio com o Itaú Social com o Edital Fundos da Infância e da Adolescência (Edital FIA), destinado a selecionar e apoiar ações, serviços, programas ou projetos considerados prioritários pelos Conselhos dos Direitos da Criança e do Adolescente.

Da arborização à integração social
Antes da pandemia, os jovens participavam de atividades educativas durante quatro horas, no contraturno escolar, e recebiam duas refeições. Durante o período de isolamento, a equipe de 13 professores e educadores preparou um plano pedagógico de emergência que usa o WhatsApp e a internet para encaminhar atividades pedagógicas e orientações sobre cuidados na prevenção. Tanto antes como agora, eles também recebem uma bolsa de R$ 150,00 mensais, que muitos transformam em poupança para quando estiverem na universidade. 

A iniciativa tem sede própria, onde os jovens aprendem a lidar com a terra. Ali as atividades, inicialmente voltadas à distribuição de mudas e incentivo à arborização, deram origem a um trabalho mais amplo de integração social, reforço pedagógico e formação profissional. Antes da pandemia o aprendizado incluía transformar resíduos orgânicos em adubo e húmus. E, claro, a conhecer e cuidar das árvores em todo o processo, desde a sementeira. O viveiro produz mensalmente cerca de 300 mudas de espécies nativas como a umburana, catingueira, angico, baraúna, umbu e juazeiro, além espécies exóticas.

Oficina de marchetaria, em foto do ano passado: cavacos de madeira fornecidos pelos santeiros da cidade são reaproveitados para a confecção de acessórios. Foto: Ceasape/Divulgação

O viveiro produz mensalmente cerca de 300 mudas de espécies nativas como a umburana, catingueira, angico, baraúna, umbu e juazeiro, além espécies exóticas.

Manutenção de vínculos
A umburana, típica da região, é muita usada pelos artesãos locais, especializados em arte sacra. Os santeiros de Ibimirim, que transmitem sua antiga tradição em oficinas para jovens aprendizes, tornaram-se fornecedores de matéria prima para os adolescentes do projeto social. Os cavacos de madeira resultantes da confecção de santos deixaram de ser jogados no lixo para serem transformados em delicadas peças de marchetaria – combinação de madeiras de diferentes cores em mosaicos cuidadosamente encaixados, colados e encerados ou envernizados. Os restos de madeira viram biojoias, acessórios, caixas ou móveis. Chifres de bovinos doados pelo matadouro local também servem de matéria prima para artesanato. A produção das oficinas e as mudas são comercializadas e ajudam nas despesas com a manutenção do espaço. Mas a pandemia abalou as vendas e adiou temporariamente a participação em uma uma feira de artesanato no Recife.

Durante o período de isolamento social, a equipe de educadores e funcionários mantém cuidados essenciais para garantir a sobrevivência das mudas e produção de adubo, bem como a manutenção das oficinas, para que o trabalho possa ser retomado quando possível. “Sabemos que não podemos receber os adolescentes agora, mas procuramos manter os vínculos com as famílias, levando orientações e estímulo para que não desanimem e continuem prestigiando o que o projeto tem tanto a oferecer a eles”, diz Gláucia.

Crescimento pessoal e novas habilidades
Uma equipe de pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) acompanhou o projeto de reaproveitamento de resíduos orgânicos com viés na educação ambiental. O trabalho intitulado “Fabricação de artefatos a partir do aproveitamento de biomassa residual no semiárido pernambucano” apresenta uma avaliação positiva.  “O aproveitamento dessa matéria-prima no projeto de educação ambiental de Ibimirim contribui de maneira ativa e promissora na melhoria da qualidade de vida da sociedade nos mais diversificados aspectos, dentre eles aquisição de novas habilidades e profissões, geração de emprego e renda, crescimento pessoal e intelectual dos envolvidos”, diz o texto assinado pelos pesquisadores Patrício Rinaldo dos Santos, Maria Luiza Coelho Cavalcanti, Luana Cândido dos Santos e Ana Márcia Moura da Costa, apresentado no X Congresso Brasileiro de Gestão Ambiental em Fortaleza, em 2019.

E assim, a cidade começa a se destacar em plena caatinga, bioma marcado por intensos processos de degradação, para o qual os ambientalistas reconhecem a necessidade de estratégias mitigadoras como o cultivo de mudas. Dados do IBGE citados em artigo publicado na revista acadêmica Ambientale apontam que a cidade localizada no sertão do Moxotó tem 79% dos domicílios urbanos em vias públicas com arborização.

A coordenadora Gláucia Cordeiro: ao lado da acácia que plantou aos 16 anos, quando ingressou na iniciativa como bolsista. Foto: Acervo pessoal

Entre os 185 municípios de Pernambuco, Ibimirim está no 124º lugar em tratamento de esgoto (33,6% dos domicílios com esgoto sanitário adequado), mas sobe para a 63ª quando se trata de arborização. Os adolescentes da cidade sabem a importância desse resultado, e se esforçam para melhorá-lo a cada dia.

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