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Rumo à autonomia

Aprendizados do Centro Social Carisma, na periferia de Osasco, em busca de sustentabilidade para a própria organização e para seu público


Isabela Santana, que teve seu primeiro contato com literatura, dança e teatro ao frequentar o Carisma: aplausos da família à sua performance na percussão, em foto de 2019. Foto: Centro Social Carisma/Divulgação

Por Julia Fabri, Rede Galápagos, São Paulo

O município de Osasco, na região metropolitana de São Paulo, ocupa a sexta posição no ranking dos maiores PIBs (Produto Interno Bruto) do país, de acordo com IBGE. Apesar do número impressionante, o desenvolvimento não abraçou toda a população. O mapeamento da Secretaria de Planejamento e Gestão da cidade indica que a região norte e o bairro Padroeira concentram uma população pobre, formada majoritariamente por pessoas negras, com rendimento familiar per capita inferior a meio salário mínimo. “Em alguns locais, víamos muitas crianças e adolescentes fora da escola. Percebemos que era preciso investir não em ações pontuais, que trazem resultados momentâneos, mas em iniciativas que mudassem de verdade a realidade daqueles jovens desassistidos”, diz Celina Prado. Ela é gestora do Centro Social Carisma, instituição que oferece atividades socioeducativas a 350 pessoas nos bairros Quitaúna e São Pedro, além do Padroeira.

O Centro Social Carisma foi idealizado em 2003 por amigos e voluntários que frequentavam uma igreja em Osasco e acreditavam na responsabilidade social das organizações religiosas. Com os anos, as atividades ganharam proporções muito maiores. “Quando cheguei ao Carisma, em 2007, cerca de 70% dos nossos recursos vinham da igreja. Hoje, pequenas e grandes empresas nos apoiam e em 2018 nos tornamos sustentáveis financeiramente. Alcançamos estabilidade”, conta Celina. A trajetória da gestora frente à instituição começou quase por acaso. De origem humilde, ela se formou em letras em 2005, se tornou professora e, paralelamente, passou a atuar como voluntária em escolas públicas, dando aulas em cursos pré-vestibular. “Fui entendendo como funciona a captação de recursos para projetos sociais e, quando conheci o Carisma, comecei a atuar no projeto como voluntária também”. Não demorou muito para ser convidada a integrar o quadro de colaboradores do projeto como coordenadora pedagógica. 

Educação, sustentabilidade, vínculo e renda
O Centro Social Carisma é uma organização da sociedade civil (OSC) que divide as atividades em quatro nichos. Nas ações de educação integral, crianças de 8 a 14 anos têm aulas de música, esporte, alfabetização e culturas digitais. Na frente de sustentabilidade, promovem educação ambiental. Há ainda as atividades de fortalecimento comunitário e o núcleo de trabalho e renda, que promove formações e encaminha jovens em busca de emprego. “Na região, muitas casas são chefiadas por mulheres que não completaram o ensino médio e trabalham esporadicamente como domésticas. No projeto Oficina do Bem, compramos tecidos ou, na maioria das vezes, reaproveitamos matéria-prima que recebemos de grandes empresas, como uniformes usados. Nossas beneficiárias costuram e produzem máscaras, doleiras, bolsinhas e outras peças para vender nas próprias empresas que fornecem os tecidos”, explica Celina. O valor arrecadado com as vendas é dividido meio a meio entre as beneficiárias e o Centro Social.

Oficina do Bem: moda engajada
Uma grande empresa varejista de moda também doa roupas para o Carisma. As peças são vendidas a preços acessíveis em bazares organizados por voluntários. “Sempre vendemos muito! Cem por cento do lucro é revertido para o Centro Social, para mantermos os projetos”, explica Celina. Em 2016 foi possível reformar a cozinha, a sala de música e a quadra. “Antes da pandemia, nossos bazares aconteciam de terça a sexta e em um sábado por mês, quando recebíamos cerca de mil clientes. Durante a quarentena, fizemos um bazar virtual pelas redes sociais e pelo WhatsApp e passamos a atender até outros estados. Agora, tomando todos os cuidados, retomamos as vendas presenciais, ampliamos para dois sábados por mês e decidimos manter as vendas virtuais. Nos tornamos mais digitais”. O objetivo é transformar a Oficina do Bem em uma marca própria da OSC.

Horta hidropônica em canos de PVC
O projeto de horta hidropônica, do nicho de educação ambiental, foi premiado e contemplado por um financiamento. Os beneficiários só precisam ter em casa um espaço de 1,5m com incidência de luz solar.  Eles recebem treinamento e um kit com tubos de PVC para cultivar hortaliças para consumo próprio ou vender na feira orgânica promovida aos finais de semana pelo Carisma. O dinheiro arrecadado com as vendas é do produtor. Com a pandemia, as formações presenciais foram interrompidas em março. “Adaptamos tudo. Agora, as reuniões de pais também são on-line. Fizemos uma campanha de arrecadação de notebooks e celulares e doamos a quem não tinha. Os violinos, por exemplo, foram para a casa dos jovens, afinal, é tudo deles”, diz Celina. Quando necessário, os professores marcam horários individuais com o aluno. “Agimos rapidamente. Criamos um blog informativo, entregamos kits de higiene, cestas básicas e ligamos para cada família explicando os riscos da pandemia. Não sabemos quando a situação voltará ao normal, mas acredito que amanhã pode ser melhor que hoje”.

Celina Prado, gestora do Centro Social Carisma: “Saber que o que fazemos melhora a vida das pessoas é o que nos faz seguir em frente”. Foto: Centro Social Carisma/Divulgação

Gestão e projetos pós-pandemia
Todos os educadores da OSC são colaboradores fixos. Além dos 16 funcionários, há mais de 80 voluntários parceiros que apoiam ações pontuais. Para a gestão de uma equipe tão grande e tantos projetos, o apoio do programa Missão em Foco, do Itaú Social, faz a diferença. “Antes do monitoramento, não sabíamos como comunicar as ações que desenvolvemos. Hoje, nossos processos se tornaram mais eficientes”, avalia Celina. “O Itaú Social nos orienta com formação, mas nos dá liberdade e flexibilidade para conduzir as ações”. A gestora já planeja futuras iniciativas: investir em uma plataforma on-line para aprimorar o gerenciamento dos recursos financeiros do Centro Social e,  para quando for possível retomar os encontros presenciais, criar uma horta hidropônica comunitária e ampliar as ações da Oficina do Bem. “Queremos oferecer formações a mulheres para que se tornem empreendedoras da moda”.

“Quero inspirar outros jovens, como o Carisma me inspirou”, diz Isabela Santana, 18 anos. “Não há como uma pessoa entrar aqui e sair a mesma”. Foi na OSC que Isabela descobriu seu interesse por literatura e leu um livro pela primeira vez. “Adorei O Pequeno Príncipe. Também lembro da minha apresentação tocando percussão. Foi emocionante, meus pais e meu irmão estavam lá. Era tudo novo para mim: arte, dança, teatro. Fiz amizades, aprendi muito e me tornei mais confiante e responsável”, diz. Graças ao Carisma, Isabela conseguiu emprego em uma empresa, mas com a crise provocada pela pandemia foi demitida. Hoje, ela trabalha na OSC e quer ingressar na faculdade de pedagogia para trabalhar com educação infantil. E é justamente a perspectiva de jovens como Isabela que motiva Celina a continuar. “A educação mudou a minha vida, e devo isso à sociedade. Quero retribuir de alguma forma, e creio que estou conseguindo”.

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