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Dez perguntas para

Quilombismo literário na educação básica

Em uma escola pública de Fortaleza, discussões promovidas por grupo de leitura de livros escritos por mulheres negras impactaram estudantes do ensino médio


Dez perguntas para
Nayane Larissa Vieira Pinheiro
Graduada em letras pela Universidade Estadual do Ceará e mestranda na Universidade Estadual do Piauí, onde estuda literatura e cultura. Professora de língua portuguesa para os ensinos fundamental e médio, na Escola Mário Hugo Cidrack do Vale, em Fortaleza. Autora de artigo selecionado pelo Edital Equidade Racial na Educação Básica.

Nayane Pinheiro promoveu, com seus alunos, rodas de debate sobre livros de autoras negras: “Eu foco na questão da mulher porque entendo que essa é uma dupla marginalização. De gênero e de raça”. Foto: Arquivo pessoal

Por Ana Roberta Amorim, Rede Galápagos, Recife

O quilombismo, conceito apresentado pelo professor Abdias do Nascimento em livro homônimo, tem como base as lutas por sobrevivência protagonizadas por pessoas negras escravizadas no Brasil. Em artigo publicado na revista científica Problemata, a doutora em filosofia Aline do Carmo resume: “O quilombismo possibilita a identificação e desenvolvimento de práticas pedagógicas calcadas em saberes ancestrais de matriz africana que tenham como intuito o fortalecimento desse tipo de humanidade expresso nos quilombos”. A ideia inspirou a pesquisadora e professora Nayane Pinheiro a promover encontros literários com alunos do segundo ano do ensino médio da escola Mário Hugo Cidrack do Vale, na capital cearense. A proposta era ler e debater obras escritas por mulheres negras. 

O livro Mornas eram as noites, da escritora cabo-verdiana Dina Salústio, foi a base do trabalho de conclusão de curso da professora, ao fim de sua graduação em letras. As histórias contadas na obra também foram tema de conversas entre Nayane e seus alunos, em atividade que serviu para que ela percebesse o interesse dos adolescentes em histórias que não estavam acostumados a ver nos livros paradidáticos de literatura. “Ainda em 2019, expliquei a algumas alunas a proposta de lermos literatura de autoria feminina, de mulheres negras. Esse livro traz contos curtos com diversas temáticas, como aborto e violência doméstica, mas não de forma comum. A autora tem um modo de escrita genial e os alunos gostaram muito”, relembra a docente. 

No artigo “O quilombismo na literatura africana e afro-brasileira: Uma perspectiva identitária na educação escolar”, aprovado no Edital Equidade Racial na Educação Básica, do Itaú Social, Nayane Vieira esmiúça o desenvolvimento do que veio a se tornar o grupo literário Enegrecer. O coletivo, que tinha encontros ao ar livre, no pátio da escola, era composto majoritariamente de alunos pretos e pardos. Além de estimular o interesse pela leitura nos discentes, a atividade tinha a proposta de fomentar o debate de pautas sociais. O Edital Equidade Racial na Educação Básica buscou a mobilização e articulação de escolas, redes de ensino, coletivos, centros de pesquisa e organizações da sociedade civil para viabilizar e fortalecer estratégias de enfrentamento das desigualdades raciais na educação. A iniciativa do Itaú Social contou com a realização do Ceert (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades) e a parceria do Instituto Unibanco, da Fundação Tide Setubal e do UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância). A publicação digital que reúne todos os projetos selecionados pode ser acessada neste link. Leia a seguir a conversa com a professora e pesquisadora sobre literatura, racismo e a sua experiência com o grupo de leitura na escola em que trabalha.

NNotícias da Educação — O que você buscava com a criação do grupo Enegrecer e, depois, com a produção do artigo?

NNayane Pinheiro No artigo, a proposta era trazer para a pesquisa acadêmica a experiência que tive na escola em que ensino, mas numa perspectiva afrocentrada e antirracista. Foi uma experiência que surgiu a partir de leituras na escola com alguns estudantes, em sua maioria mulheres. Estava produzindo a minha monografia e trabalhando com uma obra chamada Mornas eram as noites, de Dina Salústio, um livro de contos bem conhecido aqui no Brasil, mas que ainda não é abordado em todos os cursos de graduação. Não há literaturas africanas em todas as graduações em letras. Quando há, geralmente são a literatura moçambicana e a angolana. Dificilmente é a cabo-verdiana ou de São Tomé e Príncipe, por exemplo. Eu comentava com os alunos sobre essa pesquisa porque ela me interessava e eu gostava muito da leitura. Comecei a levar contos para a sala de aula, até que eles questionaram por que não tínhamos esses contos nos livros didáticos. Pensei, então, na ideia de montar um grupo de estudos de literatura africana, que ganhou o nome Enegrecer.

NNo início, de que modo se davam os encontros do grupo literário?

NComeçamos a nos reunir uma vez a cada quinze dias para debater o texto. A partir daí, passamos a ter um contato diário muito fluido. Inicialmente, eu propunha o debate, elaborava as perguntas e selecionava os textos. Depois, juntos, olhávamos as obras e conhecíamos algumas autoras. Todos escolhíamos quem ficaria responsável por cada texto. Os estudantes formavam duplas ou trios e elaboravam perguntas para a discussão. No dia marcado, nós nos encontrávamos para discutir os textos.

“Os estudantes precisam se ver como potenciais produtores de conhecimento, e isso tem que ser incentivado nas escolas.”

NNo grupo, havia apenas uma aluna participante que se identificava como branca. Como você observou o comportamento dela em relação aos demais estudantes?

NEla já se interessava muito por literatura e passou a frequentar os encontros por isso. Ouvia os colegas e nunca tomava a frente quando os assuntos eram as vivências relacionadas ao racismo. É uma aluna periférica, que mora na comunidade e tem respeito pelas vivências, nunca se colocando como uma pessoa negra. Estava ali aprendendo e sabia se posicionar nesse sentido. Achei muito interessante.
A maioria dos meus alunos são negros porque a escola em que eu trabalho é periférica. Mesmo os brancos passam pela opressão de classe. Os estudantes que mais se aproximavam do nosso grupo eram os negros — principalmente as meninas negras — e os LGBTs. Uma das autoras com quem trabalhamos, Cidinha da Silva, é LGBT, e isso tem uma grande representatividade. Conceição Evaristo, apesar de não ser, também aborda essa temática. As discussões com protagonistas negros, negras e LGBTs atraíam muito.

NNo artigo, você cita a pedagogia da autonomia, que é a “experiência de ler a realidade sem ler as palavras para entender as palavras”. Quando entravam em contato com a literatura negra, que reação os alunos tinham? Como se dava a relação entre o que eles estavam lendo e o que eles vivem cotidianamente?

NQuando elaboramos o cronograma, apareceram temas como término de relacionamento na adolescência, racismo e feminismo. Por se tratar de temáticas que fazem parte do cotidiano deles, sempre debatiam muito bem e acabavam compartilhando suas próprias histórias. Funcionava também como motivação para que exercitassem a escrita. Uma das intenções do projeto era que os alunos se enxergassem enquanto produtores de conhecimento. Sabemos que as produções de pessoas negras são apagadas da nossa história. Os estudantes precisam se ver como potenciais produtores, e isso tem que ser incentivado nas escolas. Não vemos fotos de escritores negros na sala de aula. Maria Firmina dos Reis, a primeira romancista abolicionista, é uma escritora do Maranhão. Num seminário que passei, pude perceber o interesse deles em relação à autora. Isso me assegurou ainda mais que o grupo daria certo. Lemos um trecho do livro Úrsula, que traz personagens negros falando, pensando e refletindo no período escravocrata do Brasil. Os alunos gostam muito da Maria Firmina, mesmo sendo uma literatura da época do romantismo, cuja linguagem não faz parte da realidade deles.

NVocê utilizou o conceito do quilombismo, em referência à resistência inerente ao ato de se reunir para falar sobre livros escritos por mulheres negras. Como essa relação apareceu nos encontros do grupo literário Enegrecer?

N O compartilhamento dos alunos era interessantíssimo porque nos fortificava enquanto grupo, e essa era uma das propostas. A vivência com a literatura não se dava apenas no sentido da leitura do texto, mas também estava em colocar as próprias experiências e escutar as dos colegas. Essa troca me remeteu à ideia do quilombismo. Trata-se justamente da fortificação de um grupo. São princípios antirracistas, quilombistas, fazendo parte do nosso meio social e, então, das nossas escolas. Abdias do Nascimento, grande teórico do quilombismo, trouxe a questão do epistemicídio, do apagamento da literatura negra e da intelectualidade de pessoas negras. Para mim, tinha tudo a ver com o grupo, porque não havia apenas a questão de estar consumindo literatura, mas de estar lendo aquela que, além de não ser lida nas salas de aula, nos aproximava e fortificava enquanto grupo.

NO que eram os diários de campo que os alunos escreviam após os encontros?

NDefiníamos previamente os debatedores de cada texto. Eles tinham a missão de anotar as suas impressões do encontro, relatar quantas pessoas estiveram presentes e como se desenvolveu o debate. Além disso, cada um deles registrava se algo havia chamado a sua atenção, o que os outros colegas falaram e a qual conclusão chegou a partir do texto e da discussão. Criamos um grupo no WhatsApp para que eles compartilhassem essas impressões. Era um diário digital, a partir das mensagens. O grupo existe até hoje. Alguns deles estão prestando vestibular e eu gosto de estar presente. Criamos um vínculo. As turmas vão passando e nós continuamos, sentindo falta… Eu me arrependo de não ter feito um caderno, escrito a mão mesmo, para ter o registro da caligrafia deles.

“Por que Abdias do Nascimento não está nos livros de história? Por que os alunos não conhecem seu nome?”

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NNa sua opinião, a que se deve o baixo acesso de estudantes, de escolas públicas e privadas, à literatura negra?

NSempre falo com os alunos sobre a importância de terem contato com as literaturas africanas de língua portuguesa. Por que ainda não estão presentes nos livros didáticos? Não responsabilizo exatamente o professor porque o problema vem desde a formação acadêmica. Em meu curso de letras, por exemplo, não tive a disciplina de literaturas africanas nem contato algum com as afro-brasileiras. O mesmo no mestrado. Então, o professor também sofre com a falta de acesso. A junção de diversas problemáticas culmina nesse apagamento. Eu foco na questão da mulher porque entendo que essa é uma dupla marginalização. De gênero e de raça. Os autores canonizados não estão nesse lugar apenas graças à qualidade do texto, mas por causa dessas outras questões. Em sua maioria, são homens brancos. Os livros didáticos ainda prezam pelo cânone. Eles são o nosso maior apoio em sala de aula, ainda mais numa escola pública, onde dificilmente há projetores ou sala de informática. A escola onde eu trabalho tem uma realidade precarizada. Por tudo isso, é preciso que haja uma reformulação na base literária. Mas não acho que esse seja um problema exclusivo da literatura. Na matemática, há o apagamento das mulheres, principalmente das negras. A história, por sua vez, praticamente ignora toda a sistematização do Quilombo dos Palmares, algo que deveria ser abordado constantemente, mas só é lembrado no Dia da Consciência Negra. Por que um autor como Abdias do Nascimento não está nos livros de história? Por que os alunos não conhecem seu nome? Citamos filósofos, teóricos, várias questões históricas eurocêntricas ou vinculadas aos Estados Unidos, mas Abdias, figura importante que faria toda a diferença para o conhecimento dos alunos, não é citado de forma nenhuma em sala de aula. É necessária uma reformulação para trazer os produtores de conhecimento negros e negras.

NComo você se reconhece e se identifica racialmente?

NTenho plena ciência de que não sou uma mulher branca porque cresci com a minha irmã, branca e loira. Puxei ao meu pai, homem negro, e ela à minha mãe, mulher branca. As pessoas se surpreendiam quando sabiam que somos irmãs. Sofri diversas situações de racismo dentro da universidade. Já fui abordada como uma assaltante por um policial que achou que eu havia roubado um amigo branco. Adotei um filho branco e já passei por algumas situações em que as pessoas acharam que eu era a cuidadora dele. Sei que sou uma pessoa negra de pele clara, mas isso não me faz branca. Em alguns ambientes, as pessoas reconhecem que não sou. Em outros, dizem que não sou negra. É um “não lugar”. O colorismo precisa ser discutido no Brasil. Geralmente, pessoas brancas enxergam com facilidade quem é negro porque têm a mesma facilidade para ser racistas. Desde que comecei a ler sobre raça, não tenho como me dizer parda porque discordo desse termo. Considero uma anulação da própria imagem, uma estratégia social para embranquecer a sociedade.

NA escuta dos relatos dos alunos tocou você pessoalmente?

NEssa questão do colorismo surgiu nos encontros. Havia um aluno negro de cabelo crespo e olhos verdes. Muita gente dizia que ele não era negro. Outros, antes de chegar ao grupo, não se reconheciam enquanto pessoas negras ou se diziam pardos. Debatemos sobre o apagamento e, no final dos encontros, muitos deles passaram a afirmar que são pessoas negras. Quando era uma questão relacionada ao cabelo, eu não me colocava porque sei que não posso falar sobre isso, já que não tenho cabelos crespos. Aproveitei para explicar as interseccionalidades e a existência de diferentes tipos de opressão sobre uma mesma pessoa. O aluno dos olhos verdes usava um corte que valorizava o seu cabelo crespo. Um dia, ele chegou com o cabelo alisado. Fiquei muito surpresa. Ele disse que sua mãe o tinha feito alisar o cabelo quimicamente. Ela alegava que ele usava um “cabelo de malandro” e lhe perguntava se queria ser preso ou confundido. Algumas alunas, depois dos encontros, faziam tranças nos cabelos, mas chegavam em casa e as mães também não gostavam. São questões dolorosas. As vivências apresentadas por eles quase sempre eram uma mistura de racismo e LGBTfobia, e eu me enxergava muito dentro delas. Nessa questão do cabelo, eu não me colocava, como disse. Já nas outras, eu sempre me posicionei porque foram vivências minhas também.

NComo é a relação dos estudantes com a literatura que é apresentada na escola?

NSei a importância de os alunos lerem o cânone. Vivemos escutando isso no curso de letras. Mas ler a literatura negra é tão importante quanto. Diversas obras não estão nos clássicos por exclusão de gênero e de raça. São importantes para que os alunos deparem com suas vivências na literatura, uma forma também de se identificar e se sensibilizar. Eles passam toda a trajetória escolar vendo diversos autores e personagens que não se parecem com eles. Depois de um tempo, comecei a perceber que eles criavam fôlego para discutir pautas relacionadas à própria escola. Durante a Semana da Consciência Negra, por exemplo, intervinham e falavam coisas como “você não pode fazer isso porque está sendo racista” ou “você não está valorizando a cultura”. Certa vez, um deles deparou com o livro Negrinha, de Monteiro Lobato. Não precisei dizer que aquele texto era racista. Eles tiveram contato com a obra e apontaram isso sem eu nunca ter debatido com eles o fato de Monteiro Lobato ser um exemplo de escritor reconhecidamente racista. Às vezes, eu até precisava pedir que fossem com calma, explicando que nem todos os colegas têm a oportunidade de refletir sobre esses temas, como fazíamos. Perceber esse engajamento me trouxe ainda mais convicção para pensar essa proposta dentro da ideia do quilombismo.