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Dez perguntas para

Protagonismo e colaboração

Em meio a discussões sobre a BNCC na rede municipal de Canoas, RS, um percurso formativo estimula o trabalho colaborativo e valoriza os saberes dos docentes


Dez perguntas para
Rejane Reckziegel Ledur
Doutora em educação, professora aposentada da rede municipal de Canoas (RS), onde coordenou o projeto de formação continuada Saberes em Diálogo e a pesquisa colaborativa Cartografias de Implementação do Referencial Curricular nos Anos Finais do Ensino Fundamental

A professora Rejane Reckziegel Ledur, 32 anos trabalhando na rede municipal de Canoas (RS), a maioria deles com formação continuada de professores: “Nas formações e nos encontros do Cartografias, nunca tivemos uma adesão tão grande como nas lives durante a pandemia.“ Foto: Arquivo pessoal

Por Maggi Krause, rede Galápagos, São Paulo

Já nos acostumamos a ouvir que a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) defende a necessidade de colocar os estudantes no centro do processo de aprendizagem. No caso dos professores não é diferente: eles deveriam ser protagonistas de seu próprio processo formativo. Efetivar essa nova visão nas formações continuadas, contudo, ainda é uma prática rara e pouco difundida no cenário educacional brasileiro. Partindo da premissa de colocar os sujeitos envolvidos na centralidade desse processo, o Projeto Saberes em Diálogo mudou a lógica convencional da formação continuada de professores. Desenvolvido pela Secretaria Municipal da Educação de Canoas (RS) em parceria com o Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade La Salle, entre 2017 e 2020, a iniciativa consolidou princípios como o protagonismo docente, a horizontalidade, o trabalho colaborativo, a formação entre os pares, o registro e visibilidade da prática docente e o pertencimento. 

“Os encontros de formação são extremamente importantes quando se busca implementar um referencial curricular, e nossa rede foi se organizando de forma colaborativa, com professores se encontrando em grupos de Meet, WhatsApp e salas virtuais. Trabalhar com os pares foi contagiante e fortaleceu o trabalho coletivo”, conta a coordenadora do projeto, Rejane Reckziegel Ledur, responsável pelo departamento de formação continuada da Secretaria Municipal de Educação de Canoas até o início de 2021. Rejane é doutora em educação pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e gestou o Saberes em Diálogo em conjunto com Juliana Aquino Machado, mestra em educação e professora da rede municipal de Canoas, e Gilberto Ferreira da Silva, doutor em educação e professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade La Salle.

O trio traçou a estratégia formativa que orientou o percurso de implementação da BNCC e a construção do Referencial Curricular de Canoas (RCC), problematizada na pesquisa colaborativa Cartografias da Implementação do Referencial Curricular de Canoas no Ensino Fundamental. Com supervisão da pedagoga Ani Martins da Silva, a pesquisa foi realizada junto do Projeto Saberes em Diálogo e submetida ao edital Anos Finais do Ensino Fundamental: Adolescências, Qualidade e Equidade da Escola Pública, gerando a Coleção Saberes em Diálogo com três volumes.

Os benefícios do diálogo e das relações horizontais entre os sujeitos foram sentidos em cada etapa do trabalho: na troca de informações entre os espaços acadêmicos e escolares, na discussão entre os docentes para construir o RCC e nas narrativas de implementação do documento nas práticas de sala de aula. “Juntar representantes de todas as áreas, dar voz, escutar o outro, respeitar cada conhecimento e dar visibilidade às práticas fez parte do projeto”, diz Rejane, hoje professora aposentada da rede. “Fico feliz por ter finalizado minha colaboração na rede com um trabalho tão significativo. O apoio do Itaú Social foi decisivo para podermos sistematizar o material e deixar como um legado para a rede de Canoas.” Na entrevista a seguir, ela nos conta o processo colaborativo que fortaleceu os profissionais em parceria com a Secretaria de Educação e a universidade nessa intensa troca de saberes.

O grupo de educadores que participaram da pesquisa Cartografias, em foto de 2019 publicada no segundo volume da série Saberes em Diálogo: 43 professores de várias áreas se envolveram na formação e sistematização do percurso para a implementação do Referencial Curricular nos Anos Finais do Ensino Fundamental. Foto: Arquivo pessoal

NNotícias da Educação — O Projeto Saberes em Diálogo tem sido destacado em publicações na área da educação como uma experiência inovadora no campo da formação continuada de professores no Brasil. Qual foi a principal inovação que vocês buscaram?

RRejane — No modelo convencional há uma hierarquia entre quem define a temática e o grupo que recebe a formação, com participação mais passiva no processo. Os “iluminados” são os profissionais que detêm conhecimento acadêmico ou professores de renome. Já os docentes da educação básica costumam fornecer dados para estudos e pesquisas acadêmicas, mas é raro terem acesso aos resultados depois, e não são ouvidos na construção de políticas públicas de formação continuada. Por esse motivo, elas nem sempre atendem as suas necessidades. Quando propusemos o movimento formativo Saberes em Diálogo, buscamos colocar a universidade, as escolas e a Secretaria de Educação em relações horizontais, respeitando os saberes de cada lugar e de cada pessoa envolvida. E isso foi inovador. Engajamos os professores na construção da formação continuada e queríamos que eles não deixassem de produzir pesquisas acadêmicas para dar conta do dia a dia na sala de aula. Desse modo, o Saberes em Diálogo apostou no professor como detentor de conhecimento e considerou os saberes que emergem da prática do cotidiano escolar.

NComo vocês orientaram o projeto a partir do perfil dos professores?

RTudo começou quando fomos fazer uma escuta atenta em uma escola de um bairro da periferia, em 2017, e descobrimos uma professora de inglês com doutorado sanduíche, outra fazendo mestrado… Depois, um levantamento identificou que mais de 51% dos professores da rede eram pós-graduados! Salários melhores, divulgados nos concursos de 2014 e 2016, atraíram profissionais especialistas, mestres e doutores. Entendemos que seria interessante ouvir esses professores e estar em diálogo com a universidade. Iniciamos com um seminário e a Universidade La Salle ofereceu parceria, disponibilizando espaços e ajudando a construir o projeto. Na primeira mesa participaram professores doutores da rede, da universidade e convidados externos dialogando sobre a temática da pesquisa. Então abrimos um edital para que submetessem projetos, para que os professores voltassem a ser pesquisadores, mas agora da sua realidade. A adesão foi voluntária e aconteceu num crescendo. Tanto que no primeiro ano tivemos 46 trabalhos apresentados no seminário; no segundo já eram mais de 90. 

  • A pesquisa, realizada com apoio do Itaú Social e da Fundação Carlos Chagas, teve como objetivo sistematizar o projeto de formação Saberes em Diálogo, resultando em uma publicação com três volumes. Acesse os livros pelos links do Saiba mais, ao final desta entrevista. Fotos: Reprodução 

NComo decidiram submeter o projeto de formação continuada de Canoas ao Edital de Pesquisa Anos Finais do Ensino Fundamental: Adolescências, Qualidade e Equidade da Escola Pública?

REm 2018 fizemos o percurso formativo da BNCC na rede e ao final do ano, durante a reunião do Saberes em Diálogo, concluímos que as discussões sobre o tema nos anos finais tinham sido potentes. Vimos que poderíamos sistematizar esse percurso e resolvemos inscrever o Cartografias como uma pesquisa inserida no Saberes em Diálogo na modalidade rede de ensino. Com o apoio do Itaú Social foi possível desenvolver o projeto e também elaborar as publicações. Coordenei o trabalho, que foi feito com a Juliana e o Gilberto. Os registros mostram as trocas entre os profissionais da rede, em grupos articulados a partir de temáticas. No Cartografias, juntamos professores dos anos finais com pedagogas dos iniciais, unindo os níveis de ensino nas discussões… Isso foi uma demanda dos próprios professores. Em ciências, por exemplo, em que as mudanças de organização de conteúdos foram marcantes na BNCC, muito do que estava previsto nos anos finais foi para os iniciais. Então não dava para discutir sem que as duas etapas dialogassem.

“O movimento deu visibilidade a um discurso positivo de educação, pois professores comprometidos, valorizados e que acreditam na transformação contagiam seus pares.”

NComo vocês conciliaram a construção e implementação do Referencial Curricular de Canoas (RCC) com a própria formação continuada?

REm 2018, envolvemos as equipes diretivas para falar da importância da BNCC em um percurso coordenado pela Juliana, e eu senti a responsabilidade de discutir com os professores — ao todo são 2 mil docentes na rede municipal de Canoas. Como sou formada em arte, inspirada na lógica do Saberes em Diálogo, entendi que precisava trazer alguém de referência de cada área comigo. Convidei professores para se tornarem coordenadores da discussão de sua área, e a pessoa não só aceitava como se sentia valorizada e tinha a vantagem de ser alguém que atuava na rede e conhecia sua realidade. Organizamos a formação em três encontros, o primeiro sobre o conhecimento da Base, o segundo detalhando as competências e o terceiro de organização, em que houve uma síntese e apresentação da área. O referencial curricular foi lançado em março de 2019, resultado desse trabalho coletivo. É claro que o processo de implementação do RCC continua. O modo de discutir do Saberes em Diálogo e os princípios do projeto nortearam algumas das ações de formação empreendidas pelas escolas, que replicaram, em especial, esse olhar para o professor como protagonista.

NQuais foram os ganhos das discussões realizadas nos encontros?

RO principal foi ter um processo formativo protagonizado pelos professores da rede. Entendo que as estratégias que utilizamos talvez não sejam viáveis para ser replicadas em outras redes, pois implicam ter professores comprometidos. Mas tudo partiu desse olhar para a nossa realidade, de ver que tínhamos potencial e podíamos contar com ele. O professor Gilberto destaca muito essa escuta implicada e interessada da secretaria para a rede, que aproveitou a construção de documentos curriculares para organizar um trabalho colaborativo. Os princípios que emergiram do projeto, como o protagonismo e a valorização de saberes dos professores (veja abaixo), podem ser replicados em qualquer rede. O movimento deu visibilidade a um discurso positivo de educação, pois professores comprometidos, valorizados e que acreditam na transformação contagiam seus pares, além de servirem de exemplo.

Passos do caminho

Recomendações e princípios enfatizados no movimento formativo para equipes pedagógicas dos Anos Finais do Ensino Fundamental, levantados durante a pesquisa Cartografias

  • O protagonismo docente como potencialidade no processo de discussão e construção dos documentos curriculares pelos professores que atuam na escola.
  • A eficácia da estrutura e metodologia da pesquisa colaborativa a serviço da rede. Atenção à  importância da criação de comunidades colaborativas de aprendizagem para dar conta de demandas formativas, fortalecendo o coletivo, que imagina, cria e constrói ações.
  • A construção coletiva entre os anos iniciais e os finais nas discussões e planejamentos curriculares.
  • A interdisciplinaridade como princípio na estruturação dos programas de formação continuada de professores.
  • Professores e estudantes elevados à centralidade do processo educativo, portanto ativos e participantes. Questionamento sobre quem é o estudante com quem atuamos e para quem e com quem construímos intervenções didático-pedagógicas.
  • A continuidade do processo de implementação do RCC/BNCC nas escolas por meio de um trabalho colaborativo entre equipes diretivas, professores e estudantes.
  • A necessidade de ter professores especialistas atuando em cada componente curricular dos anos finais para a efetiva implementação da BNCC nas escolas e a qualificação do ensino nos anos finais do ensino fundamental.

NComo o conceito de cartografia explica o que aconteceu com a formação continuada em paralelo com a construção do RCC?

RO professor Roberto Sidnei Macedo, da Universidade Federal da Bahia, fala da cartografia como acontecimento e experiência. Cartografar é caminhar em busca de encontro com saberes que se aproximam. É buscar entender diferenças e heterogeneidades. Tivemos a oportunidade de participar de um evento na Bahia, estivemos com o professor, nós o convidamos para vir a Canoas e ele logo aceitou. Acabou participando do último seminário dos Saberes já na pandemia, via live. Antes organizamos momentos de troca com pessoas de fora, como Marli André e Bernardete Gatti, especialistas na área de formação, e Cristiano Alcântara, da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. Na mesma ideia de horizontalidade, eles nos escutaram e contribuíram, o que reforçou essa questão de troca de saberes do projeto. 

NQuais foram os maiores desafios nesse trabalho com o grupo de professores constituído pelo projeto Saberes em Diálogo?

RComo gestores da SME, o grande desafio foi formar um grupo de professores voluntários comprometidos a discutir e estar junto nesse trabalho de construção do RCC. Passou 2018 e percebi a falta de registro de discussões importantes, e então no Cartografias colocamos dois professores formadores em cada área e dois professores só para registrar e sistematizar as discussões. Foram 43 profissionais ao todo. Conseguimos resgatar a memória formativa de 2018 e, em 2019, sistematizar de acordo com os objetivos da pesquisa… Em geral, qualquer rede de ensino que pense em investir em pesquisa docente precisa reservar um horário semanal para que o professor possa se dedicar — pois ele precisa ter tempo para pesquisar, escrever, sistematizar, isso além da rotina de sala de aula.

“A universidade, quando está em diálogo com a rede, sabe do contexto das escolas e consegue qualificar o trabalho de futuros professores. Ao mesmo tempo, se aproxima de professores que podem ser seus futuros estudantes.”

NPoderia citar exemplos de protagonismo docente?

RPara mim um exemplo bem concreto do protagonismo docente na rede foi na situação da pandemia. Como estávamos em um grupo, eles nos ajudaram a pensar o lugar da escola e indicar possibilidades. E se organizaram em colaboração, para ajudar os colegas a trabalhar o ensino remoto, participando da construção do processo formativo que depois foi conduzido pelos técnicos da secretaria nas escolas. A tecnologia acabou ajudando, pois havia professores disponíveis e outros necessitando da formação, uns auxiliando os outros. Nessas formações e nos encontros do Cartografias, nunca tivemos uma adesão tão grande como nas lives durante a pandemia. 

As professoras Juliana e Rejane, atuantes na Secretaria Municipal de Educação de Canoas (RS), e o professor Gilberto, da Universidade La Salle, em Salvador (BA), durante o Seminário Nacional de Formação de Professores, em 2019: reunindo conhecimento das escolas e da academia para desenvolver o Projeto Saberes em Diálogo. Foto: Arquivo pessoal

NQuais foram as principais vantagens desse processo colaborativo que uniu pesquisa e formação continuada?

REntre os maiores ganhos estão a colaboração efetiva e o vínculo entre escola e universidade, pois elas se retroalimentam, ganham muito nessa parceria. A universidade, quando está em diálogo com a rede, sabe do contexto das escolas e consegue qualificar o trabalho de futuros professores. Ao mesmo tempo, se aproxima de professores que podem ser seus futuros estudantes.  Os professores da rede iam à universidade para discutir em grupos de estudos, fora do horário escolar, e é muito relevante para o professor estar nesse espaço acadêmico. Outras secretarias municipais de Educação que tomarem o material do Saberes em Diálogo como referência vão encontrar ali os relatos de um modelo bem-sucedido de formação continuada. O projeto pode repercutir em instâncias que discutem suas propostas curriculares incluindo o professor e ressalta bastante o fato de o professor ser protagonista também na construção de políticas públicas. Quando há representatividade docente nas discussões, o conhecimento de quem está na sala de aula se soma às contribuições teóricas. 

“Os profissionais dos anos finais precisam desse apoio e de escuta e quando acontece esse respeito a cada componente e conhecimento, dando visibilidade para o que está sendo feito na escola, o trabalho colaborativo só tende a crescer.”

NComo as discussões em torno do RCC podem contribuir para a melhoria do ensino e da aprendizagem nos anos finais do ensino fundamental?

RNo segundo movimento formativo, que ocorreu em 2020, rediscutimos o RCC e o grupo de professores do Saberes em Diálogo apontou que a formação para a BNCC deveria ser feita de forma interdisciplinar e com os diferentes níveis em diálogo. 
Para dar conta do tema, seria preciso criar uma dinâmica formativa com professores de áreas distintas e com a participação dos docentes dos anos iniciais. Mas o mais marcante do projeto Cartografias é que as questões significativas foram levantadas por cada área e sistematizadas e originaram um documento escrito, deixando um legado para a formação continuada de Canoas. Entre as principais demandas, a necessidade de ter professores especialistas para assumir componentes como geografia, artes e ensino religioso e o uso de tecnologia para a aprendizagem. Participei das discussões de cada área, identifiquei sugestões interessantes em cada uma, que merecem um olhar atento da SME, que só assim pode prover a estrutura adequada para que o ensino avance. Os profissionais dos anos finais precisam desse apoio e de escuta, e quando acontece esse respeito a cada componente e conhecimento, dando visibilidade para o que está sendo feito na escola, o trabalho colaborativo só tende a crescer.

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