Ir para o conteúdo Ir para o menu Ir para a Busca
Polo de desenvolvimento educacional
Notícias Parceiros na educação

Muito além dos becos e vielas

Com foco em empreendedorismo de base favelada, a organização Fa.Vela, de Belo Horizonte, beneficia mais de 2.300 pessoas, em sua maioria mulheres negras


João Souza, um dos fundadores e atual diretor-presidente do Fa.Vela: “Correria, feijão na lata e negócios super inovadores”. Foto: Rodolfo Rizzo

Por Gabi Coelho, Rede Galápagos, Belo Horizonte

“Nosso objetivo sempre foi mudar a ideia de que para ter sucesso você precisa sair da favela”, diz João Souza, um dos fundadores e atual diretor-presidente do Fa.Vela, organização que atua em Belo Horizonte como plataforma de educação e aprendizagem empreendedora, inovadora, digital e inclusiva. A iniciativa surgiu no Morro do Papagaio, região centro-sul da capital mineira, em 2014, quando um grupo de moradores decidiu criar uma forma de promover a diversidade e o desenvolvimento social, econômico e ambiental, por meio do empoderamento de grupos e territórios vulnerabilizados. Desde então,  mais de 260 negócios e projetos ganharam impulso a partir das iniciativas dessa organização da sociedade civil (OSC). Mais de 500 empreendedores foram acelerados e 20 programas de letramento empreendedor e pré-aceleração já mostram seus resultados. Todo esse trabalho vem impactando diretamente as vidas de mais de 2.300 pessoas, sendo 71% negros e 66% mulheres. 

João explica o que é e como se desenvolve o empreendedorismo de base favelada, uma das principais características que definem o Fa.Vela. “É essa correria que a galera faz dentro da favela sem muitos recursos, sem muitos acessos, para poder gerar renda, colocar o feijão na lata e criar negócios super inovadores”. Ele conta que, por meio dessa lógica, cada vez mais agentes recebem formação para que a mudança aconteça a partir de dentro dos territórios. “A transformação digital é fundamental para esses negócios”, lembra João. “E precisa ser inclusiva; por isso é necessário ter pessoas qualificadas para promover o protagonismo periférico na inovação social”.  

O Fa.Vela prioriza seu trabalho nos eixos de educação, cultura, gastronomia, diversidade e impacto social. Entre os negócios e projetos acelerados durante seus seis anos de atividades antes da pandemia incluem-se salões de beleza, pequeno comércio, marcas locais de roupas e bijuterias e empreendimentos que contribuem para a resiliência urbana e a sustentabilidade. O Fa.Vela é parceiro do programa Missão em Foco, que promove apoio institucional a organizações da sociedade civil.  

Impactos do novo cenário
A pandemia causada pelo novo coronavírus tornou o trabalho da instituição ainda mais importante. Foi no momento de crise que as iniciativas do Fa.Vela se mostraram mais evidentes e necessárias. O primeiro passo foi fazer uma atualização cadastral das pessoas registradas e aceleradas pelos projetos. Um mês após o início das medidas de distanciamento social na região metropolitana de Belo Horizonte, os resultados indicaram que 75% das pessoas que fazem parte do banco de dados do Fa.Vela não possuíam reserva financeira para enfrentar mais de 30 dias de isolamento; 71% se candidataram ao auxílio emergencial do governo federal; 70% perderam sua renda e tiveram comprometidas as atividades de seus projetos; e 37% alegaram estar com a saúde mental abalada.

O desemprego em Minas Gerais é crescente. Segundo o IBGE, havia mais de 1,2 milhão de desempregados no estado em setembro. Com base nessa informação e em dados coletados pelo Fa.Vela foi identificada uma nova emergência: a cidadania digital.

Considerado a nova versão da cesta básica, o cartão alimentação contemplou 500 famílias durante a pandemia: liberdade de escolha aos moradores para incluir produtos que não vêm nas cestas tradicionais. Foto: Fa.Vela/Divulgação

Um cenário como a pandemia da Covid-19 expôs diversas desigualdades sociais relacionadas à pobreza multidimensional – que inclui necessidades básicas de saneamento, alimentação e acesso à saúde básica –, mas também conectividade à internet, essencial para comunicação, trabalho e estudos de muitos brasileiros. 

Uma das ações durante a pandemia foi o “Projeto Acóde”, realizado em parceria com o Itaú Social, com a proposta de reduzir os impactos da Covid-19 na vida de 500 famílias que residem em vilas e favelas na região metropolitana de Belo Horizonte. O projeto priorizou o atendimento a mulheres chefes de família, com filhos ou monoparentais, pessoas LGBTQIA+, em especial as trans e travestis, negras, desempregadas e/ou empreendedoras formais e informais que tiveram a renda impactada pela pandemia. 

Letramento empreendedor e digital
A iniciativa contemplou uma nova versão da cesta básica e incluiu auxílio financeiro por meio de cartão-alimentação, livros infantis e acesso ao programa de formação e letramento empreendedor e digital, o Fa.Vela Escola. A ideia é trazer a discussão sobre o empoderamento econômico e a liberdade de escolha das pessoas, de acordo com as suas necessidades. Para a comunicadora Tatiana Silva, diretora executiva do Fa.Vela, o cartão permite a escolha de produtos que não vêm nas tradicionais cestas básicas, como alimentos frescos ou perecíveis, ou ainda, a compra de fraldas, leite e outros itens para as famílias com crianças. “Os cartões permitem também a aquisição de itens como absorventes para mulheres ou produtos para prevenção à contaminação por Covid-19”, explica.

Tatiana Silva, empreendedora, comunicadora e diretora executiva do Fa.Vela: discussão sobre o empoderamento econômico e cidadania digital.Foto: Fa.Vela/Divulgação

O projeto Fa.Vela Escola foi adaptado durante o período pandêmico e segue oferecendo aprendizado e formação contínua para jovens, adultos e idosos de diferentes realidades, com o objetivo de impulsionar a transformação digital de pequenos empreendimentos. Presencial até 2019, em 2020 passou a atuar de forma remota e hoje oferece aulas semanais ao vivo sobre recursos digitais para pequenos negócios. Arquivos de áudio são disponibilizados em sala de aula virtual através de aplicativo de mensagens e atendimentos remotos individuais são feitos por profissionais voluntários. Além disso, oferece publicações digitais periódicas sobre empreendedorismo de base favelada e aulas mensais com convidados especialistas.

Com seis meses de atuação virtual, o Fa.Vela Escola já está presente em 11 estados brasileiros, beneficiando mais de 130 empreendedores e alcançou mais de 8 mil visualizações de seus produtos audiovisuais.

Saiba mais