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Dez perguntas para

“Minha escrita é o tehêy, resistência e memória da nossa história”

Utilizando desenhos como narrativas, dona Liça Pataxoop pratica um método de ensino que alimenta o amor à mãe Terra e reforça a cultura e a trajetória de seu povo


Dez perguntas para
Dona Liça Pataxoop
Educadora e liderança da aldeia Muã Mimatxi, em Itapecerica, Minas Gerais, dona Liça faz parte da série Jenipapos: Rede de Saberes, uma parceria do Itaú Social com a MINA Comunicação e Arte, projeto que oferece oficinas de formação a educadores

“A Terra é a mãe, professora e médico”, ensina dona Liça Pataxoop. Foto: Arquivo pessoal

Por Maria Ligia Pagenotto, Rede Galápagos, São Paulo

Dona Liça Pataxoop é educadora e liderança da aldeia Muã Mimatxi, em Itapecerica, Minas Gerais. Ao lado de outros autores e lideranças indígenas, ela participou de alguns encontros da série Jenipapos sobre Literatura de Autoria Indígena Brasileira, em 2020 e 2021. Na ocasião, ela apresentou o trabalho que desenvolve com crianças em sua aldeia. Valendo-se dos tehêys, um material imagético que ela mesma define como uma “pesca de cultura”, dona Liça passa aos mais jovens os ensinamentos de seu povo. 

Dentro dessa perspectiva, dona dona Liça Pataxó integra a série Jenipapos: Rede de Saberes. Na entrevista a seguir, ela conta um pouco sobre o que significa ser educadora indígena e sobre a metodologia própria que desenvolveu para fortalecer a cultura dos Pataxoop, grupo estabelecido no sul da Bahia, Espírito Santo e norte de Minas Gerais. 

NNotícias da Educação — Como professora, a senhora trabalha utilizando os tehêys com as crianças. Como a senhora desenvolveu esse método?

LDona Liça Pataxoop Vou começar explicando o que é um tehêy. É um instrumento de pescaria, uma armadilha pataxoop, tecida com corda de tucum e cipó, e usada para “teheyá” a pesca no rio. Nós temos vários tipos de armadilha para pesca, e o tehêy é mais usado pelas mulheres e crianças pescarem nos rios. É um material para selecionar os peixes, que servem para nos alimentar. Quando você “terreia”, a água desce e os peixes ficam para a gente. Aí vem peixe pequeno, peixe grande. No tehêy, que é tipo uma rede, ele fica preso, e dali a gente vai pegar os peixes grandes. Os que pudermos soltar, para que eles fiquem crescendo, a gente solta. O tehêy que uso na escola é um instrumento de pescaria de conhecimento. Ele pesca a cultura de nosso povo, coloco ali as coisas da nossa religião, o nosso modo de viver, nossas histórias de vida, o trabalho, as plantas, os animais, nossa ancestralidade. O tehêy tem muitos saberes, é uma “escrita” que alimenta a criança; isso é diferente da outra escrita. Ele veio dos meus sonhos, depois que cheguei a Muã Mimatxi.

NEm cada tehêy a senhora trabalha um tema com as crianças?

LSim, é isso. Trabalho os valores que a gente quer passar. Nos tehêys está a vida na aldeia. Neles se pesca a alegria de ser e estar em Muã Mimatxi, no mundo. Nos tehêys, pescamos a nossa memória, a nossa cultura, os parentes gente, os parentes planta, os parentes bicho. E desde as origens somos acompanhados por Yãmixoop. Este aqui (mostra um tehêy) fala da alegria de se cuidar no tempo do frio. Aqui tem a nossa escola de quatro paredes. Tudo o que eu quero falar sobre isso está aqui neste tehêy. No tempo do frio faz um tempo que a gente tem que ter muito cuidado com as crianças, porque elas são iguais a uma planta. No tempo do frio elas precisam de mais cuidado, e ensino isso aqui. E cada tempo tem uma forma de cuidado na vida, então a gente ensina na escola, e em casa ensinamos às famílias. Neste aqui (mostra outro) é a história do ipê, quando o mundo se formou. Aqui a gente traz a memória, a minha memória, a da natureza, a memória de toda a vida da Terra, das plantas, dos insetos, da mata, dos rios, do universo, do sagrado. É bom porque o povo entende, pois uma imagem vale mais do que dez palavras, é o que dizem por aí.

“O tehêy é um livro vivo, em que o professor registra toda a sua pesca de conhecimento.”

NQuando a senhora pensou no método já quis dar a ele o nome de tehêy?

LO tehêy é como pescaria de conhecimento, leva a escrita com a imagem. As imagens são as letras dentro de um tehêy, que é como um papel, mas dentro daquele papel nós vemos. Eu, como liderança na aldeia, falei com os professores da escola que temos aqui, que é ligada ao governo de Minas Gerais, que eu queria dar o nome de tehêy aos desenhos. Isso foi importante para mim, porque estamos falando de uma pedagogia para ensino dentro da nossa escola. E esse nome é muito forte para nós. É um material didático, mas é de resistência, de nossa vida, dentro da nossa cultura, de dar sobrevivência a ela.

Detalhe do vídeo “Visita Virtual à Exposição Mundos Indígenas | Tehêys de Dona Liça Pataxoop” (Espaço do Conhecimento UFMG/Youtube). Link no final do texto.

NA senhora ensina por meio dos tehêys em uma aula específica dentro da aldeia indígena?

LDou a aula sobre o uso dos territórios pataxoop. Ensino as crianças a pensar sobre o lugar em que vivem, a natureza. O tehêy de conhecimento é um livro vivo, em que o professor registra toda a sua pesca de conhecimento. Ele liga um conhecimento a outro, não deixa morrer nossa cultura, nossos conhecimentos ancestrais, nossa história. Por isso é muito importante.

NNessas aulas a senhora aborda também as questões de terra que envolvem os povos indígenas no Brasil?

LFalo da terra, da vida, sobre a convivência com ela. Porque ela é uma escola da vida, e às vezes tem pessoas que não olham para esse lado da Terra, não veem a Terra como uma produtora de vida e de ensinamento, mas ela é. Tudo que vive nela tem vida, tem história, tem crescimento para a mente, para o espírito, para tudo que faz parte da nossa memória. Então a Terra é a mãe, professora, médico.Tem tudo ali dentro. Mas é preciso cuidar sempre. Aqui moro numa terra que já foi devastada por outras pessoas. A gente tira alguns alimentos daqui da nossa terra, mas nem tudo, porque já teve devastação. 

NA senhora acredita que a distribuição de livros indígenas nas escolas, para as crianças não indígenas, é uma maneira de levar esse conhecimento sobre a Terra e a questão ambiental para as pessoas da cidade?

LSim, acho, e é importante isso. Nós também trabalhamos assim, trocando conhecimento. Tem vezes em que a gente tem as nossas aulas de história, para falar da nossa história como Pataxoop, mas também passa as histórias de outros para os nossos povos conhecerem. Também trocamos conhecimento com outros parentes indígenas. E eu também tenho vontade de que os meus materiais, os tehêys, também cheguem para os outros. E é importante trocar conhecimento com professor não indígena, porque às vezes tem uns que chegam aqui e dizem para as crianças não sentarem na terra, que a terra é suja. E eu digo que a terra não adoece ninguém, nós é que sujamos e adoecemos a terra.

“As crianças aqui têm um amor demais à natureza, é muito lindo. É um ensino para a vida, para amar a Terra, pois tem vida lá dentro.”

NComo tem sido sua experiência como professora indígena?

LSou professora desde quando chegamos aqui, faz 15 anos. Aprendi pelo seguimento da vida e fui escolhida pela minha comunidade para ensinar. Eu não tive estudo fora, nunca estudei para ter a escrita de fora, mas eu estudei na minha escola e na minha universidade da terra, então eu tenho esse conhecimento, que é nosso aprendizado de vida. Fui escolhida porque viram que eu tinha esse dom do ensino, e porque sou uma das mais velhas aqui da aldeia. A nossa escola tem uma pedagogia da oralidade, da vida, e eu já gostava também de ensinar as minhas crianças assim, por isso fui escolhida. Desde sempre estou nesse ensino da vida, da nossa cultura e da Terra, e também aprendi dessa forma.

NQuais são os maiores desafios que a senhora enfrenta como educadora?

LA dificuldade que a gente vê às vezes no nosso trabalho é a forma como levamos a vida, e que talvez as pessoas não entendam. Acham que quem não sabe ler a escrita lá de fora são pessoas que não sabem nada. Quem não sabe ler é uma pessoa que é sem memória, falam, mas às vezes não é assim. Às vezes um que não lê e não aprendeu a história lá fora entende muito mais a escrita de entendimento. Uns velhos aqui falam que “um sabido pode acabar com mil ensinos de vida, com mil vidas, com mil vivências na Terra”. Então vamos também por esse caminho, de a gente também estudar o sabido, que é como chamamos quem tem a leitura lá de fora. Nós temos nosso modo de ensinar, nós temos nosso modo de aprender e viver. Temos a nossa matemática, temos a nossa fala, nós temos a nossa ciência, temos a nossa geografia, temos a nossa química. A escola aqui é ligada ao governo, mas tem coisas que eles querem trazer de lá de fora que não queremos. Temos o nosso livro, que é a Terra, a natureza, e dentro dele tem tudo que se aprende lá fora. Eu não vou deixar de ensinar a minha história para ensinar a história das pessoas lá de fora, né? Eu tenho que ensinar primeiro a minha. E os nossos alunos, quando acabam o ensino fundamental e vão para o ensino médio lá fora, eles se tornam os melhores alunos que os professores têm. Não têm diferença dos outros, não têm dificuldade; às vezes a dificuldade é um pouco no inglês.

“Na aldeia temos uma escola de quatro paredes, mas a gente ensina e aprende pela natureza.”

NComo os não indígenas poderiam se aproximar mais desse conhecimento da Terra, do respeito à natureza?

LPrecisamos fazer essa troca de conhecimento mesmo. No tempo de criança, nós não tínhamos essa convivência com o não indígena. Eu vim a ter conhecimento de certas coisas depois que vim para Minas Gerais. Até meus 14 anos eu vivia em Barra Velha, na Bahia, e era muito difícil frequentar, porque lá tinha muito rio, muita mata. A Funai fez uma escola em Barra Velha, mas eu não ia, porque não queria deixar meus filhos sozinhos. As professoras que davam aula lá foram as primeiras brancas que eu conheci e me mostraram coisas. Mostraram um rádio, queijo, mas eu não gostava. Ensinaram a gente a fazer macarrão, arroz, mas nós não tínhamos o costume de comer isso. Só comíamos peixe, farinha. Nós temos nossa realidade de conhecimentos, mas tem quem não respeite. Tem muitos sabidos, que eu chamo de inteligentes, que acham que são mais inteligentes que os indígenas. Deviam respeitar e querer aprender um pouco com a gente também. Um tehêy deste aqui vale mais que dez palavras, pois você está vendo uma escrita em vida, em realidade, que as crianças se concentram dentro do ensino. As crianças aqui não querem jogar um papel no chão, porque já têm esse ensino da Terra. Até de uma formiguinha, se eles puderem desviar, desviam. Eles têm um amor demais à natureza, é muito lindo. É um ensino para a vida, para amar a Terra, pois tem vida lá dentro. E tem muita gente que olha o que está acontecendo hoje na Amazônia, e é o que já aconteceu com meu povo, que foram os primeiros que receberam Cabral, na Bahia. Temos muito fogo de resistência, da memória, da nossa história, da nossa cultura, por causa do nosso ensino. Não adianta você aprender a ler e escrever e não aprender o ensino do amor da mãe Terra. É tão bonita a nossa Terra, eu espero que o nosso material chegue a outros povos e lugares.

NAlém do seu trabalho como educadora, como é o seu trabalho como liderança na aldeia?

LEu trabalho de tudo um pouco. Aqui na minha aldeia eu participo das reuniões de melhoria para a minha comunidade. Quando cheguei aqui, a primeira coisa que fui fazer foi cuidar da terra, pois tinha pessoas não indígenas que moravam aqui, às vezes tinha boi, colocavam muito veneno na terra, e isso é uma coisa que nós não gostamos de botar na terra.Tinha muito lixo pelas matas, pela estrada. Quando chegamos fomos fazer ritual de canto e de dança para melhorar a terra. Aí eu fui escolhida para liderar o meu povo, minha aldeia. Eu participo de reunião de educação, de reunião da saúde. Sobre isso, digo que temos na aldeia uma escola de quatro paredes e um posto de saúde de quatro paredes, mas a gente ensina e aprende pela natureza e também busca tratamentos na natureza. Como liderança, eu também participo de reuniões com outros Pataxoop. Levo as nossas dificuldades e ouço as deles; funciona assim.