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Em Minas Gerais, centro de reabilitação destinado a crianças, jovens e adultos com sequelas neuromotoras é também referência na promoção da inclusão de pessoas com deficiência em escolas regulares


Victória Heloisa, de 7 anos, que tem mielomeningocele, é atendida pela Adefip e estuda na Escola Municipal Raphael José Santos Neto, em Poços de Caldas: avanços na alfabetização e na socialização com outros estudantes na escola regular. Foto: Adefip

Por Nathália Bini, Rede Galápagos, Belo Horizonte

Poços de Caldas, em Minas Gerais, tem uma longa história relacionada à busca pela qualidade de vida e à saúde, devido a suas fontes termais sulfurosas e radioativas. Observadores atentos perceberão que ao lado dessa imagem da cidade, que já vem de séculos, firma-se hoje uma nova percepção de local de referência em saúde, sim, e também um exemplo de trabalho para assegurar direitos a pessoas com deficiência, com ênfase no acesso à educação. Essa história vem sendo escrita nos últimos anos pela Adefip (Associação dos Deficientes Físicos de Poços de Caldas), que é, em grande medida, fruto da articulação de um grupo de mães. A organização da sociedade civil é referência em várias áreas, com destaque principalmente nestas três: atendimento e reabilitação multidisciplinar de pessoas com deficiência; promoção da inclusão escolar; e produção de conhecimento científico em parceria com universidades. A Adefip é parceira do programa Missão em Foco, do Itaú Social, que investe em organizações da sociedade civil dedicadas ao desenvolvimento integral de crianças e adolescentes. 

União de mães
Segundo o censo do IBGE, de 2010, no Brasil há 45,6 milhões de pessoas com alguma deficiência. Destas, 7,5%  têm até 14 anos de idade. Ou seja, são 3,5 milhões de crianças com deficiência. Ana Paula Tranche, hoje presidente honorária da Adefip, despertou para essa realidade em 2003, quando seu segundo filho, Gustavo, nasceu com paralisia cerebral. Na época, tinham de fazer frequentes viagens a São Paulo, a 258 km de distância, para acompanhamento médico. Durante esses demorados deslocamentos feitos com a van da prefeitura, Ana Paula aproximou-se de outras mães que viviam situação semelhante. E, juntas, elas se organizaram para ter especialistas na própria cidade de Poços de Caldas cuidando das crianças. “Precisávamos de profissionais que pudessem garantir às crianças um desenvolvimento cognitivo, emocional e social dentro das possibilidades de cada um”, explica Ana Paula. “E para isso é preciso olhar a pessoa com deficiência como um ser humano capaz, sem julgar pelas suas limitações.” Hoje a Adefip atende pessoas de todas as idades, com qualquer tipo de deficiência.

Na época em que se organizaram para mostrar a necessidade de um centro de reabilitação na cidade, as mães decidiram sensibilizar o poder público e a comunidade local com uma petição assinada por mais de 27 mil pessoas. Durante a coleta de nomes, elas conheceram a Adefip, criada por jovens católicos em 1987 e que desenvolvia um trabalho com adultos para inclusão social. Eles uniram forças e ampliaram o público, surgindo, assim, em 2006, o Centro de Reabilitação Multidisciplinar. “Eram apenas três salas, que dividíamos entre atendimento, administrativo e telemarketing, e quando chovia tínhamos que dividir também com baldes e bacias”, relembra Ana Paula. “No início, toda a equipe era voluntária, sem dinheiro nem para comprar o lanche, e ainda assim atendíamos 23 crianças.” 

Ana Paula Tranche, presidente honorária da Adefip: “Dar oportunidade de estar na escola é devolver à criança com deficiência o direito de ser e estar com outras crianças”. Foto: Adefip

Em 2009, com maior demanda por atendimentos e por atuação das próprias mães, a Adefip passou a funcionar em um espaço mais amplo, dentro do prédio da Secretaria Municipal de Saúde. Desde 2015 ocupa uma sede ainda maior. O Centro de Reabilitação inclui serviços nas áreas de fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia, pedagogia, psicopedagogia, psicologia, serviço social, educação física, fisiatria, neuropediatria, ortopedia, enfermagem, nutrição, musicoterapia e equoterapia. Entre os procedimentos adotados incluem-se a terapia de contensão induzida, o método TheraSuit, integração sensorial e fisioterapia paradesportiva. 

Apoio e desenvolvimento
“Eu sei que posso contar com todo mundo daqui para o que a gente precisar. A cada terapia que o Arthur faz, ele volta de uma forma diferente”, relata Ana Flávia Mendes, mãe do Arthur, de quatro anos, encaminhado para a Adefip por causa de um atraso no desenvolvimento neuropsicomotor. “Ele entra feliz, gosta de vir pra cá, sai daqui com um sorriso no rosto. Ver que ele está bem e que o desenvolvimento melhora não tem preço.” Foto: Adefip

Inclusão escolar
As mães logo perceberam que, além de garantir o acompanhamento psicopedagógico às crianças, era necessário esforço para assegurar a inclusão na educação. Em 1996, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) incentivou a inclusão de pessoas com deficiência em escolas regulares. E, em 2015, a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência determinou que as escolas não podem recusar oficialmente a matrícula desses estudantes. “O fato de crianças e adolescentes estarem em uma escola regular implica mudanças e adequações não só do ambiente, mas da mentalidade de todos os envolvidos”, afirma Larisse Junqueira Mendes de Carvalho, coordenadora técnica da Adefip. “Não depende apenas dos professores, e sim de toda a comunidade escolar, que precisa observar as necessidades do aluno, utilizar estratégias pedagógicas diferenciadas, criar acessibilidade e formar uma rede de apoio ao redor daquela criança.” Esse é um dos muitos aprendizados do Centro de Inclusão Escolar, que a Adefip começou a desenvolver em 2009, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação. 

Orientações às escolas regulares
As famílias que chegam à Adefip em busca da reabilitação são orientadas a matricular os filhos em escolas regulares. “É preciso mostrar aos pais a necessidade da inclusão escolar”, explica Larisse. “Se a família não der continuidade ao que está sendo aplicado na escola, o desenvolvimento não evolui.” A experiência demonstra que o primeiro passo é conhecer as dificuldades de cada um. Para isso é necessário levar em conta os aspectos motor, cognitivo, pedagógico, afetivo e social. O objetivo é que as crianças possam não apenas aprender e socializar, mas também tornar-se cada vez mais autônomas e funcionais. 

Uma equipe multidisciplinar da associação vai às escolas orientar sobre cada aluno, com sugestões que vão desde o entendimento da patologia — com detalhes específicos daquela deficiência, os cuidados de higiene, a prevenção de lesões que podem surgir quando há um tempo longo de permanência na mesma posição — até orientações sobre a administração de medicamentos; como agir diante de alteração de sinais vitais; o que o estudante pode comer e em qual quantidade; qual o utensílio mais adequado; os cuidados no posicionamento da criança durante a merenda; e até atividades para que os alunos possam participar de forma mais efetiva das aulas de educação física.

Tecnologias assistivas
Para o aprendizado do conteúdo em si, os pedagogos e profissionais da saúde elaboram estratégias com o uso de tecnologias assistivas. São soluções que envolvem recursos variados para auxiliar os alunos a participar de forma eficaz das rotinas escolares, passando assim a ter mais proximidade com seus colegas e professores. Incluem desde ferramentas de baixa tecnologia, como um “engrossador de lápis”, até computadores com programas, mouse, teclado e acionadores específicos. “As pessoas com dificuldades funcionais de fala e escrita, por exemplo, precisam adotar recursos de comunicação suplementar alternativa (CSA)”, explica Ana Paula. “São recursos que substituem a fala inexistente ou de difícil compreensão, por meio de vocalizadores portáteis (voz sintetizada) e pranchas de comunicação, que são superfícies nas quais podem ser colocados símbolos gráficos, fotos, alfabeto, palavras ou frases que auxiliam na comunicação do paciente.”

Larisse Junqueira Mendes de Carvalho, coordenadora técnica da Adefip: “A inclusão não depende apenas dos professores, e sim de toda a comunidade escolar”. Foto: Adefip

Estímulos lúdicos e diversos
Para os profissionais da Adefip, quando crianças e jovens com deficiência, da educação infantil ao ensino médio, estão inseridos em um ambiente regular de estudos, esse espaço não se assemelha a um local de reabilitação. “A estimulação acontece de forma natural, muito mais lúdica, porque eles querem imitar os colegas”, relata Ana Paula. E para os estudantes regulares é a oportunidade de conviver desde cedo com a diferença, sem preconceitos. “Dar oportunidade de estar na escola é devolver à criança o direito de ser e estar com outras crianças. Foi a melhor terapia proporcionada ao Gustavo”, ela conta, emocionada, ao relembrar do filho, que faleceu em 2018, aos 15 anos. 

Para as famílias dos estudantes são perceptíveis os impactos desses estímulos. Dos sete anos de Rafaela Saboia, quatro estão ligados à Adefip. A menina nasceu com mielomeningocele, o que resultou em um atraso no desenvolvimento neuropsicomotor. Vencidas as barreiras motoras, hoje o objetivo é alfabetizá-la. Para o pai, Wilson Saboia, esse intercâmbio de profissionais da associação e os da escola foi decisivo. “Durante esses anos, percebemos um desenvolvimento global da Rafaela, que está conseguindo acompanhar a escola regular”, conta ele. “São estímulos de que ela precisa não só como aluna, mas também como ser humano, para realmente se incluir na sociedade.”

Pensando na fase adulta
“Nós, mães, pensávamos em um projeto para crianças, esquecendo que nossos filhos iriam crescer”, recorda-se Ana Paula. “Participar do mundo do trabalho é uma condição fundamental para sua integração na sociedade, não apenas como ‘cota’, mas realmente sendo útil àquele emprego.” A partir dessa constatação, a equipe se uniu para formatar e pôr em funcionamento o Centro de Inclusão Profissional da Adefip, criado em 2011 para adolescentes a partir de 14 anos, jovens e adultos. A ideia é desenvolver habilidades básicas voltadas ao mundo do trabalho, com cursos profissionalizantes nas mais diversas áreas de conhecimento e serviços. Também são realizadas ações para mapear postos de trabalho e parcerias com empresas. “Não basta estar empregado. O jovem precisa do nosso apoio durante todo o processo de desenvolvimento do trabalho, com nossa assessoria multiprofissional.” Além das iniciativas para inclusão na escola e no trabalho, a Adefip organiza e participa de eventos que mostram que as limitações físicas e neurológicas não impedem que os talentos brilhem. Assim, crianças, jovens e adultos com deficiência participam de apresentações de dança, teatro e competições esportivas na cidade.

Laços comunitários
Diante do trabalho que vem sendo desenvolvido, várias universidades da região buscaram a Adefip para firmar parcerias de estágios, para que os universitários pudessem conviver com os atendidos. E a organização se tornou referência de conhecimento para produção científica. Desde 2017, a Adefip organiza um simpósio, realizado no campus da PUC na cidade, que atrai especialistas de todo o país, interessados em conexões e aprendizados. É na comunidade que a Adefip também busca a sustentabilidade, seja por doações pelo telemarketing, seja em campanhas de arrecadação de fundos. Há um termo de parceria com a Prefeitura Municipal de Poços de Caldas, além da captação de recursos por meio de editais de empresas públicas ou privadas, fundações, como o Itaú Social, e organismos não governamentais, como a Unesco. 

As medidas de isolamento impostas pela pandemia de Covid-19 levaram a Adefip a se reorganizar rapidamente para atender de forma remota. “O ganho neurológico é lento e a perda muito mais veloz”, explica Larisse. Foi montada uma equipe de moderadores para atender por telefone. E, assim como em qualquer família, os pais tiveram que se reorganizar e estar mais presentes no processo escolar e de reabilitação, realizando tarefas com os filhos sob orientação dos profissionais. No segundo semestre de 2020, começaram a voltar aos atendimentos presenciais para as pessoas que não estão no grupo de risco. 

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