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Hip Hop, visão e transformação de mundo

Em Piracicaba (SP), associação criada por jovens do hip hop envolve a comunidade e promove ações em prol do desenvolvimento local


Algumas oficinas ofertadas pela Casa do Hip Hop voltaram a acontecer presencialmente em maio, como a de grafite. Foto: Arquivo Casa do Hip Hop

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Lauro de Freitas (BA)

A associação imediata ao ouvir o termo hip hop geralmente é feita com a música. Apesar de não poder ser definido simplesmente como um gênero musical, o hip hop foi popularizado em todo o mundo através dos MCs (master of cerimony) e DJs (disc jockey), com o rap. A associação de hip hop com música, portanto, faz sentido. MCs e DJs, contudo, são apenas dois dos quatro elementos da cultura hip hop. A outra metade é formada pelo grafite e pelo break dance. Desse modo, a associação do termo hip hop pode ser feita com música, artes plásticas e/ou dança, os três eixos artísticos desse movimento urbano.

Em Piracicaba, interior de São Paulo, um grupo de jovens adeptos do hip hop adicionou alguns elementos a essa mistura e fez uma associação ainda mais ousada. Trata-se da Associação Comunitária, Cultural, Educacional e Política Casa do Hip Hop. O espaço fica na comunidade da Pauliceia e tem 450 famílias cadastradas para as atividades que desenvolve. Surgiu em 2001 como uma proposta de revitalização do centro cultural comunitário, que estava abandonado. Bira, um dos fundadores da Casa do Hip Hop, costumava frequentar o centro cultural quando criança. Ele estava disposto a recuperar o local e recebeu o incentivo que faltava. “Minha mãe falou: ‘Sua história está ali. Como você vai deixar a sua história morrer?’”, lembra.

Carga de doação de alimentos armazenada na Casa do Hip Hop, antes de serem distribuídos à comunidade da Pauliceia: painéis grafitados fazem parte da decoração do espaço. Foto: Arquivo Casa do Hip Hop

Participação e diálogo
Bira é Ubirajara Sabino, morador da Pauliceia, MC, educador social e um dos gestores da Casa do Hip Hop. Ele conta que foi preciso fazer uma pesquisa para entender quais as necessidades da comunidade para aquele novo ambiente. “Trouxemos o cururu para dentro do espaço. Veio também a roda de viola, veio a tiazinha dos bordados.” Um dos moradores dava aulas de muay thai no quintal de casa e sonhava em ter sua própria academia. Ele foi convidado para dar as aulas no novo espaço comunitário. A estratégia deu certo e a comunidade passou a ver os jovens do hip hop de uma maneira positiva. “Antes, levávamos borrachada. Depois de um tempo, estávamos recebendo o abraço da comunidade porque fizemos ela se sentir parte do espaço”, avalia Bira. Atualmente, vários moradores têm as chaves e tomam conta da Casa.

Em 2020, Bira recebeu, da Câmara Municipal de Piracicaba, o título de Líder Comunitário: reconhecimento aos serviços prestados ao município. Foto: Arquivo Casa do Hip Hop

Após longo debate para definição de estatuto e regimento internos, o local finalmente veio a ser oficializado em 2007. Um dos pontos que faziam com que a demanda não avançasse era o fato de que a comunidade não queria que a Casa do Hip Hop tivesse a figura de um presidente, exigência burocrática para alguns cadastramentos. Hoje, a gestão é feita de maneira descentralizada, por meio de coordenações. A institucionalização foi importante para os diálogos com a prefeitura de Piracicaba.

Desde então, os integrantes da associação passaram a participar dos conselhos municipais, levando propostas da juventude e da comunidade. Foi assim que garantiram a construção da pista de skate da Pauliceia. Antes, os skatistas praticavam o esporte na rua, com obstáculos de madeira, mas eram frequentemente interrompidos pela força policial. Nas reuniões de orçamento participativo, apresentaram proposta e conseguiram votos suficientes para aprovar a execução da obra.

Alimentação e autoestima
“Quando entendemos que o hip hop era tudo isso, concluímos que o nome precisava ser esse”, comenta Bira, a respeito das palavras “comunitária, cultural, educacional e política”, presentes no nome da associação. A Casa tem 312 crianças e adolescentes inscritos para atividades diversas como muay thai, jiu-jítsu, capoeira, basquete, violão, bateria, costura ou culinária, por exemplo. Naturalmente, os elementos da cultura hip hop também têm seu espaço com oficinas de grafite, DJ e um local onde são praticadas as danças urbanas. “Na Casa, você vai ver um moleque jogando basquete, outro no slackline, mais um embaixo da árvore lendo um livro, outros na cozinha fazendo um rango para a geral…”, conta o educador social Bira, orgulhoso. “Queremos que a Casa do Hip Hop brilhe mais que a rua para a molecada”, conclui.

O espaço ficou fechado durante um tempo, quando a pandemia da Covid-19 chegou ao Brasil. Como num efeito dominó, a crise sanitária gerou outros problemas na comunidade da Pauliceia. “As pessoas não precisavam somente de alimento, mas de atendimento psicológico, de ajuda para regularizar a documentação e receber o auxílio emergencial.” A demanda aumentou e a associação realizou ações de arrecadação e distribuição de alimentos e outros bens essenciais. “Se antes precisávamos fazer entregas a 100 famílias, hoje atendemos mais de mil barracos. Vemos o pessoal fazendo comida com lenha, correndo o risco de pôr fogo no barraco”, lamenta o MC e educador social Bira.

Mudança de imagem
A Casa do Hip Hop de Piracicaba foi uma das instituições apoiadas pela edição emergencial do programa Comunidade, Presente!, do Itaú Social. A iniciativa existe há 15 anos e reformulou o seu formato para apoiar no enfrentamento das dificuldades causadas pela pandemia de Covid-19, em março de 2020. Desde então, beneficiou 14 mil famílias de 35 municípios com a distribuição de kits com itens essenciais de consumo, como alimentos, produtos de higiene e gás de cozinha. A ação foi realizada por intermédio de organizações da sociedade civil (OSCs) das cidades.

Em Piracicaba, 250 famílias receberam cestas básicas e itens de higiene durante quatro meses, através da parceria. “O apoio do Itaú Social foi importante porque fez com que olhássemos para as necessidades das famílias. Podia ser um absorvente, um álcool em gel, uma máscara ou arroz e feijão.” Bira ressalta que a garantia do alimento impacta na autoestima e influência na diminuição de conflitos familiares.

De acordo com o educador social e MC, “hip hop não é só curtição. É visão e transformação de mundo”. A Casa do Hip Hop, na prática, funciona como uma associação de moradores para a comunidade da Pauliceia. Da construção da pista de skate ao plantio da horta comunitária, as ações da juventude piracicabana contribuem para “mudar a imagem, na cidade, de que o hip hop é coisa de bandido”. Seria possível encerrar este texto com várias frases de Ubirajara Sabino, ou apenas Bira, sobre o trabalho da Casa do Hip Hop. Poderia ser: “O que escrevem bonito nos livros é o que a gente sempre fez”. Ou: “Quando, durante uma oficina, uma criança de cinco anos passa a entender o mundo a partir da dança, isso é hip hop”. Mas talvez a frase que melhor represente a transformação promovida pela Associação Comunitária, Cultural, Educacional e Política Casa do Hip Hop seja: “Antes, as famílias falavam que não queriam suas crianças comigo porque eu as levaria para o mau caminho. Hoje, temos vários moleques que foram do break dance para a faculdade de dança”. De fato, grandes associações podem ser feitas a partir do hip hop.