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Espírito crítico e autonomia

O Camará Calunga atua em territórios periféricos de São Vicente fomentando o protagonismo de jovens e mulheres na busca por soluções coletivas para problemas históricos


Apresentação do grupo de dança Coisa de Preta, do território Vila Margarida, em foto de 2019: crianças e adolescentes como protagonistas. Foto: Camará Calunga/Divulgação

Por Maria Lígia Pagenotto, Rede Galápagos, São Paulo

O ano que passou foi de pandemia e distanciamento social, mas não houve um só dia em que o Instituto Camará Calunga não esteve próximo dos territórios em que atua há 23 anos, no município de São Vicente (SP). Atendendo crianças, adolescentes e suas famílias, nesse período essa organização da sociedade civil (OSC) intensificou ações de proteção social, ampliou a disposição para a escuta e criou espaços de participação em locais onde são decididas políticas públicas nas áreas de saúde, educação e assistência social, especialmente.

A Quitanda Camarada, por exemplo, nasceu em setembro de 2020. Lá, pessoas dos três territórios onde atua a organização (Vila Margarida, Jóquei Clube e Quarentenário) retiram itens de que precisam – alimentos, roupas, livros, absorventes e desodorantes.

Mais do que um mercado, o lugar se configura também como espaço para troca de saberes e, principalmente, de companheirismo. É um ponto de convivência a partir do qual as pessoas reconhecem suas necessidades. 

Gabriela Lima de Jesus (de preto) na cozinha com Carla Cristina Silva (de amarelo), Telma Maria Jacob (de cinza) e Edilene Neris da Silva (de branco): preparação de alimentos para a Quitanda Camarada. Foto: Camará Calunga/Divulgação

Respostas criadas coletivamente
O projeto da quitanda ainda está sendo construído e, como tudo no instituto, é fruto de decisões coletivas, explica João Carlos Guilhermino da Franca, fundador do Camará e atual diretor-presidente. Engenheiro formado no Rio de Janeiro, João é mineiro de Ubá, morou em São Paulo e, no início dos anos 1990, por questões pessoais, foi para São Vicente. Não demorou muito para querer tocar algum projeto na cidade. “As periferias aqui foram formadas a partir de invasões. A desigualdade é chocante”, diz. 

No Camará Calunga crianças e adolescentes são protagonistas das mudanças que querem ver na própria vida. Entendem que não têm culpa pela situação de vulnerabilidade em que se encontram e sabem que as respostas têm de vir do coletivo. Antes da pandemia, participavam das assembleias semanais que aconteciam em cada um dos territórios. Nos encontros, o pensamento crítico eram fomentados por leituras, sessões de cinema, debates, cursos e grupos culturais. 

Nessa dinâmica, cada ação tem um processo formativo na base, alicerçado em teorias que João trouxe da convivência, anos atrás, com o pedagogo Antônio Carlos Gomes da Silva, um dos redatores do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Com ele, se aprofundou nas teorias do educador Paulo Freire, na psicologia social, na luta antimanicomial. Interessou-se por filosofia e fez cursos como acompanhante terapêutico, deixando aos poucos a engenharia e migrando para a educação. 

Assembleia comunitária, em 2019: debates incluem participação ativa de crianças e jovens. Foto: Camará Calunga/Divulgação

“Temos ombro amigo aqui”
O Camará Calunga é parceiro do Programa Missão em Foco, do Itaú Social, que tem o objetivo de contribuir para sustentabilidade, fortalecimento e gestão das OSCs, visando à qualificação de seu impacto.

Atualmente, são atendidos pelo instituto 270 crianças e adolescentes, mais seus familiares, moradores dos territórios citados. Ações de convivência e de fortalecimento de vínculos aproximam os participantes. Eles interagem em torno dos grupos culturais – percussão, dança e teatro –, das assembleias (no momento, on-line) e de uma série de oficinas, muitas em parceria com estagiários da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A relação com a universidade, ressalta João, é fundamental. Em setembro de 2020, o instituto fortaleceu esse vínculo, assinando um convênio com a prefeitura e a Unifesp. “Queremos os estudantes imersos nos territórios, acompanhados dos educadores do Camará.” Recentemente, um grupo de mulheres participou de um curso de nutrição, também on-line, oferecido pela universidade. Nele, aprenderam sobre o preparo dos alimentos, mas também discutiram a fome que por vezes atinge as periferias. “É uma via de mão dupla, transformadora: o território afeta e ocupa a universidade, e vice-versa”, diz João. 

Por sua atuação, o Camará Calunga já recebeu diversas premiações na área de direitos humanos. O reconhecimento é importante porque dá mais visibilidade e respeito à instituição, avalia o coordenador, e possibilita maior diálogo com outras organizações.

Participantes do grupo de teatro do território Jóquei Clube, em apresentação feita antes da pandemia: trabalho para desenvolvimento do pensamento crítico. Foto: Camará Calunga/Divulgação

Abre espaço para participações em conselhos, fundamentais para a discussão de políticas públicas de fato transformadoras. “Muitos conselheiros chegam aos territórios rotulando os moradores. Não praticam a escuta; há muita desumanização nesses processos que se propõem transformadores”, observa João. 

Sua fala é corroborada por Gabriela Lima de Jesus. Aos 31 anos, ela mora na Vila Margarida com seus cinco filhos. Desde os 15 anos Gabriela conhece o Camará – fazia dança do ventre com uma irmã; hoje suas filhas mais velhas estão no grupo. “A maioria dos que chegam aqui tem interesses políticos. Eles não olham pra gente, olham pro lugar.” No Camará, conta, as famílias recebem muito mais do que comida: “Temos apoio psicológico, ombro amigo, somos ouvidos”.

O pessoal do Camará “bota o pé na lama pra valer, o que é raro. Poucos sabem como é nossa realidade”, diz Gabriela. Vinda de uma família de seis irmãos, acredita que sem o apoio do Camará sua vida teria tomado outro rumo. “O João não deixa ninguém sem estudo, vem atrás.

A percussão é a marca do Quarentenário, com o grupo Afro Calunga, em foto de 2019: criatividade e expressão. Foto: Camará Calunga/Divulgação

Terminei o ensino médio e quero ir pra universidade, ser assistente social”, afirma. Hoje ela está à frente da Quitanda Camarada, ideia que se tornou possível graças ao apoio que a organização recebe do Itaú Social desde março de 2020. “Esse recurso nos deu mais sustentabilidade e nos fortaleceu em termos de gestão”, completa João. Nos territórios, há uma comissão para receber os produtos, fazer cadastros das famílias de acordo com suas necessidades e distribuir os itens. Por causa desse projeto, aliás, que conta com alimentos fornecidos pelo Sesc, é que surgiu a ideia do curso de nutrição com a Unifesp.

Participação dos jovens nas decisões
Atualmente, uma equipe de 19 profissionais forma o núcleo do Camará Calunga. Em tempos pré-pandemia, eles se reuniam toda manhã na sede, para formações, elaboração de projetos, trabalhos em equipe. Hoje isso é feito a distância. À tarde é sempre o momento de ocupar os três territórios. Lá, contam com o apoio dos CRAS (Centro de Referência e Assistência Social) dos bairros e de algumas escolas, que cedem espaços para as atividades. Com a chegada do coronavírus muita coisa mudou, mas se intensificaram os serviços de proteção, que incluem o atendimento psicológico. A Quitanda Camarada tornou-se um importante ponto de apoio nesse período e a partir dela o Camará se firma. Quando instaladas nos territórios, em 2021, as quitandas serão os lugares por excelência para os encontros, a camaradagem e a distribuição de itens básicos. 

Um projeto fechado com o Unicef – Fundo de Emergência Internacional das Nações Unidas para a Infância – traz outro importante eixo de atuação do Camará Calunga, que é o incentivo para que crianças e jovens participem intensamente de decisões que impactem políticas públicas. Denominada “Crescer com Proteção”, a iniciativa envolve 32 jovens de 15 a 20 anos que moram em oito municípios (São Vicente, Praia Grande, Mongaguá, Itanhaém, Peruíbe, Iguape, Cananeia e Ilha Comprida). 

O Camará Calunga é o parceiro executor desse trabalho. Os jovens se encontram virtualmente quatro vezes por semana. “A partir de plenárias, eles estão produzindo estudos, lives com artistas e educadores convidados”, diz João, que explica que a arte está muito presente. “Discutimos o direito à literatura, por exemplo, a partir de experiências de bibliotecas comunitárias. Também discutimos arte, cinema, sempre pensando que essas expressões são dispositivos importantes de mobilização.” 

Há dois outros projetos em andamento. Um deles consiste em estimular o esporte como promoção da saúde. O outro envolve mulheres do coletivo Maria das Marés, com apoio do Itaú Social. A proposta prevê que elas participem ativamente dos conselhos ligados a saúde, assistência social e educação e façam parte das decisões políticas a serem tomadas. Para o Camará Calunga, somente com esse protagonismo, em que jovens e mulheres ocupam a linha de frente nas decisões, as mudanças almejadas pelos territórios de fato se consumarão.

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