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Escuta cuidadosa e ação no território

Com busca ativa escolar e oferta de atividades no contraturno, Farol da Cidadania beneficiou mais de 1.200 crianças e adolescentes em Coruripe, Alagoas


Plantio de árvores com crianças e adolescentes participantes da iniciativa: cultivo de valores de cidadania e defesa do direito de acesso à educação. Foto: Arquivo Avic

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Lauro de Freitas (BA)

“Sou muito feliz por fazer parte de tudo isso e visto esta camisa com muito orgulho”, diz a psicóloga Elytânya Vasconcelos durante a entrevista on-line feita para esta reportagem. Ela veste uma polo azul bordada com a logomarca da Associação Vida e Cidadania (Avic), organização social que atua no município de Coruripe, no litoral sul de Alagoas. Com “tudo isso”, Elytânya se refere às atividades do projeto que ela coordena, o Farol da Cidadania, que tem por objetivo assegurar que crianças e adolescentes coruripenses possam exercer os seus direitos básicos, principalmente o de acesso à educação. 

O Farol da Cidadania é a principal iniciativa da Avic e uma das aprovadas no Edital Fundos da Infância e da Adolescência (Edital FIA). O edital é parte do programa IR Cidadão, do Itaú Social, que estimula os colaboradores do Itaú a destinar parte de seu imposto de renda devido aos Fundos da Infância e da Adolescência (FIAs). Já no preenchimento da declaração do imposto de renda, qualquer contribuinte pode destinar até 3% de seu imposto de renda devido aos FIAs, ação que também é incentivada pelo Itaú Social.

Para cumprir sua missão, a Avic estabeleceu parceria com quatro escolas públicas do município, que encaminham para a associação listas de alunos que evadiram, estão com tendência a evadir ou mesmo deixaram de se matricular. Esse processo faz parte do Sistema de Monitoramento de Evasão Escolar, ou Simee. A equipe formada por Elytânya conta com uma assistente social e um técnico de apoio às escolas. Com os dados em mãos, eles vão, pessoalmente, entender os motivos pelos quais esses estudantes não estão indo à escola. São cerca de 60 visitas por semana. “Fazemos um trabalho biopsicossocial. Buscamos entender as dificuldades e limitações das famílias”, diz a psicóloga.

A investigação da equipe já revelou diversos motivos para os casos de evasão escolar: desde situações pontuais, como quando a criança fica doente, até condições mais graves, como trabalho infantil, abandono ou negligência. Por isso, a Avic está articulada com uma rede de atendimento que inclui a Secretaria de Saúde, o Conselho Tutelar e o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) de Coruripe.

As ocorrências mais graves são encaminhadas ao Ministério Público. Em certos casos, o que tira as crianças dos estudos são as condições de extrema pobreza. Além de sentirem fome, algumas não têm roupas ou calçados suficientes para ir às aulas com dignidade. Nesse cenário, a Avic identifica se a família está deixando de receber algum auxílio a que tem direito e fornece orientação. “Muitas vezes, o benefício é negado a essas famílias por vários fatores, como a inexistência de documentos”, diz Elytânya.

A psicóloga Elytânya Vasconcelos, coordenadora do Farol da Cidadania: “Às vezes, apenas uma visita nossa é suficiente para que a criança volte para a escola”. Foto: reprodução Google Meet

Adaptação na pandemia
Com 17 anos de trabalho, a associação é bastante conhecida em Coruripe. “Conseguimos respeito na cidade graças à seriedade na nossa atuação”, diz Elytânia. O olhar para a educação sempre orientou a atuação da Avic, que ganhou reconhecimento já na primeira iniciativa que desenvolveu a partir de 2006, o Adolescer em Harmonia, que oferecia aulas de música no contraturno escolar. Para participar do projeto, o principal critério era estar frequentando a escola. Além de crianças e adolescentes de 10 a 17 anos, alguns adultos também eram contemplados, desde que matriculados na Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Aula de judô: uma das atividades oferecidas no contraturno escolar. Foto: Arquivo Farol da Cidadania

Parte da dinâmica do Farol da Cidadania é inspirada nessa primeira experiência bem-sucedida da associação. No contraturno escolar, matutino e vespertino, são oferecidas aulas de capoeira, judô e dança. A maioria dos alunos vem da busca ativa escolar, realizada pelas visitas da equipe da Avic. Há também os que procuram a associação espontaneamente e são aceitos quando há disponibilidade. Com a pandemia da Covid-19, a oferta de vagas foi reduzida para permitir maior distanciamento entre os participantes.

Humanização
Outra dificuldade trazida pela pandemia foi a paralisação das atividades escolares. Com a implementação gradual do ensino híbrido, a Avic identificou famílias que não possuem acesso à internet ou celulares suficientes. Outras não buscavam o material escolar nas instituições de ensino. Para a associação, esse é um fator de risco. “Há o perigo de a criança evadir por não ter garantido o seu direito de acesso ao material de estudo.” Atualmente, 60 crianças e adolescentes são contemplados com as aulas no contraturno e em torno de 200 são acompanhadas pelo Sistema de Monitoramento de Evasão Escolar.

Cerca de 1.200 famílias já foram atendidas pelo Farol da Cidadania, desde 2016. Esse número, entretanto, pode ser bem maior. Elytânia conta que pequenas intervenções feitas pela Avic — com  impacto na vida dos atendidos — acabam não entrando para as estatísticas. “Às vezes, apenas uma visita nossa é suficiente para que a criança volte para a escola”, diz. A humanização do atendimento às famílias é uma preocupação estendida a toda a rede. Nesse sentido, a Avic oferece formações sobre escuta cuidadosa e identificação de violência. As aulas são destinadas a profissionais de saúde e professores, em turmas mistas. Segundo a coordenadora, essa atividade tem ajudado os professores a intervir de maneira satisfatória. Com a certeza de que o trabalho é contínuo, Elytânia menciona novamente o orgulho de vestir a camisa polo azul bordada e conclui: “Eu gostaria que todos os municípios tivessem uma iniciativa como o Farol da Cidadania para assegurar os direitos da criança e do adolescente, como temos conseguido aqui.”

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