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Dez perguntas para

“É preciso acreditar nas pessoas”

Bailarina e fisioterapeuta que atende pessoas cegas há mais de 20 anos fala sobre empatia e inclusão através da dança


Dez perguntas para
Fernanda Bianchini Saad
Professora, desenvolveu um método próprio de ensino de balé para pessoas cegas, fundadora e voluntária da Associação Fernanda Bianchini

Fernanda Bianchini começou como voluntária, desenvolveu um método próprio de ensino de balé para pessoas cegas, criou uma associação e realiza projetos de inclusão, como o Sementes do Futuro, com escolas públicas de Campinas. Foto: Arquivo pessoal

Por Livia Piccolo, Rede Galápagos, São Paulo

Pessoas com deficiência podem dançar e se apresentar mundo afora, encantando plateias? A depender da iniciativa e entusiasmo da bailarina e fisioterapeuta Fernanda Bianchini Saad, à frente da Associação Fernanda Bianchini, a resposta é sim. Não só podem como, inclusive, já foram. A Companhia Ballet de Cegos rodou o mundo, apresentando-se na Argentina, Inglaterra, Alemanha, Polônia, EUA, México e Chile. Além de em inúmeros espetáculos em diversas cidades brasileiras. A companhia se apresentou nos Jogos Paralímpicos de Londres, em 2012, e dançou ao som de Stevie Wonder em Los Angeles, em 2017.  

Além da manutenção da Companhia Ballet de Cegos, a Associação Fernanda Bianchini atende gratuitamente cerca de 400 alunos de diferentes idades, com diversos tipos de deficiência. O trabalho que começou em 1995 com algumas alunas cegas cresceu e se tornou referência no trabalho de inclusão por meio das artes. Em 2005, Fernanda criou o método pioneiro e único no mundo do ensino de balé clássico para cegos, hoje reconhecido pelo MEC. 

“O ballet clássico para deficientes visuais: método Fernanda Bianchini” foi publicado e patenteado como a sua tese de mestrado em distúrbios do desenvolvimento na Universidade Mackenzie. 

Prestes a concretizar o sonho da sede própria, Fernanda Bianchini comemora: “Teremos cinco andares, incluindo um auditório próprio para nossas apresentações; queremos atender 5 mil alunos”. A profissional fala da importância de procurar a sustentabilidade financeira da associação e, para isso, as apresentações com ingressos na própria sede são um passo importante. Dessa maneira, as ações voluntárias e projetos em outras instituições de ensino podem continuar de pé. Entre eles estão as visitas e os processos de aprendizagem que a associação realiza em escolas de ensino básico e fundamental, como o projeto Sementes do Futuro, em escolas públicas de Campinas (SP). Por meio das aulas de dança e jogos lúdicos oferecidos aos alunos com e sem deficiência, os professores da associação promovem a inclusão e abrem conversas sobre convivência, respeito à diversidade, comprometimento e autoestima. “Acredito muito na força do exemplo e no aprendizado contínuo. Sempre podemos nos desenvolver um pouco mais.”

Na entrevista a seguir, Fernanda Bianchini fala sobre sua trajetória e como encara o trabalho de inclusão das pessoas com deficiência.

Apresentação da Companhia Ballet de Cegos no Festival de Dança de Campos do Jordão, maio de 2022. Foto: Arquivo AFB

NNotícias da Educação — Como o balé clássico entrou na sua vida?

FFernanda Bianchini — Nasci em São Caetano do Sul e lá as escolas desenvolvem muito o lado artístico; há diversas escolas de artes. Quando eu era criança minha mãe me colocou em uma escola de balé para ver se eu gostava. Nunca fui uma superbailarina. Eu era mediana; sempre gostei de dançar e me dedicava bastante, mas nunca fui a prima ballerina. Com 12 anos, disse para minha mãe que eu não gostava mais de balé, fazer o coque no cabelo era chato. Mas meus pais nunca me deixaram começar alguma coisa e parar no meio; tínhamos que ir até o final. Ela disse que faltavam três anos para eu me formar e eu devia continuar. Aos quinze anos, quando então me formei, eu me apaixonei pelo balé e ele se tornou o centro da minha vida. 

NComo começou o trabalho com as pessoas com deficiência visual?

FNa minha família sempre tínhamos que fazer trabalho voluntário. Fui ajudante de Papai Noel e participante de vários projetos sociais. O trabalho voluntário me ajudou a nutrir um olhar amoroso para as pessoas, sempre acreditei nelas. Aos quinze anos, saí de uma aula de balé e visitei o Instituto de Cegos Padre Chico, um lugar onde eu e meus pais trabalhávamos como voluntários. Nesse dia uma irmã me disse: “Você tem uma postura tão boa, não gostaria de vir ensinar balé para as meninas daqui?”. E eu pensei: “Mas não sou boa nem para mim, como vou ensinar outras pessoas?”. Eu me considerava insegura e incapaz de ser professora, de começar um trabalho tão especial. E foi então que meus pais falaram as palavras mais sábias que escutei na vida: “Filha, nunca fale não para um desafio, deles é que saem os maiores aprendizados”. Respondi para a irmã que na segunda-feira seguinte eu começaria. Mas eu não tinha ideia do que fazer.

“Não se trata só da dança, mas da construção diária da autoestima e da confiança de cada uma delas.”

NO que você fez nas primeiras aulas com as alunas cegas, sendo uma professora tão nova?

FPedi ajuda para minhas professoras de balé. Hoje elas me apoiam, mas na época achavam balé para cegos algo totalmente impossível. Fui dar a primeira aula imaginando que as alunas estariam prontas, de meia-calça, sapatilha, coque. E quando cheguei elas estavam em uma sala meio escura, de calça jeans, cabelo solto. E eu fui toda arrumada e maquiada. “Vocês que vão fazer balé?”, perguntei, meio decepcionada. E elas responderam sim, além de três perguntas: quem é você, cadê você e o que é balé? Quando elas começaram a me tocar, perceber meu corpo, sentir o collant e a meia-calça, eu me dei conta de que elas de fato não me enxergavam. No começo eu não ensinei o balé propriamente dito, mas sim noções do corpo no espaço. Elas pareciam bonecas de porcelana que iam quebrar, não tinham noção dos movimentos que o corpo poderia realizar. Pareciam robozinhos. Comecei pela expressão corporal. Cheguei em casa e pedi ao meu pai para comprar sapatilha, collant e meia calça para todo mundo. Eram meninas muito carentes. Sempre fui de classe média e meus pais me ajudaram e apoiaram muito. Minha história não aconteceria sem o apoio da minha família e, depois, do meu marido.

Fernanda Bianchini ensina o método para as alunas. Foto: Arquivo AFB

NVocê foi descobrindo o método de ensino na prática?

FSim, totalmente. Quando elas vestiram a roupa do balé ganhamos ânimo. Faz diferença chegar à aula toda paramentada, e não de calça jeans. Fui ensinar então o échappé sauté, o “escapar saltando” em português, um passo importante do balé. Para deixar o processo de aprendizagem mais simples, falei para elas imaginarem que estavam saltando dentro de um balde e fora dele; queria que elas entendessem a altura do salto. Uma aluna levantou a mão e perguntou o que era um balde. Nesse momento eu entendi o quanto eu precisava entrar no mundo da pessoa com deficiência visual, suas dificuldades, para que só depois eu pudesse apresentar o meu mundo da dança. E foi essa troca de mundos que fez nascer uma metodologia única. Hoje estamos em seis capitais brasileiras e em outros países como Polônia, EUA, Argentina, Portugal e Austrália.

NComo o método funciona?

FEle é fundamentado no toque e na percepção corporal. Elas vão tocando meu corpo e o dos professores, sentindo os movimentos, e, depois, reproduzindo no próprio corpo. Para aprenderem os saltos, nós deitamos no chão. Ou então os professores carregam as alunas e alunos para eles entenderem o que é a ponta do pé esticada, por exemplo. Em determinado momento eu pensei em desistir. Isso porque elas dançavam e faziam os movimentos das pernas perfeitamente, mas os braços não funcionavam. Elas não entendiam a leveza que a bailarina precisa ter para movimentar os braços. Então eu montava coreografia com mão na cintura, mão na saia, para não precisar usar os braços. Elas não eram bailarinas completas, e eu achava que nunca conseguiria ensinar o movimento certo dos braços. E isso para mim era bem importante porque as pessoas assistiam aos espetáculos e falavam: “Nossa, que bonito, balé de cegos, elas dançam com as pernas”, como se fosse algo menor. Naquela época, qualquer coisa que você fizesse com as pessoas com deficiência já estava bom. Ninguém procurava excelência nos projetos. As pessoas assistiam, choravam, mas não tinham expectativa de ver algo realmente bem-acabado. E eu sempre fui muito caprichosa, organizada. Conforme observava o rendimento das meninas, levava mais desafios; acredito que todos nós sempre podemos melhorar. Sempre quero desenvolver um pouco mais. E não se trata só da dança, mas da construção diária da autoestima e da confiança de cada uma delas.

NE qual foi a solução para ensinar os braços?

FEm uma semana em que estava particularmente angustiada, sonhei que eu dançava e não tinha braços, que meus braços eram duas folhas de palmeira. E quando você observa o vento batendo na folha de palmeira, percebe que ela se movimenta com delicadeza. Esse é exatamente o movimento que a bailarina faz com os braços quando dança. Eu poderia ter acordado aflita, falando: “Mas que sonho doido, será que vou perder os braços?”. Mas entendi o recado: quando eu conectei a folha de palmeira ao braço delas, elas entenderam que o movimento não podia ser brusco, tinham que abraçar e alongar a folha. A partir daí elas se tornaram bailarinas muito mais completas. Esse é o método. Eu não consigo estar em todos os lugares do mundo, então ensino pessoas que querem ensinar pessoas com deficiência. E pessoas sem deficiência também. Hoje, várias companhias profissionais me procuram para eu ensinar esse novo olhar para a dança. É muito interessante ver os movimentos que um bailarino profissional consegue desenvolver quando senta em uma cadeira de rodas ou é vendado, por exemplo.

Aprendizagem do movimento dos braços, a partir de uma folha de palmeira. Foto: Arquivo AFB

NSua formação como fisioterapeuta contribuiu para o balé de cegos?

FCom certeza. Fiz faculdade de fisioterapia porque desejava buscar na ciência aquilo que dava certo e o que dava errado. Uma vez uma aluna caiu do palco. Isso porque em um ensaio ela virou o corpo e eu disse: “Vem para trás!”. Eu estava no fundo do palco. E ela foi para trás, mas o referencial dela era outro. O referencial da pessoa vidente é diferente daquele da pessoa cega. Hoje eu digo: “Vira o corpo para a direita e vem para trás”. Tudo isso eu aprendi estudando fisioterapia, pesquisando na ciência. Tenho um livro publicado sobre o método; foi minha dissertação de mestrado, publicada e patenteada em janeiro de 2005. Com a publicação do livro é mais fácil levar a metodologia. Proponho práticas simples de serem feitas, por exemplo descobrir o equilíbrio com um copo de água na cabeça. São práticas simples, é possível fazê-las em qualquer lugar. São criatividades que foram surgindo ao longo dos anos e fui testando. Quando comecei, eu não imaginava que formaria o único grupo de balé de cegos do mundo. Nunca imaginei que ele seria o que se tornou.

NComo é o trabalho de inclusão da Associação Fernanda Bianchini hoje?

FNa companhia de balé alguns entram, outros se aposentam e saem. Hoje são 16 bailarinos ao todo. É a única companhia de balé de cegos do mundo e somos profissionalizados. Os bailarinos são remunerados e eles participam de palestras motivacionais que dou nas empresas; faço questão de que eles estejam presentes, construímos a história juntos. Nos últimos anos percebi que a associação se tornou uma referência; as pessoas procuravam também aulas de teatro, não só balé. Hoje são 400 alunos, da primeira infância à terceira idade, aprendendo gratuitamente balé clássico, sapateado, dança de salão, expressão corporal. Também cuidamos das mães e pais das crianças e jovens com aulas de pilates e com fisioterapia. Temos uma companhia sobre rodas, uma companhia de teatro e uma companhia de trovadores mirins que se apresenta em asilos e presídios. E também temos uma plataforma EAD, totalmente gratuita, na qual ensinamos a metodologia para ser aplicada. Acredito que a inclusão, para acontecer, se dá em duas frentes. As pessoas precisam respeitar, valorizar e dar oportunidades iguais para todos. E também precisamos das leis que amparam a inclusão. Tenho um amor genuíno pelo que faço e cada vez me desafio mais. Neste ano vou montar um grupo infantojuvenil.  

Apresentação com a bailarina Ana Botafogo, em 2009. Foto: Arquivo AFB

NA plataforma de ensino à distância surgiu na pandemia?

FSim. Na pandemia, como tanta gente, nós tivemos que nos reinventar. Fui para minha casa de campo em Itu, no estado de São Paulo, olhava o verde e pensava: “O que eu vou fazer?”. Comecei a colocar tapetes no jardim e fazer aulas remotas. Pedia que os alunos pegassem o que eles tinham em casa: cabo de vassoura, baldes, objetos do dia a dia. E foi assim que surgiu a plataforma de ensino à distância. Meus filhos me ajudaram a posicionar a câmera, eu fazia roteiros para cada aula. Como fisioterapeuta, falo da importância da atividade física e da respiração. A plataforma EAD era um sonho e estava no papel, mas eu não tinha tempo para colocar em prática. Trabalhamos muito e deu certo. 

Espetáculo A bela adormecida, no Theatro São Pedro, em 2012. Foto Arquivo AFB

NEm sua opinião, quais são os principais desafios para inclusão das pessoas com deficiência?

FAcredito que o exemplo constrói. O trabalho de inclusão que faço não é dedo na cara; falo de amor, de se colocar no lugar do outro e de espalhar a informação. Uma vez conversei com um empresário formado na Harvard que não sabia por que a pessoa com deficiência visual fica parada no semáforo. Eu expliquei que a pessoa está esperando que alguém a ajude a atravessar a rua. Falei sobre a importância dos semáforos sonoros. Essa pessoa, formada em uma das melhores universidades do mundo, não tinha essa informação básica. Temos o dever de espalhar a informação e de falar sobre inclusão nas interações sociais. Frequentemente alguma aluna ou aluno da associação sofre bullying na escola por causa da deficiência física. Nós fazemos então, gratuitamente, uma visita à escola. Montamos uma coreografia para ela se apresentar diante dos colegas. E então perguntamos: “Vocês conseguem fazer o que ela faz, conseguem dançar na cadeira de rodas?”. Eles passam a vê-la como uma artista, e não como alguém que não anda. Acredito muito no exemplo e na troca. E a sociedade como um todo precisa apoiar as iniciativas. Não é fácil ter uma organização não governamental no Brasil; estamos em um período difícil de captação. As doações e patrocínios precisam acontecer para que o trabalho continue.

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