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Crianças e a introdução ao mundo letrado

Educadores de Suzano (SP) utilizam solução educacional com foco em cultura escrita na educação infantil para apoiar o processo de planejamento e reflexão do tema


“Mar de livros”, atividade que busca garantir que as crianças saibam escolher o livro que desejam ler em casa com familiares: conteúdo da tecnologia educacional Experiências formativas em cultura escrita com crianças de 4 a 6 anos. Foto: imagem de vídeo do site Melhoria da Educação

Por Maggi Krause, Rede Galápagos, São Paulo

Durante uma roda de conversa numa escola de Suzano (SP), a turma da professora Doris descobriu que o nome do Murilo era com M porque todos os irmãos também tinham nomes começando com essa letra, que o pai do Maycon era fã do Michael Jackson e que o da Kyara gostou do som do nome da personagem do filme Rei Leão. Essa forma de trabalhar os nomes próprios no primeiro ano foi uma atividade levada à rede pública pelo Instituto Avisa Lá, que desenvolveu e testou, em conjunto com o município, a tecnologia educacional Experiências formativas em cultura escrita com crianças de 4 a 6 anos, disponível para educadores e gestores no site Melhoria da Educação. 

Os nomes são uma escrita cheia de significado para as crianças. “O nome é um texto, e a informação que ele comunica é a própria criança, o próprio ser que ele representa… o nome é livre de contextos e não possibilita a ambiguidade de significado”, explica Dami Cunha, formadora do Avisa Lá, em um vídeo do módulo 1 — Identidades e Nomes Próprios. O percurso de aprendizagem para apoiar a formação continuada coletiva nas escolas inclui 3 guias orientadores, 21 vídeos, 18 pautas formativas e 18 trilhas de monitoramento. 

A professora Carolina Barros Jatczak, que em 2019 atuava como coordenadora na Escola Municipal de Ensino Infantil e Ensino Fundamental (Emeif) Oscar de Almeida Redondo, explica que as pautas formativas entregam um material que trata de assuntos complexos na educação infantil. “Eu não sabia como chegar às professoras para começar uma mudança. Com o suporte e propostas, tive segurança e entendi o que tinha que mudar.” Carolina percebeu que faltavam reflexões sobre as vivências e compreensão sobre a construção do conhecimento pelas crianças. Ter em mãos um material fundamentado, organizado e que otimiza o tempo dos estudos fez diferença. 

“Na época, chamou minha atenção uma professora de uma turma de cinco anos. Ela tinha até um caderninho de atividades para a letra A, para a letra B, e assim por diante, e exigia o preenchimento dessas atividades perfeitamente, dentro da expectativa dela, e julgava as crianças que não entendiam ou eram ‘lentas’”, relembra Carol. Depois das discussões e reflexões, a professora reviu sua prática e até a forma de encarar o processo, percebendo que o que precisava era trazer boas propostas para as crianças aprenderem do jeito delas. “Existe muita diferença entre quem é a professora que se formou há 25, 30 anos e quem está se formando agora. As mais experientes precisam desconstruir o que repetem há anos; algumas ainda acham que memorização é suficiente”, nota Carol, que atuava com 18 professoras, responsáveis por 480 alunos da educação infantil. Mesmo que tenha aprendido sobre processos cognitivos na faculdade, ela ressalta que ainda sabe pouco da prática.   

É para criar oportunidades de mudar esse cenário que o Itaú Social desenvolveu a tecnologia educacional. “Ela é uma forma de investir na formação dos professores para que favoreçam o processo de alfabetização por meio de propostas mais instigantes e significativas para as crianças, planejando as intervenções de acordo com suas necessidades, considerando suas experiências de vida e o que já sabem sobre a linguagem escrita, leitura e oralidade”, explica Sonia Dias, coordenadora de implementação municipal do Itaú Social. A ideia não é ferir a identidade da educação infantil (que não tem como propósito alfabetizar), mas sim buscar uma continuidade das investigações das crianças sobre a língua, iniciadas muito cedo, e um processo de transição mais favorável às aprendizagens das crianças. Além do módulo 1, Identidades e Nomes Próprios, a tecnologia educacional oferece dois outros módulos: Brincar, Ler e Escrever; e Apropriações Literárias. 

O trabalho com a lista de nomes, tão comum na educação infantil, foi objeto de estudo e de novas práticas nas formações do Instituto Avisa Lá em duas escolas-piloto na rede pública de Suzano (SP).  Fotos: imagem de vídeo do site Melhoria da Educação

Detalhes que fazem muita diferença

Dicas de Carolina Barros Jatczak, professora na educação infantil em Suzano

Parte das professoras, modelando convenções anteriores, considera que colocar o alfabeto acima da lousa e os numerais à vista é suficiente para proporcionar um ambiente de aprendizado. Também costumam organizar esteticamente a lista de nomes, sem refletir sobre detalhes que podem auxiliar nos processos cognitivos das crianças. Alinhar todos pelo lado esquerdo ajuda a identificar quais são os nomes maiores, compostos de mais letras. A maneira como as crianças têm de fazer relações nunca cessa. Por esse motivo, levar conteúdo é bem menos interessante do que propor oportunidades de experimentação e vivências. 

Outra ideia equivocada: a de que organizar uma roda, sentar e ler um livro para a turma garante a aproximação com a literatura. É preciso oferecer um ambiente de acesso aos livros e dar tempo para que as crianças possam escolher, se encantar, folhear, observar e recontar oralmente as histórias. Os professores podem e devem aprender como proporcionar uma inserção significativa e prazerosa no mundo letrado. 

“Observando não apenas na rede de Suzano, mas também em outros municípios, percebemos que as atividades planejadas para as crianças de quatro, cinco e seis anos eram muito parecidas”, conta Ana Carolina Carvalho, formadora do Avisa Lá, que há muitos anos atua na área de cultura escrita. Esse dado motivou a produção de vídeos que servissem de inspiração para o trabalho com as três faixas etárias, pois os conhecimentos e o desenvolvimento da aprendizagem são diferentes. Esses vídeos levam ao coração das formações: a chamada tematização da prática. “O objetivo é apresentar um bom modelo de prática, ao qual as professoras assistem e a partir dele refletem sobre como a atividade foi planejada, o que as crianças aprenderam e por que as intervenções foram eficazes para o avanço da turma”, explica a formadora. 

Escutar para reconhecer os saberes das crianças
O Instituto Avisa Lá propõe um jeito de trabalhar que privilegia a escuta atenta e a observação das crianças. “Isso ainda é um desafio, pois esbarra na formação do professor e na experiência que ele teve com a escola. E tradicionalmente a escola pouco ouvia as crianças, era mais transmissiva…”, diz Ana Carolina. A mudança de foco é reconhecer que as crianças também têm conhecimento e coisas a dizer. Em geral, as professoras se surpreendem quando começam a ouvir mais as crianças: “Nossa, como elas sabem!” ou “Elas são tão inteligentes; eu nem fazia ideia!”. 

“O mais difícil, por incrível que pareça, é mudar a concepção sobre o que pode uma criança pequena. Existe um preconceito social e racial arraigado”, ressalta Silvia Pereira de Carvalho, coordenadora executiva do Instituto Avisa Lá. Segundo ela, uma das ferramentas mais poderosas da tecnologia educacional é a análise coletiva dos vídeos, ponto de partida das pautas. Sem as atividades com os alunos, e a reflexão sobre o que é preciso melhorar na prática, não existe formação. “Também são importantes as trilhas de monitoramento, para que o diretor, o coordenador pedagógico e a equipe técnica da secretaria possam acompanhar se as propostas da tecnologia educacional estão sendo desenvolvidas nas escolas”, completa. 

A tecnologia educacional se divide em três módulos: Identidades e Nomes Próprios; Brincar, Ler e Escrever; e Apropriações Literárias. A brincadeira é um dos eixos estruturantes da educação infantil e conta com tempo e espaços garantidos nas escolas de Suzano (SP).  Fotos: imagens de vídeo do site Melhoria da Educação

Secretário municipal de Educação de Suzano, Leandro Bassini conta que antes da chegada do Avisa Lá, havia na secretaria uma cultura preconceituosa de que o mundo da escrita e da sistematização não deveria fazer parte da pré-escola. “A maior contribuição da tecnologia foi quebrar essa amarra. Inserimos a leitura e a escrita, mas respeitando o espaço da brincadeira e da interação”, explica ele. Leandro se orgulha da participação de Suzano na co-construção da tecnologia, pois os técnicos se posicionaram e debateram as pautas até chegarem ao resultado incorporando práticas e vivências dos profissionais da rede. O município tem quase 14 mil alunos de zero a 5 anos e conta com 600 professores (entre estes, 120 são de artes ou de educação física). Uma das mudanças cruciais das formações foi entender a necessidade de ter coordenador pedagógico em todas as escolas. No início, em 2019, quando duas escolas focais participavam do piloto da tecnologia educacional, havia apenas duas escolas com coordenadoras pedagógicas. Hoje há coordenadoras na maioria das unidades.   

Maria Lúcia Moreira de Azevedo Garijo, assistente técnica da educação infantil na Secretaria Municipal de Educação de Suzano, explica que existe uma preocupação com a transição dessa etapa para o ensino fundamental. “Cuidamos para que essa transição não deixe marcas, não seja abrupta e sabemos que faz muita diferença quando essa mudança é bem-feita.” No retorno após a pandemia, Maria Lúcia percebe o quanto as crianças foram afetadas, pois ficaram longe de um cotidiano de interação e de brincadeiras na escola… Agora, há crianças chegando ao primeiro ano que ficaram sem toda a vivência da pré-escola. “Em nossa reunião semanal, fiquei feliz quando uma professora disse que iria trabalhar as pautas do programa Melhoria da Educação. Trazer o nome próprio para o primeiro ano foi o caminho que ela achou para resgatar o contato da turma com a escrita. Para mim, isso mostra o quanto a iniciativa é relevante.” Enquanto a formação continuada e as aprendizagens continuam a ser desdobradas nas outras 17 escolas em Suzano, o Avisa Lá chega com o Melhoria da Educação a um conjunto de municípios do litoral catarinense. Mesmo quem acessa o material da tecnologia educacional pelo site precisa considerar que as formações são centradas na prática. “Pensamos em um material que aposta na capacidade das crianças e que auxilie coordenadores e diretores a apoiar o professor. Se ele não tiver elementos que o ajudem a rever e aprimorar suas práticas, nada vai mudar na educação”, reforça a formadora Ana Carolina.  

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