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No retorno às aulas presenciais, uma tecnologia educacional apoia professores e gestores na hora de reconectar os estudantes ao conhecimento e à escola


Alunas de escola pública em registro pré-pandemia: tecnologia educacional apoia professores, gestores e equipes técnicas da Secretaria de Educação dos municípios a acompanhar aprendizagens dos estudantes. Foto: Manuela Cavadas

Por Maggi Krause, Rede Galápagos, São Paulo

Tempo, tempo mano velho, falta um tanto ainda eu sei
Pra você correr macio…

A letra da música da banda Pato Fu parece abarcar a situação de muitas pessoas envolvidas com a gestão escolar nos mais de 5.500 municípios brasileiros. De um lado, a situação de pandemia persiste, trazendo incertezas e protocolos na abertura das escolas; de outro, após muitos meses sem receber os estudantes de forma presencial, é preciso correr para cuidar da volta de todos e recuperar as aprendizagens. Mas, mesmo sendo latente a sensação de que falta um tanto para que a rotina entre nos eixos, tudo começa pela boa gestão do tempo, das equipes escolares e das estratégias pedagógicas. “Recebemos 50% dos estudantes em um dia, os outros 50% no outro e planejamos recuperar as aprendizagens dentro do horário de aula. Repensamos o uso dos espaços, como vai funcionar a recuperação contínua e a paralela, e qual o perfil do professor para fazer a recuperação”, explica Margarete Zampieri, diretora da Escola Heitor Villa Lobos, em Itapevi, região metropolitana de São Paulo, que conta com 878 alunos e atende da pré-escola até o 5º ano. Ela diz que há muitos alunos não alfabetizados, por isso destacará professores alfabetizadores para acompanhar quem está com dificuldades.  

Margarete participou, de 2019 até o início de 2021, de uma formação da Comunidade Educativa Cedac que teve por objetivo construir, em conjunto com os profissionais da rede de educação de Itapevi, a tecnologia educacional Gestão do Acompanhamento das Aprendizagens, disponível no site Melhoria da Educação, do Itaú Social. “Antes eu vivia apagando incêndios na escola e ficava ausente do pedagógico. Hoje, faço reuniões de alinhamento com funcionários, analiso registros dos professores, aprendi a planejar a rotina e reservar um tempo para estudos da equipe gestora. E ainda caminho pela escola seguindo um protocolo de observação”, conta a diretora, que já tinha oito anos de experiência como vice em outra unidade. Em Itapevi foram selecionadas duplas gestoras (o diretor e o coordenador pedagógico) das 16 escolas com os resultados mais baixos do município para participar de encontros formativos. “Comecei a provocar a minha equipe, junto com a coordenadora, para analisar quantos e quem eram os alunos que apresentaram dificuldade de aprendizagem, a discutir seu perfil e como ajudá-los.” 

Multiplicar conhecimentos e derrubar barreiras
Duas supervisoras da rede de educação de Itapevi, Adriana Ferreira e Patrícia Peci, atuaram em conjunto com a instituição CE Cedac como técnicas formadoras das duplas gestoras, discutindo as diferentes estratégias de acompanhamento das aprendizagens, inclusive a realização de diagnósticos, além do planejamento do apoio aos alunos. “Nosso objetivo foi multiplicar essa formação pelas 67 escolas, por isso trocamos informações, descrevemos situações com exemplos, organizamos dados em gráficos”, conta Patrícia, que atua na supervisão há sete anos, mas já foi coordenadora pedagógica, vice e diretora. Segundo ela, a grande troca de experiências permitiu mapear a educação do município. As dez supervisoras de Itapevi acompanharam a construção de outras tecnologias educacionais do programa Melhoria da Educação, como a de gestão inclusiva e a de equidade racial.“A participação no programa estreitou laços entre setores da secretaria, nos fez construir parcerias com as escolas, aproximou gestores da comunidade escolar. A formação teve foco em garantir a aprendizagem de qualidade, mas também estimulou uma atuação conjunta que nos fortaleceu. Quem saiu ganhando foram os alunos”, resume Patrícia.

Márcia Cristina da Silva, da equipe pedagógica da CE Cedac, responsável pelas formações dessa tecnologia educacional, notou mais integração entre os setores de supervisão e de formação, dentro da secretaria. O setor de supervisão faz acompanhamento periódico das escolas nos processos pedagógicos e administrativos, verifica os vínculos com a comunidade escolar e os resultados de aprendizagem. “Além de estabelecerem uma agenda de encontros, aconteceu uma coisa simbólica: no lugar onde trabalham, derrubaram as divisórias físicas entre os dois setores.” Segundo Márcia, um bom supervisor precisa estar afinado com a equipe de formação, pois é ele quem faz a interlocução entre a secretaria, suas políticas e as escolas. “Ele ou ela deve coletar informações relevantes nas escolas para serem discutidas junto com quem planeja as formações da rede”, completa.

No longo prazo, reduzir desigualdades

A tecnologia educacional Gestão do Acompanhamento das Aprendizagens é destinada às equipes técnicas da Secretaria de Educação e às duplas gestoras nas escolas: diretora ou diretor e coordenadora ou coordenador. Os resultados esperados são:

Curto prazo
Formar profissionais da rede e equipe escolar nos processos de acompanhamento das aprendizagens. Dar atenção especial aos que apresentam dificuldades.

Médio prazo
Adotar decisões contextualizadas e assertivas para a melhoria do acompanhamento das aprendizagens na comunidade escolar pela equipe, gestão, dupla gestora e profissionais apropriados. 

Longo prazo
Contribuir para a redução da desigualdade na aprendizagem a partir de processos de acompanhamento das aprendizagens incorporados à rotina da secretaria, apoio às duplas gestoras e ao corpo docente. 

Rede de confiança entre educadores
No Centro Municipal de Educação Básica Professor Jossei Toda, onde estudam 480 crianças e adolescentes até o 5º ano, a equipe docente tinha certa resistência em fazer formação continuada. “Insistia com os professores que o aluno de ontem não é o de hoje. É preciso estudar para rever práticas que não são compatíveis com as do século 21”, relata Marilene Muniz Brito Vieira, uma maranhense que desde 1994 trabalha na educação municipal de Itapevi e há treze anos atua como diretora em escolas da rede. “Repito uma fala da professora Magda Soares, que diz que fracasso gera fracasso, e isso acontece quando quem está ensinando não leva em consideração a real necessidade da criança”, diz Mari, como é conhecida pelos colegas.

É essa a proposta da tecnologia educacional Gestão do Acompanhamento das Aprendizagens, que inclui a observação dos estudantes como ponto de partida para que os professores consigam adaptar estratégias para as diferentes necessidades de aprendizagem. “Nesta tecnologia educacional, procuramos fortalecer os mecanismos de supervisão escolar e apoiar os profissionais da rede na elaboração e construção, de maneira autônoma, de seu próprio processo de acompanhamento das aprendizagens, para que as diferentes instâncias da gestão educacional se apropriem dessa prática”, explica Sonia Dias, coordenadora de Implementação Municipal do Itaú Social. Segundo ela, bons instrumentos de acompanhamento e fluxos sistêmicos e regulares envolvendo professores, coordenadores, diretores e equipe da secretaria impactam positivamente na aprendizagem dos estudantes. 

A tecnologia está disponível online. As equipes podem seguir os passos da formação de maneira completamente autônoma. “O grande desafio é conseguir alcançar a equidade dentro de uma rede de educação, pois quando analisamos os dados, em geral, há três ou quatro escolas com Ideb* bom, uma parte na média e muitas outras com questões a resolver”, comenta Tereza Perez, diretora executiva da CE Cedac. Ela considera o momento pós-pandemia propício para colocar em funcionamento a gestão do acompanhamento das aprendizagens. O percurso formativo abre o horizonte para a avaliação, o clima escolar, as interações, a forma como se capta o que crianças e professores já sabem e o que as avaliações não identificam. “Existem muita reflexão e provocação na tecnologia, além de um grau maior de complexidade, que considera, por exemplo, o contexto global, a educação integral e as questões étnico-raciais”, explica Tereza. O que aconteceu na prática em Itapevi foi o estímulo à aprendizagem entre iguais e às trocas de conhecimentos (entre professores, coordenadores, diretores), além do apoio aos formadores locais, para que agora deem continuidade ao projeto. “Criou-se uma rede de confiança e de admiração entre os profissionais da educação”, notou Márcia Cristina. E, mesmo que ainda não se saiba o impacto das mudanças na aprendizagem, as práticas renovadas e o interesse em apoiar os alunos indicam que os avanços vêm por aí. É apenas uma questão de tempo. 

*Criado em 2007, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) é uma das primeiras iniciativas de âmbito nacional para medir a qualidade do aprendizado e estabelecer metas para a melhoria do ensino para cada uma das escolas e também para os municípios, estados e para a federação.

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