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Dez perguntas para

“Como educador, tenho o dever da esperança”

Precursor da literatura indígena no país, o escritor defende a ideia de que o Brasil precisa com urgência de um plano de desenvolvimento inclusivo e um método pedagógico que considere os saberes ancestrais


Dez perguntas para
Daniel Munduruku
Escritor nascido em Belém (PA), com mais de 50 livros publicados, professor, filho do povo Indígena Munduruku. Formado em filosofia, com licenciatura em história e psicologia

Daniel Munduruku: “Eu sou um professor, e um educador não desiste”. Foto: Arquivo pessoal

Por Maria Lígia Pagenotto, Rede Galápagos

O escritor e professor Daniel Munduruku esteve recentemente cotado para ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Com mais de 50 livros publicados, na maioria voltados para o público infantojuvenil, seria o primeiro indígena a fazer parte do quadro da tradicional instituição. Às vésperas da decisão, que não o contemplou, ele concedeu esta entrevista, na qual fala sobre os significados da indicação e da sua participação como finalista no prêmio literário Jabuti. Sua escrita, precursora ao tratar da temática indígena para jovens, abriu caminhos para muitos outros escritores, que, como ele diz, trabalham de forma engajada, comprometidos com a mudança social.

A consolidação de uma literatura indígena feita por indígenas é, na sua visão, o caminho mais certeiro para criar uma consciência crítica a respeito de como os povos originários vêm sendo tratados e retratados ao longo da história do país, com impacto em toda a sociedade. Dentro dessa perspectiva, Munduruku integra a série Jenipapos: Rede de Saberes, encontros que têm por objetivo oferecer oficinas de formação sobre a temática para educadores de organizações apoiadas pelo Itaú Social. O projeto é uma parceria do Itaú Social com a Mina Comunicação e Arte e contou também com a participação da mestra Dona Liça Pataxoop e o autor indígena Yaguarê Yamã, que teve o livro “Os olhos do Jaguar” selecionado no Edital Leia para uma Criança 2021.

Capa de A palavra do Grande Chefe (Global Editora, 2008): uma das capas selecionadas para ilustrar esta entrevista, entre dezenas de títulos escritos por Daniel Munduruku. Foto: reprodução

NNotícias da Educação — Há muitos anos você luta para fomentar a literatura indígena no país e agora colabora com o programa Leia para uma Criança, que trabalha nessa perspectiva. Como você avalia essa iniciativa?

DDaniel Munduruku — Eu vejo com muito bons olhos propostas como essa, realizadas por entidades da sociedade civil que fogem um pouco à própria dinâmica do governo brasileiro. Eu enxergo a sociedade civil como uma espécie de termômetro para avaliar em qual grau de necessidade nós estamos inseridos, para a gente poder perceber como a sociedade brasileira tem mudado. Então quando eu vejo essa iniciativa, de fazer o edital Leia para uma Criança, por exemplo, imediatamente me vem à mente que nós não temos uma política de leitura para as nossas crianças, não temos uma política de educação que privilegia a formação da consciência crítica, da consciência cidadã das nossas crianças. Ou seja, nós não temos um país que de fato esteja desejando e querendo que o Brasil avance e se coloque na situação e na posição em que merece estar.

NVocê também integra a área de formação de educadores, da série Jenipapos. Como tem sido esse trabalho?

DA gente tem procurado dar um olhar de maior representatividade para as culturas indígenas, trazendo um pouco para o centro do debate os saberes e a pedagogia indígena, para que a gente veja que é possível fazer uma interlocução, criar uma ponte entre os diferentes saberes. Essa tem sido a base da nossa curadoria — que é realizada por um trio, e contou com a participação  da mestra Dona Liça Pataxoop e o professor e escritor Yaguarê Yamã nos encontros. Queremos mostrar que é possível, sim, construir uma educação transformadora. O Itaú Social tem uma preocupação muito grande na formação das crianças, e isso para mim tem sido uma experiência muito importante e gratificante.

“O que transforma o mundo não é a economia. As pessoas transformam o mundo e a economia tem de estar a serviço das pessoas, e não o contrário.”

NComo escritor e educador você está há muitos anos já nessa nessa luta de trazer esses saberes e essa diversidade para a sociedade. Como é que você avalia essa questão hoje? Houve avanços importantes ao longo do tempo?

DEu acho que houve um avanço maior nos últimos 20 anos, pensando desde os anos 1990 até recentemente. O que aconteceu agora é que houve uma quebra dessa tentativa de libertar o Brasil das amarras de uma educação alienadora. Houve uma ruptura ali a partir de 2016, em que se foi criando toda uma dificuldade de ter realmente uma interlocução com a sociedade. O que nós vimos foi justamente uma ruptura com as políticas públicas, que iam sendo levadas a efeito, considerando as populações indígenas e conseguindo dar uma resposta inovadora e criativa para nosso sistema educacional brasileiro.

NNesse sentido, as formações das quais você tem participado podem contribuir para mudar esse quadro?

DBem, eu sou um professor, e um educador não desiste. Eu vejo uma destruição na educação, mas como educador tenho o dever da esperança e estou acreditando constantemente que todas as ações que a gente fizer serão sempre positivas, afirmativas, conduzidas de tal modo que a gente consiga reverter esse quadro de abandono que há na sociedade brasileira. Formar contadores de histórias, por exemplo, faz diferença. A gente vive num mundo que privilegia a economia apenas, mas o que transforma o mundo não é a economia. A economia é um elemento importante disso, mas as pessoas transformam o mundo e a economia tem de estar a serviço das pessoas, e não o contrário. Parceiros, como o Itaú Social, têm se ocupado de olhar para as questões das minorias. E é fundamental esse trabalho, ainda que não atinja a todos. A minha visão é de que tudo o que a gente faz tem um objetivo, um propósito, e não atingimos todo mundo com quem a gente fala, mas, atingindo 10%, esses serão os aliados para essa causa que é a causa de todo brasileiro.

“Há um longo caminho a ser percorrido, pois o Brasil não conhece o Brasil. Mas temos que esperançar, como diria Paulo Freire, e não esperar.”

NVocê já disse que no Brasil existe uma visão muito romantizada ou ideologizada do indígena, indo de um extremo a outro. Ao longo dos anos, com seu trabalho como educador, apresentando a literatura de origem ancestral, você acha que houve uma mudança nessa forma de ver o indígena?

DSim, com certeza. Mas ainda há um longo caminho a ser percorrido, pois o Brasil não conhece o Brasil. Mas temos que esperançar, como diria Paulo Freire, e não esperar. Existe um problema muito sério que é justamente o da deseducação, que faz com que as pessoas continuem com a sua visão equivocada e estereotipada do indígena. A gente tem que pensar numa educação libertadora, como disse Paulo Freire. Quando a gente diz que vive numa democracia, que é realizada pelo voto, a gente sabe que isso é apenas um momento na vida das pessoas. O que vem antes do voto e depois é o que faz a diferença. Se a gente educa as crianças para poderem escolher de verdade, a gente constrói um modelo novo de educação e faz um novo paradigma de transmissão de conhecimento, que valoriza a nossa riqueza nacional.

NVocê abriu muitos caminhos para a literatura indígena no Brasil, escrevendo basicamente para o público infantojuvenil. De que modo você acha que isso pode contribuir para um país menos desigual e com menos problemas sociais e ambientais?

DMesmo fazendo parte da construção da identidade nacional, desde sempre, nossas vozes foram silenciadas. Temos mudado isso com a literatura, que é militância, com certeza, mas o que precisamos de fato para o país é de um projeto nacional de desenvolvimento. A gente precisa de um plano que tenha começo, meio e fim e precisamos de uma liderança que seja capaz de levar à frente esse projeto. Na realidade, o Brasil nunca teve um método pedagógico que levasse em consideração os saberes ancestrais. Precisamos motivar os nossos políticos para que isso seja pensado. Se a gente não fizer isso, o que será de nós? Eu acredito mesmo que a única forma de o país mudar, de a gente fazer a revolução necessária, é querer construir esse projeto nacional de desenvolvimento, que leve em conta a questão ambiental da sustentabilidade, a questão econômica, a questão social, a questão cultural — que leve em consideração isso que forma o país como um todo. 

NE quando você sentiu necessidade de produzir esse tipo de literatura, focado na juventude? Como foi esse caminho?

DMinha produção é voltada para crianças desde sua primeira infância, crianças maiores, adolescentes e até adultos. Mas o foco permanente é mesmo os mais jovens, justamente porque a minha ideia sempre foi desentortar pensamentos. Então isso tem que começar lá na infância e o mais cedo possível. Fui o primeiro indígena a escrever para crianças não indígenas, livros que tinham um peso mais didático do que literário no início, embora eu também tenha escrito muitos paradidáticos. Sobre o caminho, fui tateando. Eu me tornei professor, educador, e fui criando assim, digamos, um olhar para isso, para ver quais eram as principais necessidades das crianças. E fui descobrindo aos pouquinhos que na verdade era uma necessidade total. Não havia nada ainda que tivesse sido feito para acabar com esse preconceito numa linguagem que elas pudessem entender. E eu, que já me considerava um contador de histórias, fui percebendo algumas brechas para entrar por essa área, porque fui descobrindo que para mim também era fácil escrever. Fui me estabelecendo assim.

NNesse caminho você teve de enfrentar muita resistência, especialmente no início?

DSim, tive de comer muita pupunha crua, como se diz na minha terra. Tive que quebrar uma barreira que tem a ver com preconceito. Quando comecei a escrever livros para crianças nós não tínhamos ainda chegado à internet, os computadores estavam começando a aparecer no Brasil e a se popularizar. E havia por causa disso uma desinformação muito grande e o mercado editorial também não era aberto o suficiente para receber essa novidade que era a literatura indígena. Eu passei de certa maneira por um bom tempo tentando convencer as editoras a publicarem o que eu escrevia. Todas recusavam, até que uma delas respondeu que o texto não estava legal, mas que a história era boa. Isso foi em 1993. Fiquei animado e fui então conversar com a editora, daí surgiu meu primeiro livro de história indígena, que me projetou como autor. Deu certo, e outras editoras depois aceitaram o desafio de publicar livros meus. Isso mexeu com o mercado editorial, a literatura indígena foi então aparecendo mais.

“Ser cotado para a Academia Brasileira de Letras tem grande importância e significado, independentemente do resultado da eleição.”

NComo você se viu sendo finalista do Prêmio Jabuti, ao mesmo tempo diante da possibilidade de ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, como o primeiro indígena na instituição?

DEntão, a questão do Jabuti para mim foi uma surpresa. Eu tive três indicações como semifinalista e agora um dos livros foi até a final. Para mim foi uma surpresa muito agradável, porque significa que muitas pessoas leram esse material e deram uma avaliação positiva para que ele pudesse ser indicado. Isso é sempre um orgulho para quem escreve. Nesse sentido, a indicação ao Jabuti significa muito para a minha escrita. E isso veio compondo também com a ideia de concorrer a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, uma espécie de presente do universo. 

NO que essas indicações significam para você?

DNessa caminhada, independentemente dos resultados, eu me sinto muito agradecido ao universo. Acho que minha indicação de certa forma mexeu com uma parcela da sociedade brasileira, com a classe dos escritores e com a própria ABL, com os critérios que eles usam para escolher seus acadêmicos e com a qualidade do que é escrito. Isso é uma causa de todos nós, que tem a ver com a própria academia e não só com a questão indígena. Por isso é importante ser cotado, independentemente do resultado da eleição. Entendo que se os escritores se mobilizaram para minha indicação, é porque eles encontraram aí não apenas uma questão simbólica, de pertencimento a uma cultura indígena, mas também uma qualidade literária.

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