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Cidadania e cuidado

Como uma associação de Cruz do Espírito Santo (PB) faz diferença na vida de crianças, adolescentes e jovens com deficiência — e agora com apoio do programa IR Cidadão


Oficina de cultivo da Associação Centro Rural de Formação, em Cruz do Espírito Santo (PB): valorização das raízes rurais do município. Foto: Arquivo ACRF

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Lauro de Freitas (BA)

Em 1975, o estado da Paraíba assistiu à fundação do seu maior estádio de futebol, o Almeidão, em João Pessoa. Desde então, além de eventos esportivos, o local recebe shows e outras atrações culturais. Um espaço com capacidade para empolgar até 19 mil pessoas em suas arquibancadas, seja por meio do esporte ou da cultura, e que mudou a vida dos pessoenses. A apenas 20 quilômetros da capital paraibana, está localizado o município de Cruz do Espírito Santo. Caso toda a população da cidade decida ir ao Almeidão num mesmo dia, sobrarão cerca de 3 mil assentos vazios, de acordo com o último Censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A cidade faz parte da região conhecida como Várzea Paraibana. Possui um pequeno núcleo e uma grande zona rural. Apesar da proximidade da capital, João Pessoa, é um território isolado, cercado por grandes plantações de cana-de-açúcar. O modo de vida da população é mais rural do que urbano. Em Cruz do Espírito Santo, não há um grande estádio de futebol como o Almeidão. Mas o município também conta com um espaço que muda vidas por meio do esporte e da cultura, atende 156 crianças, adolescentes e jovens com deficiência — e conta com recursos do Edital Fundos da Infância e da Adolescência (Edital FIA), do Itaú Social.

O Centro Rural de Formação nasceu em 2002, no assentamento Canudos. O espaço foi fundado por Gabriele Giacomelli e Luciene Lira, respectivamente um padre italiano e uma socióloga recifense. Ambos estavam no local desenvolvendo um projeto de pesquisa e extensão ligado à Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Nesse primeiro momento, a ideia era oferecer aos filhos dos agricultores locais técnicas de conhecimentos agrícolas e aulas voltadas à noção de cidadania. “Se eu não tivesse passado pelo centro, talvez não fosse a profissional que sou hoje”, afirma a psicopedagoga Antônia da Silva, que viveu no assentamento Canudos em sua infância. Atualmente, ela é coordenadora de projetos da Associação Centro Rural de Formação (ACRF). Antônia conta que a necessidade de maior autonomia mobilizou as pessoas que estavam à frente da iniciativa a transformá-la em associação, em 2004. Além de alterar o nome, a ACRF mudou de local. Saiu do assentamento Canudos e se instalou em outro assentamento, o Dona Helena, onde está até hoje. Agora, a sede da associação fica mais próxima da “cidade”, como a população local se refere à capital paraibana.

Em Cruz do Espírito Santo, o modo de vida rural, muitas vezes, é uma tradição familiar. Isso pode fazer com que as pessoas cresçam sem sequer conhecer outras possibilidades. “Eu morava numa zona rural e o mundo que nós conhecíamos era apenas a escolinha que frequentávamos”, lembra Antônia, que passou a infância ouvindo seu pai dizer que ela não precisaria continuar a ir à escola após aprender a ler e escrever cartas. “A ACRF me mostrou que podíamos aprender e permanecer no campo, mas também podíamos ir lá fora e cursar a universidade, na área em que quiséssemos.”

Aluno pronto para a aula: esporte e cultura são os pilares do Semeando Cidadania e Colhendo Inclusão. Foto: Arquivo ACRF

O caso de Antônia não é exceção. A assistente social Maria Eulália dos Santos também foi uma jovem apoiada pela ACRF antes de se tornar parte da equipe. “Com muito orgulho, dizemos que boa parte da diretoria é composta de ex-alunos da instituição. Somos seus frutos.” Atualmente, ela está à frente do Centro de Atendimento Especializado (CAE), programa criado pela associação em 2013 para apoiar crianças e adolescentes com deficiência ou dificuldade de aprendizagem.

Atendimento e cuidado
Em 2011, o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) de Cruz do Espírito Santo propôs a elaboração de um diagnóstico da realidade infantojuvenil do município. O relatório, apresentado no ano seguinte, evidenciou que o atendimento especializado a crianças e adolescentes com deficiência era a prioridade. Esse contexto motivou a criação do CAE, e a sede da associação passou por uma série de adaptações estruturais. Dentre elas, instalação de piso tátil nos corredores, piso antiderrapante nas salas e no refeitório, além de rampa e barra na entrada da instituição. Também foi preciso comprar equipamentos clínicos e materiais pedagógicos para os atendimentos especializados e adquirir um carro para o transporte de alunos com dificuldades de locomoção.

A principal iniciativa do CAE é a Semeando Cidadania e Colhendo Inclusão, uma das aprovadas no Edital Fundos da Infância e da Adolescência (Edital FIA). O edital é parte do programa IR Cidadão, do Itaú Social, que estimula os colaboradores do Itaú a destinar parte de seu imposto de renda devido aos Fundos da Infância e da Adolescência (FIAs). Já no preenchimento da declaração do imposto de renda, qualquer contribuinte pode destinar até 3% de seu imposto de renda devido para os FIAs, ação que também é incentivada pelo Itaú Social.

Os eixos centrais do Semeando Cidadania e Colhendo Inclusão são a cultura e o esporte, sem deixar de lado o vínculo com as características da vida rural que fazem parte do cotidiano de seu público. Segundo a psicopedagoga Antônia, a ideia é promover a socialização. “Essa iniciativa garante à criança com deficiência, que recebe atendimento individual em outros projetos, a possibilidade de interagir em grupo”, pontua. Os atendimentos individuais são nas áreas psicossocial e de psicopedagogia.

“O Semeando desperta outras potencialidades além da leitura e da escrita, que muitas vezes estão fragilizadas, mas são muito cobradas pela sociedade. Por meio da arte e do esporte, outras habilidades são desenvolvidas, geram comunicação e despertam a interação”, destaca a coordenadora do CAE, Eulália dos Santos. A lista de oficinas culturais, esportivas e ambientais oferecidas é extensa. Os jovens podem aprender sobre floricultura, jardinagem, dança e teatro, por exemplo. O aprendizado, no entanto, é integrado. Não há a oficina de um esporte específico, mas de esportes visando o desenvolvimento de múltiplas habilidades. “Ninguém entra aqui para aprender apenas uma coisa. Não dá para dizer que os alunos de música aprenderam só música, já que eles estiveram envolvidos com outras oficinas. Então, aprenderam libras, esporte, cidadania, técnicas agrícolas…”, enumera Antônia.

Web Rádio Comunitária: tudo começou com uma oficina realizada com adolescentes. Foto: Arquivo ACRF

As 30 vagas para o curso básico de libras da ACRF rapidamente se esgotaram. A formação destina-se principalmente a profissionais da educação e dos conselhos, além de pessoas que trabalham com atendimento ao público. O curso é ministrado por um professor surdo, referência profissional para outras pessoas surdas apoiadas pela associação. Além de libras, é oferecido curso de cuidador escolar, com foco no atendimento a pessoas com deficiência, também com vagas esgotadas e lista de espera. Profissionais em atuação nas escolas do município têm preferência na inscrição.

Educação ambiental, ciclo formativo em cidadania, oficina de musicalização e formação de cidadania para famílias são outros exemplos de atividades promovidas pela associação. Para a coordenadora do programa CAE, Eulália dos Santos, tudo isso “é um investimento em vidas transformadas”. Um exemplo dessa transformação pode ser acessado na Web Rádio Comunitária ACRF, resultado de uma oficina de rádio realizada no início deste ano. Hoje, os 11 adolescentes e jovens que participaram da formação conduzem a rádio por conta própria e têm ouvintes em vários pontos do país. Segundo Eulália, a compra dos equipamentos e a contratação do profissional responsável pela oficina foram possíveis por causa do investimento do Itaú Social. “Somos gratos por essa parceria, que vai muito além do recurso financeiro. O suporte, a capacitação, o diálogo e a escuta são momentos que fortalecem a nossa identidade, compromisso e responsabilidade.”

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