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Um perfil do leitor brasileiro

Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil revela mudanças comportamentais no hábito de ler


Zoara Failla, coordenadora do Instituto Pró-livro: “O desafio é como transformar ferramentas digitais em forma de aprendizagem”. Foto: Daniela Ramiro

Por Alexandre Raith, Rede Galápagos, São Paulo

Os suportes de leitura têm se transformado ao longo da história. O registro da escrita passou do papiro ao e-book, e essa mudança impactou no hábito dos leitores. Hoje, a internet tem ganhado cada vez mais adeptos e ocupado o tempo livre de quem, antes, preferia aproveitar as horas vagas na companhia de um bom livro. Mas a facilidade de acesso ao digital tem refletido no aumento do número de pessoas que leem? Não, segundo a quinta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, correalizada pelo Instituto Pró-livro e Itaú Cultural e lançada em setembro deste ano. O estudo identificou queda de 56% em 2015 para 52% em 2019 da quantidade de leitores e de 4% na compra de livros. O percentual dos que dizem “não ter paciência” para ler mais que dobrou, passando de 11% para 26%. 

De acordo com Zoara Failla, coordenadora do Instituto Pró-livro e da pesquisa, as razões são inúmeras. Mas um dado que chama atenção é o uso do tempo livre na internet. “Aumentou muito, principalmente, no segmento em que edições anteriores apresentavam mais leitores, como a classe A e estudantes de ensino superior”, diz. A pesquisa mostra o predomínio das redes sociais no cotidiano dos brasileiros como um indício da redução. Diante da pergunta sobre quais atividades realizam em seu tempo livre, 62% dos entrevistados responderam que preferem usar WhatsApp, 44% acessam Facebook, Twitter ou Instagram e apenas 24% leem livro em papel ou digital.

Nesse cenário, como estimular a dividir o tempo de lazer entre internet e leitura? Para a coordenadora da pesquisa, os livros digitais não são a solução. “Não adianta oferecer um e-book. Primeiramente, precisa gostar de ler, de acompanhar uma história, uma narrativa, despertar o interesse pela história e pelo personagem. Não negamos que seja interessante. O desafio é como transformar ferramentas digitais em forma de aprendizagem”, afirma Zoara. Ela enumera, ainda, a situação econômica, a falta de políticas públicas, a redução de investimento e cortes em projetos como fatores de impacto na compra de livros. E cita como exemplo a interrupção da distribuição de obras para escolas públicas, por meio do PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola), desenvolvido pelo Ministério da Educação. “De acordo com a pesquisa, 48% dos estudantes do ensino básico, principalmente do fundamental II, disseram que dependem da biblioteca escolar para ler. E foi onde houve diminuição de leitores. Esse conjunto de fatores explica a redução”, diz.

Aumento do tempo dispensado à internet e redes sociais: entre as causas da queda do número de leitores, segundo pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. Gráfico: Instituto Pró-livro/Divulgação

Escolaridade, idade e renda
Foram entrevistadas 8.076 pessoas, de 208 municípios, entre outubro de 2019 e janeiro de 2020, pertencentes às classes A/B (25%), C (47%) e D/E (28%), sendo que 27% são estudantes e 52% são mulheres. Para tabelar os dados, o estudo considerou como leitor quem leu pelo menos um livro, inteiro ou em partes, nos últimos três meses. O objetivo era entender os marcadores comportamentais, desde a intensidade, limitações e motivações até fatores que influenciam na escolha de um autor ou tema, na visita ou não a uma biblioteca e hábitos de leitura na internet.

Um comportamento apresentado pela pesquisa é que a escolaridade não necessariamente está ligada ao hábito de ler. Entre os universitários, o número de leitores caiu de 57% em 2015 para 48% em 2019. Assim como a renda. A porcentagem da classe A diminuiu 9% (de 76% para 67%) no mesmo período. Enquanto nas faixas D e E, se manteve praticamente estável, de 40% para 38%. “No entanto, as classes A e B têm um número maior de leitores, mas a população geral tem mais pessoas nas D e E. Estas últimas, apesar de terem menos compradores, registram uma população maior”, explica Zoara.

Os dados mostram uma queda de interesse pelo livro à medida em que a idade avança. De acordo com o estudo, os pré-adolescentes são os que mais leem. Enquanto apenas 4% dos participantes entre 50 e 69 anos relataram o contato diário com literatura e 2% entre aqueles com mais de 70 anos. Entre as crianças, a prática está relacionada à escola, à família e à escolaridade dos pais.

“Quando perguntamos às crianças de 5 a 10 anos quem é o influenciador, a família está entre as maiores indicações. Elas veem os pais lendo em casa e eles também leem para elas antes de dormir, sobretudo, aqueles de classe A e com ensino superior. Enquanto que, para o brasileiro geral, é o professor. Ou seja, as escolas estão sendo mais efetivas nas práticas leitoras de alunos do ensino fundamental I”, esclarece Zoara.

Para gostar de ler: pesquisa indica que professor e mãe são os maiores influenciadores do público leitor. Gráfico: Instituto Pró-livro/Divulgação

Repertório cultural
O papel da escola e do professor é fundamental para o encantamento da criança e do adolescente pela leitura. A coordenadora do Instituto Pró-Livro constata que o interessante repertório brasileiro de livros infantis e a produção nacional premiada são alguns dos fatores que impulsionam o hábito por parte de crianças de até 10 anos. 

O fato de os jovens lerem pouco se deve à utilização mais frequente das redes sociais e à falta de incentivo por parte da escola, na opinião de Carlota dos Reis Boto, professora titular da FEUSP (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo). “Há pouco estímulo pela atividade escolar da leitura. Tem a ver com a fragmentação do conhecimento, confinado ao professor de literatura, que só trabalha com livro didático, trechos e não obra completa e exercícios de gramática em relação ao texto”, afirma. “A leitura não é vista como prática de lazer pelos estudantes, e sim de obrigação. O hábito precisa ser criado”, completa.

Apesar da queda de 42% em 2015 para 35% em 2019, a pesquisa apontou que a Bíblia segue como o livro mais lido entre os entrevistados. As obras de conteúdo religioso, assim como os romances, estão entre os preferidos de 22% dos entrevistados. “De onde vieram essas leituras? Onde estão os livros indicados pela escola?”, questiona Carlota. 

Já em relação à frequência diária ou de pelo menos uma vez por semana, os textos escolares, de trabalho e didático registraram os maiores percentuais – 30%, 28% e 27%, respectivamente. Enquanto os gibis e quadrinhos, 23%, e os de literatura por vontade própria, 20%. 

“O didático tem a ver com uma perspectiva histórica e com o maior percentual de livros impressos. Mas é triste imaginar que é o único ou um dos principais recursos que aproximam o estudante da leitura”, lamenta Carlota. Por isso, “o papel do professor é determinante. A escola tem de ter um projeto em relação à leitura, que pressupõe a escolha dos livros pelas crianças, as atividades de aferição e até a frequência à biblioteca”, complementa.

Espaços de promoção do livro
Feiras, bienais, festivais de literatura, livrarias e bibliotecas públicas, escolares e comunitárias são alguns dos espaços de promoção do livro. O contato, o despertar e o encantamento citados pelas especialistas têm data e lugar marcados. Mas por que o hábito de leitura é numericamente tão baixo entre os brasileiros? Entre os motivos estão o acesso não democrático a todos esses ambientes e eventos, o alto preço do livro em relação à renda do brasileiro e a má distribuição de bibliotecas públicas pelas cidades.

“Acesso é fundamental. Existe uma desigualdade abissal que faz as camadas economicamente desfavorecidas não terem o livro como produto de primeira necessidade. Mas as camadas A e B também estão lendo menos. O desafio é como promover e democratizar a leitura, assim como estimular nas camadas médias e também nas privilegiadas”, sugere a professora da USP.

Para ela, existe um caminho a percorrer, que começa pela biblioteca da escola. Depois, o jovem passa a frequentar a do bairro, que, na opinião da professora, precisa ser um ambiente atraente e que permita o acesso às estantes de livros, para estimular o desejo do leitor. “Na última década, aumentou a frequência em bibliotecas, que devem ser lugares que despertem a curiosidade intelectual. O acesso a redes sociais não vai suprir a necessidade humana do conhecimento”, diz.

Carlota acredita que a taxação de livros, sugerida pelo governo federal, pode agravar ainda mais o baixo índice de leitores, sobretudo, se levarmos em consideração que 22% dos compradores entrevistados pela pesquisa disseram que preço é fator importante. “O valor já é um absurdo e as livrarias estão desaparecendo. Como resolver? É preciso criar o gosto, que não é natural nem biológico. Tem de ser construído, elaborado e criado. É preciso ultrapassar a dificuldade inicial da leitura para depois vir o prazer”, conclui.

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