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Acolhimento que dá vida

Projeto Acolher para Proteger dá assistência a crianças e adolescentes em abrigo de Santarém, no Pará


Crianças com novas oportunidades: casa de acolhimento oferece atendimento psicológico, pedagógico e nutricional. Foto: Ronaldo Ferreira/ Casa Reviver

Por Jullie Pereira, Rede Galápagos, Manaus

O professor e psicólogo Leonardo Neris, de 31 anos, esperava pelo encontro com um filho desde 2013, quando se tornou um pretendente disponível para adoção. No dia 25 de fevereiro de 2021, seu telefone tocou e ele foi informado, pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça), de que poderia conhecer uma criança de 6 anos, que tinha dois irmãos, de 9 e 12 anos. Ele aceitou. O encontro ocorreu a partir da Casa de Acolhimento Reviver, organização da sociedade civil (OSC) localizada em Santarém (PA), que desenvolve o projeto Conhecer para Transformar, apoiado pelo Edital FIA (Fundos da Infância e da Adolescência) do Itaú Social. 

O projeto oferece serviços para crianças e adolescentes que estão em risco social e foram destituídos de suas famílias após maus-tratos ou abandono. Os recursos do projeto são provenientes de doações feitas por pessoas e empresas que destinam parte de seu IR (imposto de renda). Foi na Casa Reviver que, depois de uma espera de oito anos, Neris encontrou seus três filhos. “Eu tenho seis irmãos e não gostaria de me separar deles, porque são meus amigos, pessoas com quem posso contar. Então foi assim que eu pensei quando conheci os meninos”, explicou. Os três estavam desde 2017 sendo acolhidos. Lá, por meio do projeto Conhecer para Transformar, eles receberam auxílio de nutricionista, psicóloga, assistente social, pedagoga, entre outros cuidados.

No Brasil, 4.340 crianças e adolescentes estão disponíveis para adoção. Destes, 71 residem no estado do Pará, de acordo com dados do SNA (Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento) de julho de 2021. Essas crianças são encaminhadas pelas varas da Infância e da Juventude para os abrigos. Atualmente, o país tem 32.406 pretendentes que desejam ser pais e mães. Nesse processo, eles começam a conhecer as crianças e entram em fase de adaptação, conversando diariamente por meio de videochamada e trocas de mensagens. Isso continua até que as partes estejam confortáveis para fazer o pedido de guarda provisória. A pedagoga Roselene Duarte, responsável pelo projeto e presidente do CMDCA (Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente), explica que no momento a Casa Reviver atende 51 crianças e adolescentes provenientes de várias regiões do estado. “Por causa dos custos, não são todos os municípios que possuem um local de acolhimento”, relata. “Hoje nós temos 15 crianças de outras cidades, da parte urbana e ribeirinha.”

Esse acompanhamento cotidiano é o que faz diferença para que as crianças recebam afeto e tenham estabilidade. Dentro do projeto, os filhos de Leonardo participaram de apresentações musicais, rodas de conversas, oficinas de como fazer pães de queijo, curso de informática, além dos aniversários mensais que ocorriam no local. 

Há dois meses Neris conseguiu a guarda provisória dos três e estão todos morando juntos, em Ji-Paraná, o segundo maior município de Rondônia. E agora, mesmo longe da Casa, mantêm os costumes e habilidades que aprenderam. “Como estavam no abrigo, eles são muito organizados, tomam banho várias vezes por dia, juntam e dobram as próprias roupas. O quarto deles é até mais arrumado do que o meu. O menor fica muito preocupado com as medidas de higiene contra a Covid-19”, diz. Ter encontrado os filhos mudou a vida de Neris. Seus horários para acordar e dormir, os lugares que frequenta, as refeições que cozinha, seus cômodos em casa. Tudo foi alterado com a chegada das crianças. Ele diz que não acredita em acasos. “Sinceramente, eu já estava desistindo, já estava saindo da fila, porque esperei muito tempo, mas ainda bem que não saí.”

Leonardo Neris conclui o processo de adoção de seus três filhos na Casa de Acolhimento Reviver, após oito anos em fila de espera. Foto: Arquivo pessoal

Fortalecer para dar fruto
A Casa de Acolhimento Reviver existe há 22 anos e é mantida com recursos da Semtras (Secretaria Municipal de Trabalho e Assistência Social). Esses recursos, no entanto, nem sempre são suficientes. Por isso, buscam editais para garantir novas contratações e atividades. Por meio do FIA, o projeto Conhecer para Transformar recebeu R$ 300 mil para desenvolver aulas com as crianças e adolescentes que já estão sob os cuidados da instituição. “Com o projeto, podemos dar mais atenção caso a caso”, dz a  pedagoga Roselene Duarte. Para que isso se concretize, a Casa é acompanhada e fiscalizada pelo CMDCA. É a partir dele que os recursos do FIA são aplicados e mantidos. Além disso, tem interlocução com diversos órgãos do estado, como o Ministério Público Federal, a Defensoria Pública do Estado e o Tribunal de Justiça. “É possível que as instituições sejam mais eficientes”, acredita. “O conselho municipal entende que cuidar da criança é pensar no presente e no futuro, que elas podem ser salvas e ter sua vida ressignificada.”

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