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Dez perguntas para

“A matemática existe para nos ajudar a entender o mundo”

À frente do IMPA, instituição realizadora da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas, Marcelo Viana propõe um novo olhar para a disciplina, do ensino infantil à formação de professores


Dez perguntas para
Marcelo Viana
Diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa)

Marcelo Viana: “Sem a conexão de saberes com a realidade concreta, a matemática vai parecer uma lista esotérica de regras sem sentido”. Foto: Tomás Rangel/Impa

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Salvador (BA)

A adolescência é uma fase complexa, de muitas certezas e outras tantas indefinições. A resposta a “O que você quer ser quando crescer?” costuma mudar algumas vezes, por exemplo. Aos 15 anos, chegou a vez de Marcelo dar o seu veredito. “Professor de matemática na universidade”, afirmou, sem pensar duas vezes. E a mesma resposta se repetiu nas outras vezes em que foi questionado.

Essa era uma certeza para o jovem Marcelo Viana. Desde a escola, gostava muito de matemática porque via sentido naquela matéria em que tudo podia ser explicado. “Não precisava decorar. Caso não lembrasse de algo, era possível deduzir”, lembra. Hoje aos 60 anos, ele não apenas é professor de matemática na universidade como um premiado pesquisador da área e diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa).

O cientista defende que a matemática deve ser ensinada de uma maneira que proporcione a possibilidade de conectar os ensinamentos com os fatos cotidianos. “Muitas vezes, o conhecimento que está sendo passado soa como artificial, sem sentido e abstrato. O professor precisa relacionar o ensinamento com algo concreto. As crianças pequenas gostam mais de matemática porque ela faz sentido para os seus interesses, como contar brinquedos ou comparar tamanhos”, explica Marcelo Viana em participação no 4º Seminário Mentalidades Matemáticas, realizado em novembro de 2022.

Mentalidades Matemáticas é uma iniciativa parceira do Itaú Social voltada ao desenvolvimento de uma nova forma de ensinar e aprender matemática. Com foco no protagonismo do estudante, a proposta do programa é construir uma matemática mais criativa, aberta, visual e equitativa. Notícias da Educação aborda esses e outros aspectos possíveis para uma maneira inovadora de lidar com a ciência dos números e padrões, em entrevista na qual Marcelo Viana fala também sobre tecnologia, interdisciplinaridade e os efeitos da pandemia no ensino da disciplina.

NNotícias da Educação — Por que muitas pessoas afirmam não gostar de matemática?

MMarcelo Viana — A matemática é um conjunto de conhecimentos bastante abstratos. Ela existe para nos ajudar a entender o mundo à nossa volta. Mas se a pessoa não tiver como conectar esses saberes com a realidade concreta, então a matemática vai parecer uma lista esotérica de regras sem sentido. Infelizmente, o ensino da matemática nas escolas costuma enfatizar as regras, sem fornecer um entendimento transparente de por que razão elas são assim. Um exemplo são as operações com frações. Seria ótimo se fossem ensinadas com exemplos concretos, como fatias de pizza ou parcelas de terrenos.

NMuitas situações do cotidiano envolvem matemática, fato que algumas vezes passa despercebido. Você poderia nos dar um exemplo prático?

MSim, a matemática está presente em todo o nosso cotidiano, mesmo quando não percebemos. Ao usarmos o celular, a comunicação é feita por meio da matemática, com criptografia e tratamento de sinal. Quando assistimos à televisão, a matemática também está lá com a análise de Fourier, wavelets e compressão de sinal. O mesmo ocorre ao navegarmos na internet e lidarmos com inteligência artificial e ciência de dados.
Tenho uma história boa sobre isso: em meados de 2020, recebi um telefonema do então presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ministro Luís Roberto Barroso, pedindo a assistência do Impa para a organização das eleições municipais daquele ano. A ideia era utilizar a matemática para avaliar como o certame eleitoral poderia ser organizado, de modo a minimizar o risco de contágios pela Covid. A equipe do Impa, então, trabalhou com os técnicos do TSE para oferecer um conjunto de recomendações baseadas na análise matemática do problema. Entre elas estava, por exemplo, o aumento do período de votação em uma hora. De acordo com nosso modelo matemático, a medida impactaria favoravelmente na diminuição do risco de transmissão da doença.

“As relações da matemática com as outras ciências, com a atividade econômica e com o mundo real são o que fazem dela um poderoso instrumento de transformação.”

NComo aperfeiçoar a formação do professor de matemática?

MEsse é um tema central da questão educacional no Brasil — e é muito complexo. Há mais de um século, o matemático alemão Felix Klein, grande impulsionador da causa do ensino da matemática e muito ativo na formação de professores, falava em uma “matemática elementar de um ponto de vista avançado”. Trata-se de ensinar ao futuro professor, em profundidade, as matérias básicas que deverá ensinar a seus alunos, para que se sinta plenamente à vontade ao fazê-lo. São poucas as escolas de formação docente no Brasil que seguem esse ensinamento. Temos carências também na formação pedagógica, na capacitação para as novas tecnologias e no aprendizado dos avanços recentes de áreas como psicologia e neurociência. 

NDe que maneira a interdisciplinaridade pode ser positiva ao ensino da matemática?

MA interdisciplinaridade é indispensável. A matemática existe para nos ajudar a entender e prever o mundo à nossa volta. Sem essas conexões, ela continua tendo seu carisma e valor estético, mas se torna um jogo para poucos. As relações da matemática com as outras ciências, com a atividade econômica e com o mundo real são o que fazem dela um poderoso instrumento de transformação.

NRecém-divulgados, os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) mostraram que os níveis de aprendizagem em matemática tiveram uma queda relevante, principalmente nos anos iniciais e finais do ensino fundamental. Como reverter esse quadro?

MA pandemia teve efeitos perversos no quadro educacional em todo o mundo, e esses efeitos são particularmente graves no Brasil. Nosso sistema educacional, especialmente o ensino público, foi incapaz de lidar de forma adequada com as dificuldades impostas pela crise. Levaremos anos para recuperar o retrocesso, mas esse é um esforço tanto indispensável quanto urgente. O caminho é apostar naquilo em que tivemos relativo sucesso nos anos recentes. Em termos de formação do professor na área, destaco como exemplo a criação do Profmat, o mestrado profissional em matemática. É preciso pensar também na criação de mecanismos de incentivo ao mérito.

NExistem pessoas com “dom” para a matemática?

MInegavelmente, existem pessoas que têm mais aptidão para a matemática do que outras. Do mesmo modo que nem todo mundo joga futebol igualmente bem. Entretanto, é um mito que as pessoas nasçam com dom para a matemática — aquelas conhecidas como “de exatas” — ou sem esse dom, as “de humanas”. Os avanços mais recentes nos estudos em neurociência mostram que todos nascemos com um cérebro extremamente plástico, portanto, que pode ser moldado para o gosto pela matemática.

“A participação ativa de uma escola na Obmep se correlaciona com uma melhora de 26 pontos no desempenho da instituição de ensino na Prova Brasil. Isso é equivalente a um ano e meio de escolaridade adicional.”

NApós 17 edições, que impacto a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep) tem nas instituições de ensino do país?

MO impacto da olimpíada no cenário do ensino de matemática está amplamente comprovado por estudos técnicos independentes realizados ao longo dos anos. Um deles comprovou, por meio de métricas estatísticas objetivas, que a participação ativa de uma escola na Obmep se correlaciona com uma melhora de 26 pontos no desempenho da instituição de ensino na Prova Brasil. Isso é equivalente a um ano e meio de escolaridade adicional. Outro estudo interessante, parte da tese de doutorado da pesquisadora Diane Moreira na Universidade Harvard, mostrou que a presença de pelo menos um laureado da Obmep (com medalha ou menção honrosa) em uma turma se reflete em melhoria substancial do desempenho de todo o coletivo nas avaliações. Mas o impacto da Obmep vai muito além. Por seu caráter inclusivo e democrático, focado no universo da educação pública, a olimpíada abre oportunidades de progressão individual e social a jovens de todo o país, com destaque para as camadas mais carentes. 

NO Instituto de Matemática Pura e Aplicada acaba de completar 70 anos de existência. Quais marcos você destaca nesse período?

MVou fazer uma breve lista. O início dos programas de mestrado e doutorado, nos anos 1970. A inauguração da sede atual, em 1981.
O primeiro programa de formação de professores, em 1990. A conversão do Impa numa organização social, em 2000. A criação da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas, em 2005.
A medalha Fields, a maior premiação da área, foi concedida ao nosso pesquisador e egresso Artur Avila, em 2014. A realização do Congresso Internacional de Matemáticos no Rio de Janeiro, em 2018. A criação do Centro de Projetos e Inovação (Centro Pi) em 2021.

NEm sua coluna na Folha de S.Paulo, um texto afirma que a “matemática contribui com 18% do PIB da França”. Como isso se dá por lá e quão realista é pensar em um cenário semelhante no Brasil?

MEsse estudo leva em conta a contribuição estimada da matemática no exercício das diferentes profissões. Estudos análogos e com resultados parecidos foram realizados em países como Reino Unido, Holanda, Austrália e Espanha. Esse foi o segundo levantamento desse tipo realizado na França — o primeiro ocorreu em 2016 —, e o resultado mostrou que a contribuição da matemática à economia do país, de fato, cresceu de 16% para 18% no intervalo entre as duas pesquisas. Eu já esperava esse veredito porque é evidente que a matemática ocupa cada vez mais espaço na atividade econômica. Basta pensar na inteligência artificial, por exemplo, que nada mais é do que matemática. Tenho certeza de que os números no Brasil são mais baixos. Isso indica quanto temos a ganhar ao investir na formação de jovens habilitados a explorar esse filão da matemática.

“A matemática é pura e simplesmente o fundamento da grande maioria dos avanços tecnológicos ocorridos nas últimas décadas.”

NEm sua opinião, o que pode ser feito no Brasil para que as pautas da atividade científica ultrapassem os muros das universidades?

MO grande parceiro que está faltando na arena da pesquisa científica é a iniciativa privada. O setor produtivo tem um enorme potencial para demandar, incentivar e financiar o avanço científico, assim como acontece nos países mais desenvolvidos. O desafio é encontrar uma linguagem comum, compreendida tanto pela academia como pelas empresas. Há um longo caminho a percorrer, mas uma fração significativa do nosso empresariado já compreende a importância dessas parcerias. Do nosso lado, algumas instituições de pesquisa e ensino estão se abrindo ao diálogo com o setor produtivo. Esse é o caso do Impa. No ano passado, criamos um centro de inovação em matemática industrial, o Centro Pi, justamente com esse objetivo.

NAs novas tecnologias e o desenvolvimento da inteligência artificial fazem parte do cotidiano de um futuro cada vez menos distante. Como a matemática se relaciona com essas novidades?

MA matemática é pura e simplesmente o fundamento da grande maioria dos avanços tecnológicos ocorridos nas últimas décadas. No período entre os séculos 16 e 19, a matemática foi, em larga medida, impulsionada pelas necessidades da física e suas respectivas aplicações. Na segunda metade do século 20, tornou-se o motor de avanços de vanguarda como a computação, a tecnologia da informação e a inteligência artificial. Por isso, no século 21, ela ocupa uma posição transversal a toda a ciência e a tecnologia. E essa contribuição só vai continuar aumentando.

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