Ir para o conteúdo Ir para o menu Ir para a Busca
Polo de desenvolvimento educacional
Notícias Boas lições

Fator de multiplicação

Estratégia da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP) voltada aos docentes é ampliada por programa que oferece formação a professores durante pandemia


Estudantes recebem medalhas da OBMEP durante o Congresso Mundial de Matemáticos, no Riocentro, em 2018: Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas teve 265 milhões de inscrições em 15 anos. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Salvador, medalhista na OBMEP em 2012 e 2013

Desde 2005, todos os anos milhões de estudantes dos ensinos fundamental e médio participam do maior evento dedicado à matemática no Brasil. Até 2019, o número somado de alunos inscritos em todos esses anos se aproximava dos 265 milhões. A Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP) é realizada anualmente em instituições de ensino de todos os estados brasileiros pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA). Suas provas são realizadas em duas fases, e as questões contêm jogos matemáticos cujos níveis de dificuldade variam de acordo com a escolaridade dos participantes. O objetivo do concurso, como bem resumido no site institucional, é  “estimular o estudo da matemática e identificar talentos na área”.

Apesar do nome, a OBMEP não é mais exclusividade das escolas públicas desde 2017. Foi quando houve uma integração entre as duas grandes olimpíadas matemáticas nacionais, a OBMEP e a Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM), o que permitiu a inscrição de escolas privadas na competição. Assim como nos Jogos Olímpicos, os participantes que se destacam na OBMEP são premiados com medalhas de ouro, prata e bronze, além de menções honrosas. Participam da atividade desde alunos que estão cursando o 6º ano do fundamental a concluintes do ensino médio. Mais de 18 milhões de estudantes realizaram a prova em 2019, ano da última edição da Olimpíada.

Formação, planejamento e bolsa
Em 2020, diversos eventos ao redor do Brasil e do mundo precisaram ser suspensos ou adiados devido à pandemia da Covid-19, e não foi diferente com a OBMEP. Pela primeira vez, desde 2005, não houve a aplicação das provas de matemática para os milhões de estudantes em todos os estados do Brasil. Neste momento, fala-se em adiamento. Porém, ainda não é possível afirmar que as escolas terão condições de receber o evento neste ano de 2021. As atividades da OBMEP, entretanto, vão muito além da aplicação das provas anuais. Existem duas frentes principais, definidas pelo IMPA: a formação de alunos e a formação de professores. Dentro desses pilares, são desenvolvidos alguns programas de educação voltados à difusão do ensino da matemática. Um desses programas é o OBMEP na Escola (ONE). Através da aplicação de uma prova, até 900 professores de matemática das redes públicas de ensino são habilitados e, então, passam a fazer parte do programa. Numa escala que vai de zero a 120, a nota mínima para habilitação é 70. Após a aprovação, os professores participam de encontros de formação mensais, que geralmente ocorrem em sete ciclos.

Cada professor deve inscrever uma turma de pelo menos 20 alunos, para a qual ministra aulas semanais, fora do horário escolar, baseadas no material didático fornecido pela OBMEP. Em 2019, aproximadamente 22 mil estudantes receberam aulas de preparação para a Olimpíada ministradas por professores do ONE em todo o país. Além da formação e do material, o docente conta com planejamento acadêmico e orientação de um coordenador, fora a bolsa, ao longo dos sete ciclos. Como seus encontros são presenciais, o ONE também foi afetado pela pandemia. Em 2020, o programa precisou se adaptar e aconteceu de maneira remota. Esse não foi o único desafio para a organização do programa. Segundo a professora Maria João Resende, coordenadora do ONE, um projeto derivado acabou surgindo no contexto da pandemia. “A ideia de fazer o projeto-piloto partiu do Itaú Social. Eles instigaram o IMPA com a proposta de tentar fazer um programa que atingisse um número maior de professores”, conta a docente.

Lucianny da Cruz, professora de matemática no ensino fundamental: inovações para alunos de escolas públicas do município de Taiobeiras, Minas Gerais. Foto: Arquivo pessoal

Foco no professor
“Projeto-piloto” é um apelido carinhoso para o programa de formação de professores(as) não-habilitados(as). Com o apoio do Itaú Social, o novo programa permitiu que o IMPA convocasse mais 200 professores, dentre aqueles que não foram habilitados na prova do ONE, para também participarem da formação. Professores de todos os estados do Brasil foram convidados, mas a preferência foi para os candidatos das regiões Norte e Nordeste. Segundo a professora Maria João, essas são as regiões em que os alunos geralmente têm o mais baixo índice de desempenho em matemática.

Como nesta edição não houve atividade com os alunos, devido à suspensão das aulas nas escolas, o programa teve foco total na formação dos professores. Os encontros virtuais ocorreram semanalmente, ao longo de três meses. No primeiro ciclo, eles estudaram aritmética. Dentre os assuntos, critérios de divisibilidade, algoritmo de Euclides, mdc, mmc e equações diofantinas.

Prova da Olimpíada de Matemática em imagem pré-pandemia: missão de estimular o estudo e identificar talentos. Foto: Elza Fiuza/Agência Brasil

O segundo momento, o preferido dos professores, foi dedicado à geometria e ao uso do software Geogebra na sala de aula. O terceiro e último mês teve como temas principais assuntos relacionados à contagem, como por exemplo os princípios aditivo e multiplicativo, permutações simples e com repetição, além de probabilidades.

No momento certo
Duas turmas participaram dos programas em 2020. A primeira teve encontros entre os meses de maio e julho; a segunda, entre setembro e novembro. A professora Lucianny da Cruz é de Taiobeiras, um pequeno município no norte de Minas Gerais, e fez parte da turma inaugural do projeto piloto. Ela ensina matemática há 25 anos e atualmente dá aulas para turmas do 6º ao 9º ano do ensino fundamental. Lucianny não esperava o convite e quase perdeu a oportunidade. “Eles me passaram um e-mail e eu acabei não olhando. Depois, recebi uma ligação e aceitei na hora”, lembra. A professora disse, ainda, que considera importante a busca por inovações para que seus alunos possam sobressair. “Eu moro numa região carente, mas nós temos excelentes alunos em nossas escolas públicas”, conclui.

Os estudantes da Escola Estadual Presidente Tancredo Neves, onde Lucianny leciona, já foram impactados pela novidade. “O projeto-piloto veio no momento certo. Eu gostei muito das partes de geometria e contagem. Os softwares como o Geogebra nos ajudam demais, principalmente agora com a pandemia”, explica a docente. Em Minas Gerais, as aulas das escolas públicas estão acontecendo de maneira remota. 

O balanço da primeira edição do programa de formação de professores(as) não-habilitados(as) foi positivo. No IMPA, a coordenação já trabalha no planejamento das próximas edições. “É um projeto de grande valia, pois hoje há pouco investimento em projetos para a formação de professores, e esse nos trouxe muito conhecimento”, diz a professora Lucianny. Educadores interessados em conhecer melhor o projeto-piloto ou o OBMEP na Escola podem entrar em contato através do e-mail preparadores@obmep.org.br.

Saiba mais