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A força da união

Apoiada na formação continuada de educadores, na mobilização sociopolítica e na produção de conhecimento educacional, experiência de duas décadas na Bahia é referência em cooperação intermunicipal pela educação


Pequenos estudantes em roda de leitura em Ibitiara (BA), que em 2020 alcançou 92,7% de taxa de aprovação no ensino fundamental: município participa da estratégia conjunta do Arranjo de Desenvolvimento da Educação (ADE) Chapada Diamantina, implantada pelo Instituto Chapada de Educação e Pesquisa (Icep), parceiro técnico do programa Melhoria da Educação, do Itaú Social. Foto: Arquivo Icep

Por Afonso Capelas Jr., Rede Galápagos, Porto Seguro (BA)

No final da década de 1990 a jovem Cybele Amado, então recém-formada em pedagogia pela Universidade Federal da Bahia, resolveu sair de sua cidade natal, Salvador, para lecionar no sertão baiano, depois de ser aprovada em um concurso público. Mudou-se para Caeté-Açu, um modesto povoado na zona rural da cidade de Palmeiras, na Chapada Diamantina, distante 448 quilômetros da capital baiana. Cybele surpreendeu-se com a precariedade da escola onde iria formar as crianças, com instalações e material didático inadequados. Teve a certeza de que poderia, ela própria, tomar as rédeas da situação, mas não sozinha. Mobilizou educadores e instituições afins da região em uma primeira meta: reduzir a evasão escolar. Desse ideal nasceu, em 1997, o Projeto Chapada, primeiro Arranjo de Desenvolvimento da Educação (ADE) do Brasil. 

A iniciativa é apoiada pelo Itaú Social por meio do programa Melhoria da Educação. Iniciado em 1999 com o propósito de apoiar a resposta ao processo de descentralização e de municipalização da educação pública, o programa Melhoria da Educação promove a garantia do direito à educação por meio da valorização e da formação continuada de profissionais especializados em gestão pedagógica e em gestão administrativa. Essa missão vem sendo cumprida a muitas mãos, com atuação municipal e regional em iniciativas de apoio a secretarias municipais e estaduais de Educação. E com parcerias com organizações como o Instituto Chapada de Educação e Pesquisa (Icep), fundado pela educadora Cybele Amado.

Formação de professores de educação infantil no município de Boa Vista do Tupim, em 2019: agenda permanente de cursos é um dos pilares estratégicos. Foto: Dill Santos/Icep

Formar, mobilizar e compartilhar conhecimentos
Em artigo escrito em 2016 para a revista Nova Escola, Cybele ressaltou que, quando começou a lecionar em Palmeiras, muitos jovens não estavam estudando como deveriam. “Na sala da antiga 8ª série, grande parte dos estudantes tinha idade superior à esperada para aquela etapa de ensino. Nos anos iniciais, cerca de 70% das crianças não sabiam ler e escrever”, ressaltou. Com o projeto Chapada em início de desenvolvimento, esse cenário mudou e, em poucos anos, os resultados começaram a aparecer. As cidades vizinhas demonstraram interesse em participar de uma verdadeira reconstrução educacional, e Cybele teve a ideia de propor que os municípios se reunissem para traçar uma inédita estratégia territorial. Essa experiência de cooperação entre municípios se tornaria uma referência no trabalho em parceria com avanços na aprendizagem.

Em 2000, três anos depois de implantado, o projeto já reunia 12 cidades da região. A Palmeiras — onde tudo começou — juntaram-se Boa Vista do Tupim, Boninal, Ibitiara, Iraquara, Jacobina, Lençóis, Mucugê, Novo Horizonte, Piatã, Seabra e Souto Soares. Nesse mesmo ano o projeto foi transformado em Instituto Chapada de Educação e Pesquisa (Icep) incorporando outros ADEs e territórios concebidos no estado da Bahia. “A ideia de que essa é uma organização em arranjo foi surgindo com o tempo. Não era exatamente a intenção maior”, explica Janara Botelho, coordenadora territorial do ADE Chapada. “O trabalho estruturado a partir dos municípios pretendia melhorar os indicadores educacionais. O nome que se dava a isso, a essa reunião, a esse arranjo, ainda era um assunto em pauta.”

Bons resultados e engajamento de mais municípios
O grande diferencial que fez do Icep um caso de sucesso está fincado em um tripé estratégico: a formação continuada de educadores, a mobilização sociopolítica e a produção de conhecimento educacional. “A educação continuada é importante para o aprimoramento das equipes, a mobilização sociopolítica permite a continuidade das boas práticas nas cidades participantes ao longo da gestão municipal, e a produção de conhecimento favorece a divulgação das ações e experiências dos educadores formados nas cidades”, explica Elisabete Monteiro, diretora-presidente do Icep.

Imagem de livro digital sobre os 20 anos do Icep publicado em 2020, disponível no site da organização: “O foco está na ampliação da capacidade de aprendizado dos alunos”, diz Elisabete Monteiro, diretora-presidente do instituto.

A rede do instituto envolve todos os profissionais das escolas — professores, coordenadores pedagógicos, diretores escolares e equipes técnicas das secretarias de Educação —, além de pais, alunos, moradores do entorno e representantes da sociedade civil. “O foco dessas ações está na ampliação da capacidade de aprendizado dos alunos”, completa Elisabete. 

Celma Alves, professora do ensino infantil em Ibitiara e hoje uma das formadoras de educadores do Icep, conhece na prática os bons resultados das formações ao longo de mais de 20 anos. Além de educadores, ela trabalha também com crianças. Formar as duas pontas do processo pedagógico é enriquecedor para Celma. “Em 2020 o Icep promoveu um seminário interterritorial. Como uma das palestrantes, foi gratificante falar desses dois lugares. Do lugar de quem forma e do lugar de quem é formado, pela colaboração de quem aprende e de quem ensina.” 

Todas as ferramentas desenvolvidas e implantadas pelo Icep favoreceram a disseminação dos bons resultados e o engajamento de mais municípios baianos. Em 2005 dez cidades se somaram às doze já participantes. Mais tarde foi formado o Território Semiárido, que em 2016 passou a chamar-se Território Agreste-Litoral, adicionando mais nove cidades ao instituto: Alagoinhas, Aramari, Cardeal da Silva, Conde, Esplanada, Entre Rios, Inhambupe, Itanagra e Santo Estêvão. 

A maioria dos municípios participantes é de pequeno porte, e as famílias dos estudantes das escolas municipais têm perfil socioeconômico baixo. Tal realidade, aliada aos recursos escassos que os municípios recebem para a educação, poderia determinar resultados tímidos de ingresso, permanência e sucesso dos estudantes nas escolas municipais. Mas não é o que acontece. Ao contrário, os números positivos de frequência escolar e aprendizagem são vistosos. O Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) aponta que os municípios analisam coletivamente suas ações e garantem a formação de educadores ao longo dos anos, com os mais animadores resultados da Bahia (leia mais no quadro abaixo). Durante a pandemia, o Icep precisou redesenhar seu plano de trabalho para não interromper as ações formativas. Elas têm sido feitas de modo remoto e on-line garantindo o trabalho dos profissionais e o direito de aprendizagem dos estudantes. Com o distanciamento ocorreu uma ampliação das conversas, e isso se refletiu em ações conjuntas em que a união na tomada de decisões se traduziu em força e reconhecimento. Um exemplo foi uma nota técnica de 13 dirigentes municipais na Bahia. Eles reuniram dados importantes e argumentaram contra a retomada das aulas presenciais na região.

A diretora de relações institucionais do Icep, Fernanda Ramos — que viveu todo o processo de implantação da rede de cidades pela educação desde o início —, reconhece que, hoje, secretários, escolas e os parceiros públicos e privados, todos estão comprometidos com a qualidade da educação de cada criança e adolescente. “Manter o processo formativo permanentemente não é fácil, sobretudo com a descontinuidade política nos municípios parceiros. Conscientizar que a bandeira da qualidade da educação pública vem em primeiro lugar é a ação que garante a transformação que tanto almejamos.” 

Um dos alunos que agradecem a persistência da rede colaborativa do Icep é Laís Carvalho, hoje doutora Laís, que aos 25 anos exerce a profissão de dentista em Ibitiara. Ex-aluna da Escola Municipal Professora Maria Marcolina Xavier, do ensino fundamental, Laís reconhece que o instituto foi determinante na sua trajetória de vida. “A qualidade do ensino me ajudou a intensificar, expandir e estimular a busca por novos conhecimentos durante o processo de aprendizagem. Essa bagagem criou uma base sólida para as demais etapas da minha vida.” 

Números do avanço da educação 


Boa parte dos municípios da Chapada Diamantina se destacou ao longo do esforço conjunto pela educação. “Tivemos progressos nos resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) na maioria dos municípios parceiros”, explica Ana Falcão, coordenadora territorial do atualmente chamado ADE Agreste Litoral Norte e Agreste Litoral Sul. “Os melhores exemplos estão em Itanagra, onde o Ideb passou de 4,0, em 2017, para 5,5 em 2019, além de Cardeal da Silva, cujo índice saltou de 3,8, em 2017, para 4,8 em 2019.” Em resultados gerais confirmados, todos os municípios participantes alcançaram ou mesmo superaram a meta do Ideb de 2019, vários nos primeiros dez lugares em todo o estado baiano. “A tecnologia educacional desenvolvida pelo instituto é modelo a ser seguido de soluções eficazes e de baixo custo”, diz a diretora-presidente do Icep, Elisabete Monteiro. Em 2020, nos 30 municípios participantes de iniciativas de colaboração com o Icep, cerca de 285 mil estudantes estavam matriculados em 2.600 escolas públicas, com 15 mil educadores. “Em 2021 teremos um aumento no número de municípios participantes. Os trâmites jurídicos estão em andamento”, informa Elisabete Monteiro.

Em foto pré-pandemia, gestores recebem assessoria técnica em Alagoinhas, cidade participante do ADE Agreste Litoral Norte: na Bahia, 27 municípios participam de arranjos de colaboração pela educação. Foto: Arquivo Icep

Índices mostram melhoria
Ibitiara, a 540 quilômetros de Salvador, é uma das doze cidades abraçadas pelo Projeto Chapada desde o início. O município é um dos exemplos do êxito da união em torno da educação. O Ideb das escolas do ensino fundamental de Ibitiara subiu de 3,9 em 2005 para 6,5 em 2019. Nos anos finais saltou de 3,7 em 2005 para 5,2 em 2019. O município ficou em primeiro lugar no Ideb da Bahia no ensino fundamental/anos iniciais em 2015, obteve o terceiro lugar em 2019 e no ensino fundamental/anos finais conseguiu o segundo lugar. Os bons números também se mantiveram no município. De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), em 2005 a taxa de aprovação dos alunos de quarta série das escolas municipais foi de 90,1% sem nenhum abandono. A taxa de analfabetismo das crianças de 10 a 15 anos em 2006 foi de 9,7%. Em 2007, a taxa de aprovação do ensino fundamental chegou à média de 88,6% na zona urbana e 87,9% na zona rural. Em 2020, ficou em 92,7%.

A abrangência do Icep
no estado da Bahia em 2020
ADE Chapada Diamantina e Regiões 18 cidades
ADE Agreste Litoral Norte 9 cidades
Território colaborativo Litoral Sul 2 cidades
Território colaborativo Salvador Capital
Resultados exemplares
Redução expressiva dos índices de reprovação e abandono Índice nos municípios do ADE Chapada varia de 0% a 3,2%
Aumento expressivo do número de crianças plenamente alfabetizadas 89% no 1º ano
Crescimento das notas nas avaliações nacionais Todos os municípios superaram as metas do Ideb