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Jean Piaget e a construção do conhecimento

Estudos piagetianos apoiam professores a compreender aspectos do desenvolvimento cognitivo do ser humano


Jean Piaget é considerado o pai da epistemologia genética e foi uma das bases para a perspectiva construtivista, teoria de aprendizagem criada na segunda metade do século 20. Imagem: Rudah Poran/Galápagos

Por Paula Salas, Rede Galápagos, São Paulo

É possível que Jean Piaget (1896-1980) não tivesse a intenção, a princípio, de ser amplamente estudado nas faculdades de pedagogia e licenciaturas. “Ele não foi educador. Mas se a educação pode aproveitar suas descobertas é porque ele trabalhou com a psicologia do desenvolvimento, de bebês até os adolescentes”, observa Yves de La Taille, professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) e um dos autores do livro Piaget, Vygotsky, Wallon — Teorias psicogenéticas em discussão.

Os estudos piagetianos são essenciais para o professor compreender aspectos do desenvolvimento cognitivo do ser humano desde o momento de seu nascimento. “Piaget mostrou, mediante pesquisa, que todas as noções necessárias para exercer o conhecimento humano não são inatas nem transmitidas pelos adultos; elas são construídas. Ele mostra como elas se originam e como se desenvolvem progressivamente em função das ações do sujeito”, resume Fernando Becker, professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e autor de diversos livros na área da educação e epistemologia.

Quem foi o pensador
Nascido na Suíça no final do século 19, Jean Piaget formou-se em ciências naturais em 1918. Já nesse momento, demonstrou se interessar pela mente humana, aproximando-se da psicologia, psicanálise e de laboratórios experimentais.

Entre 1919 e 1921, morou em Paris, onde conheceu grandes pensadores da psicologia que o auxiliaram a criar metodologias de pesquisa. Durante essas experiências, interessou-se por compreender a fundo o raciocínio por trás das respostas de crianças — ele descobriu que não é uma habilidade inata, mas que é desenvolvida durante o crescimento. Definiu, assim, duas de suas principais características como pesquisador: foco no pensamento infantil e a compreensão de que há um desenvolvimento psíquico ao longo do tempo. Já durante esse período, inicia sua extensa lista de publicações. 

Nos anos seguintes, dá continuidade às suas pesquisas empíricas e se aprofunda na compreensão da evolução das estruturas de pensamento. Ele começa a se fortalecer como referência da epistemologia, área da filosofia focada em compreender a construção de conhecimento do ser humano. 

“Sua questão central era como o conhecimento é possível e como ele progride”, explica o professor da USP. Fernando exemplifica com um caso da matemática: “Como a criança consegue passar da contagem, que ela faz com três, quatro, cinco anos ou mais, para somas e subtrações, depois para divisões e multiplicações e, depois desses conhecimentos aritméticos, passar para a álgebra?”.

Posteriormente, Piaget inaugura a perspectiva da epistemologia genética, que busca compreender os processos que resultam na evolução cognitiva. Em 1950, publica o livro Introdução à epistemologia genética — o primeiro de muitos outros estudos a respeito de suas descobertas e seu pensamento. 

Seu foco não era pedagógico. Os experimentos que aparecem em seus livros não constituem uma metodologia de ensino. “Replicar é um erro. Não foram feitos para [a criança ou adolescente que participa da pesquisa] aprender algo. É como um teste de QI, dá uma ‘foto’ do sujeito. Um diagnóstico, não uma ação pedagógica”, aponta Yves. 

Apenas no final dos anos 1960 e início dos 70 publica seus únicos livros voltados para a educação: Psicologia e pedagogia, e Para onde vai a educação? — essas obras, inclusive, são boas portas de entrada para se iniciar na extensa e complexa bibliografia do pensador. 

Em paralelo às suas pesquisas de campo, atuou como professor no ensino superior. Recebeu inúmeras homenagens e títulos honorários de universidades de prestígio. Aos 84 anos, em setembro de 1980, faleceu em Genebra, na Suíça. 

Sua última obra, Psicogênese e história das ciências, escrita em parceria com Rolando García, foi publicada postumamente, em 1982, e encerra sua incessante busca por compreender o desenvolvimento do pensamento humano. 

Ideias importantes para compreender sua teoria
Como dito anteriormente, seu grande objeto de estudo foram o pensamento humano e o desenvolvimento das estruturas psíquicas desde os primeiros meses de vida. “Na década de 1920, sua teoria se centrava na linguagem. Já nos anos 1930 vai prestar mais atenção na ação”, conta o especialista da UFRGS. Piaget investigou desde a construção da identidade das crianças até as noções de ideias abstratas. 

Uma de suas teorias mais conhecidas é a dos estágios de desenvolvimento. Ele identificou, na prática, que o ser humano passa por quatro estágios desde o nascimento — obrigatoriamente nesta ordem: 

– Sensório-motor: bebês de 0 a 2 anos estão na fase em que seus conhecimentos são baseados naquilo que conseguem manipular. É um momento marcado pela experimentação e exploração sensorial. “Sempre a ação está no centro”, resume Fernando. 

– Pré-operacional: entre os 2 e os 7 anos, a criança começa a experimentar não apenas objetos, mas também a linguagem. Também já consegue formular ideias simples. “Constrói sua subjetividade. Descobre como o mundo funciona, como os objetos se comportam, como eles reagem quando faço um agir sobre o outro”, afirma o professor da UFRGS.

– Operações concretas: neste momento, entre os 7 e os 11 anos, ela consegue formular ideias, interpretar o mundo, o raciocínio lógico começa a se consolidar. Também adquire mais autonomia para formular sua forma de pensar. 

– Operatório formal: a partir dos 11 anos, o indivíduo já é capaz de compreender ideias abstratas. Consegue desenvolver empatia, pensar em consequências, formular hipóteses e resolver problemas. 

“A cada novo estágio, estão sintetizadas as conquistas do anterior. O indivíduo precisa estar presente para continuar. Cada um tem um nível de preparação por um lado e de acabamento por outro. Exemplo: no estágio operatório formal, pelos 11 a 12 anos, há um nível de preparação; dos 14 aos 16, de acabamento”, explica Fernando. 

Para Piaget, o segredo de compreender a capacidade e o desenvolvimento humano está em observar as interações entre sujeito e o meio. Isto é, o ambiente e o contexto de uma pessoa influenciam em sua formação. 

Isso acontece por meio de três funções biológicas: adaptação (capacidade inata do ser humano), assimilação e acomodação. “A assimilação é trazer algo de fora para dentro do sujeito”, ensina Fernando. A acomodação é a próxima etapa. “Não é uma ação direta do objeto ou do estímulo sobre o sujeito, mas é ele se transformando em função do que assimilou”, complementa o professor. 

“A criança, ao deparar com uma nova situação, procura associá-la a conhecimentos anteriores (assimilação), mas muitas vezes, nessa assimilação, são necessárias certas modificações (acomodação) para uma verdadeira compreensão da situação encontrada”, escrevem Ruth Soares Gomes e Evandro Ghedin no capítulo “O desenvolvimento cognitivo na visão de Jean Piaget”, do livro Teorias psicopedagógicas do ensino-aprendizagem

Ao compreender esses processos, o educador consegue entender melhor seu estudante, planejar e mediar seu processo de aprendizagem. Porém, a forma de fazer isso não foi objeto de estudo de Piaget. “Ninguém descobre isso ao acaso; é essencial haver formação contínua dos professores”, afirma Fernando. 

Papel ativo dos estudantes no processo de aprendizagem
Os estudos piagetianos são uma das bases da perspectiva construtivista, teoria de aprendizagem que compreende o conhecimento como uma construção gradual. Considera que o estudante não é uma “tela em branco”, uma tábula rasa, mas, sim, que possui saberes adquiridos em sua interação com o mundo ao seu redor que devem ser levados em consideração. 

Dessa forma, o aluno ocupa um papel ativo no seu processo de aprendizagem. “Para Piaget o sujeito aprende agindo sobre o conhecimento. Um de seus grandes adversários é a aula expositiva, em que o professor fala e o aluno apenas escuta sem agir. É uma perspectiva da ação”, explica Yves.

“A criança e o adolescente vão à escola para investigar, não para repetir verdades”, diz o especialista em epistemologia da UFRGS. “Não é o conhecimento do teorema de Pitágoras que vai assegurar o exercício da inteligência da pessoa. É o fato de descobrir sua existência e demonstração. O objetivo da educação não é saber repetir verdades acabadas, é aprender por si próprio para chegar à verdade”, complementa.

Dessa forma, voltamos à ideia de que, para aprender, o sujeito precisa interagir com seu objeto de estudo; é obrigatório ter contato com a prática. “Uma pedagogia ativa, reflexiva, que desafia o estudante para a criatividade e invenção”, afirma Becker. Para tal, dar espaço à escuta das experiências e ao protagonismo dos estudantes é essencial. 

Saiba mais

Livros

  • Piaget para principiantes, Lauro de Oliveira Lima
  • Piaget, Vygotsky, Wallon — Teorias psicogenéticas em discussão, de Heloysa Dantas, Marta Kohl de Oliveira e Yves de La Taille
  • O caminho da aprendizagem em Jean Piaget e Paulo Freire — Da ação à operação, de Fernando Becker

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