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Polo de desenvolvimento educacional

Voluntariado, empresas e cidadania

Valéria Riccomini, psicóloga pós-graduada em RH pela Universidade de São Paulo (USP) e em Inteligência Empresarial e Gestão de Conhecimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é diretora da Fundação Itaú Social.

Desde 2001, quando a Assembleia Geral das Nações Unidas instituiu o Dia Internacional do Voluntariado, comemorado no dia 5 de dezembro, com o objetivo de incentivar e valorizar o serviço voluntário em todo mundo, diversos setores da sociedade passaram a estudar e estimular essa prática que contribui há séculos para o desenvolvimento e a consolidação da cidadania. Um dos objetivos do desenvolvimento desse tipo de atividade por meio de programas estruturados é provocar no voluntário um sentimento de civismo e transformação social.

Dados de estudos recentes demonstram o grande potencial transformador dos voluntários no Brasil e no mundo. Segundo as Nações Unidas, o número de pessoas que realizam atividades voluntárias chega a 140 milhões de pessoas, que mobilizam cerca de U$ 400 bilhões ao ano. Eles contribuem para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio ajudando na redução da pobreza, no fomento à governança democrática, na promoção de políticas ambientais, na prevenção e resposta a crises e na luta contra o aumento de doenças como o HIV/Aids.

Uma pesquisa realizada pela Rede Brasil Voluntário e Ibope Inteligência em 2011 mostrou que um em cada quatro brasileiros com mais de 16 anos, cerca de 35 milhões de pessoas, faziam ou já haviam feito trabalho voluntário, e 11% delas, cerca de 15 milhões, exerciam alguma atividade voluntária naquele momento. Dos que realizavam alguma ação de voluntariado, 53% eram mulheres e 47% homens, com uma média de idade de 39 anos. O número bastante próximo de homens e mulheres engajados é surpreendente e contraria a percepção geral de que o voluntariado seria uma atividade majoritariamente feminina.

Em relação à motivação, 67% apontam que o fazem para “ser solidário e ajudar os outros”, 32% para “fazer a diferença e melhorar o mundo” e 32% por motivações religiosas. A pesquisa também mostrou que os voluntários são conectados. Do total, 87% dos voluntários têm celular, 64% têm computador, 62% usam a internet e 53% usam as redes sociais.

A edição mais recente da pesquisa Perfil do Voluntariado Empresarial no Brasil, lançada na semana passada pelo Conselho Brasileiro de Voluntariado Empresarial, aponta que 57% das empresas brasileiras fazem algum tipo de trabalho voluntário. De acordo com o levantamento, a área da educação continua a ser a que mais recebe incentivo. O tema está em 70% das que foram envolvidas no estudo, seguido de ações voltadas à assistência social e à preservação ambiental.

Não se pode negar que o despertar das grandes companhias para o potencial transformador desse tipo de atividade é muito importante para o desenvolvimento dos profissionais. Por outro lado, é essencial que o voluntariado mantenha suas características de espontaneidade e participação cidadã, não sendo, de maneira alguma, resultado de um estímulo impositivo, pois é a geração de valores que a atividade voluntária proporciona que faz a diferença na sociedade. O voluntariado é uma atividade com responsabilidade, direitos e deveres. É um exercício de cidadania.

Atualmente, o trabalho voluntário exige cada vez mais qualificação, o que reforça a necessidade de investimento em formação de pessoas para esse tipo de atividade. Algumas estratégias que já vêm sendo utilizadas por empresas em programas de voluntariado constituem um reforço importante para estimular a adesão, sensibilizar o público interno e reconhecer as ações dos colaboradores. Entre elas, a realização de palestras, eventos para integração e troca de experiências e campanhas de comunicação interna, envolvendo inclusive trainees de grandes corporações.

O aprimoramento da gestão de programas focados especificamente nesse tema também constitui um dos principais desafios dos programas de voluntariado social corporativo. Para isso, é necessário investir na produção de indicadores, o que certamente criará condições mais propícias ao desenvolvimento de programas de capacitação, à implantação de mecanismos de avaliação e de monitoramento de resultados.

O voluntariado é importante para as empresas, pois provoca nos colaboradores o orgulho de pertencer, e também para as pessoas que exercem a atividade, pois possibilita o desenvolvimento de competências importantes para os profissionais, entre elas liderar, trabalhar em equipe, lidar com a diversidade, com recursos escassos e tomar decisões. E finalmente, o principal benefício da atividade voluntária, de acordo com especialistas em desenvolvimento de pessoas e direitos humanos, é o despertar da consciência para valores essenciais à evolução da sociedade.