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Vestir a camisa da educação

Confira o artigo da superintendente do Itaú Social, Angela Dannemann, publicado no jornal Correio Braziliense no dia 18 de junho


A educação pública brasileira tem se organizado com afinco para recuperar os enormes impactos provocados pelo fechamento de escolas durante a pandemia e diante da falta de coordenação em âmbito federal. O retorno presencial trouxe uma onda de esperança e um senso de urgência que motivam profissionais da área, organizações da sociedade civil, governos estaduais e municipais a trabalharem juntos para garantir um futuro de mais oportunidades para crianças, adolescentes e jovens.

Profissionais de educação, redes de ensino e escolas estão empenhados com o trabalho de busca ativa, acolhimento socioemocional, diagnósticos e planejamento para recuperação das aprendizagens, entre outras estratégias. Neste cenário, estão também as organizações sociais de base comunitária, instâncias da sociedade civil organizada que têm conhecimento e olhar apurado sobre os públicos e territórios onde atuam, com iniciativas que podem contribuir muito nesta difícil tarefa de recompor as perdas.

Em Planaltina (DF), a professora Luciene de Barros colabora com o bairro onde viveu grande parte da sua vida, por meio da educação, com a perspectiva de reduzir o quadro de violência. Em conjunto com outros moradores, ela desenvolve o Projeto Social e Cultural Educa, que tem apoiado com aulas de reforço os estudantes da comunidade com dificuldade em aprender.

No seu território, Luciene viu de perto o impacto da pandemia na alfabetização das crianças. Estima-se que 40% dos estudantes brasileiros de seis e sete anos não sabem ler e escrever, o maior patamar desde 2012, conforme nota técnica do Todos pela Educação divulgada em fevereiro de 2022, com base na Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). A professora conta que a aluna Amanda (nome fictício) tem dificuldade até para escrever o próprio nome, mesmo estando no terceiro ano do Ensino Fundamental, enquanto a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) define que a alfabetização deve estar concluída até o segundo ano. Tal cenário é o efeito geral da pandemia sobre um número enorme de estudantes pela lacuna de dois anos de escolas fechadas.

Esse não é um problema isolado. Junto à falta de estrutura e condições para oferecer atividades no turno complementar, se configura como um dos principais desafios das redes educacionais municipais, de acordo com a última pesquisa Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação), divulgada em abril.

Parcerias com organizações da sociedade civil serão importantes, especialmente neste momento em que toda iniciativa é necessária para ampliar oportunidades de aprendizagem. O desenvolvimento integral das crianças e adolescentes só tem a ganhar com uma aliança dialogada e bem conduzida entre as escolas e as organizações do seu entorno.

Assim como acredita a professora Luciene, a educação é mesmo a chave para a redução do desemprego e da violência. Recentemente, os pesquisadores Naércio Menezes Filho e Luciano Salomão, do Centro de Gestão e Políticas Públicas do Insper, lançaram um excelente artigo sobre os efeitos da educação de qualidade sobre os índices de desemprego e criminalidade. Os autores criaram um novo indicador de educação básica, relacionando o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) e o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Nas localidades com melhor resultado, houve uma diminuição de 25% nos homicídios, aumento de 14% nas matrículas no ensino superior e de 200% na geração de empregos entre os jovens.

Segundo Menezes, a melhoria desses índices se dá por intermédio de uma boa gestão num ciclo composto por dois mandatos de uma prefeitura, ou seja, em oito anos, bem como pela articulação do município com o governo do estado. Mais uma evidência da importância de haver articulação adequada entre estado e municípios, como poderá ocorrer em todo o país com a aprovação e implementação do Sistema Nacional de Educação. Felizmente, hoje o país já conta com diversas iniciativas de colaboração que tratam a educação como assunto de estado – não apenas de governo. Em ano de eleições, nós, cidadãos, temos de priorizar propostas que valorizem o compromisso com a continuidade das boas políticas educacionais e fortaleçam essa colaboração em benefício da sociedade.

O professor Chico Soares, ex-presidente do Inep, durante o 2º Seminário Melhoria da Educação, destacou mais uma vez a importância de tornar a educação um compromisso de todos. Vestir essa “camisa”, assim como fazemos nos jogos dos nossos times ao longo do ano e do Brasil durante a Copa do Mundo, é essencial em um ano de eleições. Nas próprias palavras de Chico, “qualidade para poucos não é qualidade”, portanto, já é mais do que hora de escolher nossos governantes usando a lente da educação de qualidade com equidade – só assim conseguiremos ter uma sociedade crescentemente justa e próspera.

*Originalmente publicado no Correio Braziliense no dia 18 de junho de 2022

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