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Polo de desenvolvimento educacional

Uma batalha que é de todos

Uma das conclusões do estudo aponta para um fenômeno social que parte das agendas das juventudes negras, mas que contempla toda a sociedade. Na busca por cidadania, os jovens ousam inventar direitos que são imprescindíveis para a democratização plena do país. Na entrevista pingue-pongue, Juliana Yade, especialista em educação e pesquisadora do Itaú Social, fala sobre as mudanças que extrapolam demandas exclusivas e contribuem com avanços para todos os brasileiros.

No entanto, transformações mais profundas necessitam de escala, o que significa que é preciso incidir no terreno das políticas públicas. Nesse aspecto, as organizações das juventudes negras ainda enfrentam muitos desafios. Você confere os principais entraves e as estratégias que as lideranças apontam para superá-los no quadro que acompanha esta reportagem.

Juliana Yade, especialista em educação do Itaú Social (crédito: Sergio Carvalho/Itaú Social)


De que maneira as ações das organizações de juventudes negras podem impactar toda a sociedade?

JULIANA YADE Para entender esse movimento de mudança, é preciso falar sobre as pautas que por anos foram invisibilizadas. O racismo é a principal delas. A partir do momento em que o jovem negro passa a se colocar como sujeito que exige seus direitos de cidadão como educação, saúde, transporte e o direito de acesso à cidade, a democratização plena passa a ser um assunto em pauta. A sociedade, mesmo que compulsoriamente, começa a olhar para esses indivíduos de outra forma.

 

Essa democratização plena está de fato ocorrendo?
JULIANA Ainda falta muito, mas já vejo a mudança acontecendo. As periferias cada vez mais são vistas como produtoras de conhecimento – pelo hip-hop, pelo funk, pela literatura, pelos slams e por diversas iniciativas que dialogam com a história e as condições da população negra. Além disso, os jovens têm conseguido acessar cargos no mercado de trabalho antes impensáveis, provando que os negros são capazes de estar em qualquer lugar. Até as universidades, espaços que não foram projetados para receber os corpos e o pensar dos negros, agora já têm não só estudantes, mas professores e professoras que no auge de suas juventudes levam para as salas de aula demandas da negritude.

 

A sociedade reconhece o potencial transformador das juventudes negras ou as ações ainda são vistas apenas como identitárias e pontuais?
JULIANA Por enquanto, esse potencial transformador e as conquistas exclusivas dos jovens negros são vistos apenas por uma pequena parcela da sociedade. Ainda que o reconhecimento dessa parcela reduzida tenha real impacto na vida de todos, falta muito até alcançarmos mudanças incontestáveis e reconhecidas por todos os brasileiros. E não é apenas uma questão de visibilidade para um grupo maior: o processo de luta e manutenção de direitos deve ser contínuo. Qualquer estagnação pode levar as juventudes de volta ao lugar naturalizado de total apagamento.

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A luta para impactar as políticas públicas

Diante do desafio que é incidir sobre políticas públicas, as organizações de juventudes negras traçam novos caminhos para reverberar suas agendas. Fóruns de representação, parcerias com movimentos sociais e redes de articulação são alguns dos caminhos citados pelas organizações entrevistadas pela pesquisa do Itaú Social e do Observatório de Favelas.

“Nós estamos nos fóruns de educação, nos fóruns de juventude, nós estamos nos fóruns que discutem relações sociais. Fazemos, por exemplo, semanas de eventos para atrair a discussão para cá. Nós também publicamos muito. A gente tem uma preocupação grande em registrar posicionamentos, fazer com que as pessoas tenham acesso a essas discussões”.
Ednéia Gonçalves (Ação Educativa, São Paulo, SP)

“Nós estamos nos espaços que decidem sobre a agenda de educação da população negra no Brasil. Com a pauta política esvaziada, nós estamos lá fazendo a resistência. Temos feito essa coisa do controle social, marcando presença onde quer que decidam sobre políticas públicas para a nossa população”.
Anita Benites (Associação Brasileira de Pesquisadores Negros – ABPN, Brasília, DF)

“Historicamente, participamos de conselhos municipais, estaduais e nacionais. Destacamos o conselho de direitos humanos, o conselho de igualdade racial, o conselho de juventude e o conselho da criança e do adolescente”.
Walmyr Gonçalves (Coletivo Enegrecer, Rio de Janeiro, RJ)

“A gente participa de alguns fóruns e fazemos parte do Coletivo Baiano de Comunicação. Também participamos de várias redes de discussões, mídia e etnicidade. E mantemos um bom diálogo com o estado e com suas secretarias, em especial a de cultura”.
Rosalvo Neto (Instituto Mídia Étnica, Salvador, BA)

“A nossa parceria é com o Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza –
CDVHS, que é uma ONG aqui do Bairro do Grande Bom Jardim. Foi aí que surgiu o Maracatu Solar. A gente entendeu o Maracatu como um instrumento político para poder incidir na cultura popular, nosso direito à cultura popular. A gente aceitou essa proposta e viu que era possível fazer dele um instrumento político.”
Ingrid Ramiro (Maracatu Nação Bom Jardim, Fortaleza, CE)

“A gente faz parte da rede Fulanas, que é a rede Negras da Amazônia Brasileira, que envolve somente as mulheres negras da Amazônia e da AMNB, que é a articulação de Mulheres Negras Brasileiras. Então, a gente acaba atuando nacionalmente.”
Lorena Araújo (Instituto das Mulheres Negras do Amapá, IMENÁ, Macapá, AP)

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