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Um novo caminho a cada passo

As alternativas da OSC Pisada do Sertão diante dos desafios de acesso e escassez em comunidades vulneráveis do alto sertão da Paraíba


Equipe do Pisada do Sertão durante entrega de cestas básicas na zona rural de Poço de José de Moura (PB): segurança alimentar como prioridade. Foto: José Olímpio/ACPS/Divulgação

Por Gustavo de Souza, Rede Galápagos, Campina Grande (PB)

Aprender em um lugar que registra temperaturas acima dos 40 graus, por si só, é uma tarefa árdua. No alto sertão da Paraíba, a carência de condições adequadas aos educandos, contudo, vai além dos desafios do calor. Não raro, o que falta mesmo é água e alimento. Nessa região, os altos índices de abandono escolar no ensino médio marcam uma rotina de evasão de jovens que partem para cidades maiores, em busca de oportunidades. Esse é o contexto em que atua a Associação Cultural Pisada do Sertão (ACPS). Criada em 2004 a partir da formação de grupos de dança, a organização que incentiva a juventude a valorizar seus potenciais também desempenha agora, durante a pandemia, um importante papel nos cuidados com a comunidade.

Situada no município de Poço de José de Moura, a quase 500 quilômetros de distância da capital, João Pessoa, a organização da sociedade civil (OSC) tenta barrar os desafios encontrados em uma zona de vulnerabilidade, onde a estiagem não permite o abastecimento regular de água. 

Os quase 1.000 m² da sede da Pisada do Sertão incluem salas de dança, de música, de convivência, de cultura digital, brinquedoteca, biblioteca, auditório para apresentações artísticas e culturais, além de um estúdio de TV e outro de rádio. Ali, toda a programação foi adaptada para atividades virtuais. Assim, os oito projetos de arte, cultura, empreendedorismo, educação e educomunicação seguem acontecendo normalmente para a maioria dos 200 alunos matriculados. O número de pessoas impactadas pela organização já passa de 26,5 mil jovens e crianças, numa soma que inclui os municípios de Cajazeiras, Uiraúna, Triunfo, Bernardino Batista e Joca Claudino. Esta capilaridade foi construída através do projeto ‘Rota do Sol’, desenvolvido em conjunto com lideranças e poderes públicos locais. Assim, as ações realizadas em Poço de José de Moura se multiplicam por meio de uma rede de colaboradores presentes nas cinco cidades, onde entregam regularmente cestas básicas, água e itens de higiene e limpeza para os sertanejos afetados pela extrema pobreza.

As videoaulas educomunicativas são gravadas em um estúdio de TV da própria instituição. Foto: José Olímpio/ACPS/Divulgação

Nos primeiros anos, existia muito preconceito não só dos homens dançarem, mas também das meninas, porque, para eles, as mulheres eram para estarem em casa, ou trabalhando ou estudando, e não fazendo arte e cultura. Hoje, a comunidade acredita na organização e a enxerga como desbravadora

Ana Neiry, educadora e fundadora da Associação Cultural Pisada do Sertão

Os novos passos
No início da pandemia a equipe de colaboradores da Pisada do Sertão criou o projeto ‘Rota da Solidariedade’, para dar novo suporte aos educandos que tiveram a fome agravada porque os pais não podiam sair para trabalhar. Cerca de 300 famílias foram atendidas pela iniciativa, que distribuiu mais de 12 toneladas entre cestas básicas, água e itens de higiene e limpeza, além de 892 máscaras entregues durante as intervenções. “Em virtude dessa situação de isolamento social e de pandemia, identificamos muitas famílias com dificuldades”, destaca a educadora Ana Neiry, fundadora da Pisada do Sertão. “A gente foi vendo que uma prioridade de início era a questão da segurança alimentar”.

O segundo passo foi avaliar como manter as aulas de dança, contações de histórias, oficinas e demais atividades adaptadas à nova realidade. Então, junto às cestas básicas, as crianças recebiam materiais didáticos preparados para manter o conhecimento ativo. Porém, para quem pôde, a ‘Rota da Solidariedade’ preparou a sede da Pisada do Sertão para um dia específico de entrega dos livretos e cartilhas.

Adailton Ferreira e sua filha Sophia, 6, recebem a versão impressa do e-book Brincando e Aprendendo com a Família, material preparado para o período de distanciamento social. Foto: José Olímpio/ACPS/Divulgação

Educomunicação em tempos de pandemia
José Eduardo Gonçalves, 13, é um dos educandos que tiveram de deixar as instalações da Pisada. Líder dos alunos da associação, o jovem reconhece os impasses de aprender em tempos de pandemia. “Nem todo mundo tem um celular, nem todo mundo tem um computador como eu. As condições de alguns colegas são bem difíceis”, diz.

Ele faz parte dos 75% de alunos mapeados pela ACPS com condições tecnológicas de receber as atividades educomunicativas virtuais. Para este público, estão sendo realizadas videoaulas, lives com bate-papos, oficinas e cursos com temáticas como empoderamento digital e empreendedorismo cultural.

José Eduardo: entre os 75% dos estudantes da Pisada do Sertão com acesso a aulas virtuais. Foto: Arquivo pessoal

Todas estas tarefas produzidas para os educandos são resultado de reformulações previstas desde a adesão ao Edital FIA (Fundos da Infância e do Adolescente) do Itaú Social, que em 2019 contemplou a Pisada do Sertão em uma proposta que envolvia as mesmas temáticas trabalhadas atualmente, conforme explica Ana Neiry: “A partir da proposta, nós tivemos que olhar para a metodologia que tínhamos pensado e modelar essa proposta para o meio virtual”. 

A coordenadora do Pisada do Sertão, Rafaella Lopes (embaixo, à direita numa foto de 2004, na época em que integrava o grupo de dança): proximidade do público, mesmo à distância. Foto: Arquivo pessoal

A professora Rafaella Lopes, 31, que já foi educanda, hoje é a coordenadora do Pisada do Sertão. Em meio às mudanças, ela integrou uma força-tarefa que desejava não apenas acolher a fatia dos 25% de alunos sem acesso às tecnologias, mas também oferecer a eles justamente estes recursos. Inicialmente 30 famílias são atendidas em uma campanha de inclusão digital.

As famílias ainda sem acesso às tecnologias digitais estão recebendo livretos e cartilhas. “Conseguimos ressignificar o nosso fazer diante dessa crise, de forma a não estar distante do nosso público”, diz  Rafaella. “Nós estamos próximos a eles, mesmo estando distantes”.

Assim como Rafaella, o psicólogo Yago Mariz, 28, também teve seu momento do lado dos educandos e hoje faz parte da equipe da  organização. Yago foi aluno do projeto e participou das serenatas para incentivar a comunidade a fazer doações. Com dez anos de história na associação, ele retornou em 2020 oferecendo seu tempo como forma de retribuir a semente de esperança plantada pelo projeto. “A história foi sempre de luta. Por mais que no início não tivesse o objetivo muito claro de desenvolvimento integral por meio da cultura, a Pisada já fazia isto, pois tudo o que fazíamos para valorizar e demonstrar a cultura local foi moldando nossa forma de pensamento e expressão”.

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