Ir para o conteúdo Ir para o menu Ir para a Busca
Polo de desenvolvimento educacional
Notícias Parceiros na educação

Um mapa para o caminho

Parceira de dois programas do Itaú Social em Várzea Grande (MT), a Acamis estimula a garotada no contraturno e amplia suas perspectivas de vida


Apresentação de siriri, dança centenária de Mato Grosso: parte do eclético cardápio de artes tradicionais e contemporâneas. Imagem: Facebook/Acamis

Por Lidiane Barros, Rede Galápagos, Cuiabá (MT)

Em tempos pré-pandemia, de segunda a sexta-feira, Héric Carlos, 14 anos, tinha destino certo ao acordar pela manhã. A 20 minutos de sua casa está a Associação Caminhando para Mais um Sonho (Acamis), no bairro Cabo Michel, em Várzea Grande, Mato Grosso, cidade próxima à capital, Cuiabá. Com a retomada das atividades presenciais, no início de setembro, é essa rotina que Héric também vem trazendo de volta ao seu cotidiano. É lá que ele toma o café da manhã, pratica esportes, participa de oficinas culturais, tem aula de reforço e almoça. “Os melhores dias são com futebol e macarrão”, sentencia o garoto. Todos os dias, também a pé, em sua companhia, seguem outros quatro irmãos que têm entre 9 e 13 anos. A mãe, Cláudia Paulino, 33, já vislumbra a inclusão de outros dois filhos que ainda não alcançaram a idade mínima para serem atendidos pela Acamis, entidade que acolhe crianças entre os 6 e 16 anos. “Costumo dizer que é a segunda casa deles. E eu não sei o que seria de nós, não fosse esse apoio, pois só o pai deles trabalha. E o salário de motorista não é suficiente para manter a casa e dar comida aos nossos filhos”.

Rede de apoio
Garantir o direito à alimentação de crianças em situação de vulnerabilidade, ocupar o contraturno com atividades e estimular a continuidade dos estudos são razões de existir da Acamis, que tem representação no Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Várzea Grande. Os conselhos são mecanismos criados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), de 1990, que se somam a programas de proteção social. Presidente da associação, Mayhara Patrícia Silva Corrêa, 30, também se dedica ao CDMCA, assumindo a função de fiscalizar os projetos desenvolvidos e cadastrados no conselho criado pela Lei Municipal 3.223 de 2008.

Foi esse mesmo conselho que indicou a Acamis para receber recursos do edital Fundos da Infância e da Adolescência (FIA) do Itaú Social. “Como fazemos parte de uma rede, a Territórios Conectados Educam, indicamos ainda a inclusão de outras instituições sociais que desenvolvem ações voltadas à defesa dos direitos das crianças, como a Associação Cáritas, Associação Manifestação Folclórica de MT e Madre Tereza de Calcutá”. Essa mesma rede é fomentada e fortalecida pelo Itaú Social em parceria com o Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável (Cieds).   

“Nossas instituições interagem realizando intercâmbios, conferências e apresentações culturais conjuntas. Somamos esforços para ampliar o raio de atuação na defesa de direitos básicos das crianças e adolescentes, como a alimentação, educação, cultura e lazer”.

Conhecimento de causa
À frente da instituição, Mayhara relembra o tempo em que estava sob a mesma perspectiva. Ela sabe da importância do estímulo à criança. A Acamis descende de outro projeto, a Associação Educar, da qual fazia parte. Criada em 2011 por iniciativa de padres italianos, tinha como objetivo erradicar o trabalho infantil. 

Mayhara segue ao lado de Maria Domingas, em foto pré-pandemia: logo, promete a presidente da Acamis, a nova geração da família também será incluída no projeto. Foto: Itaú Social

“Minha mãe, Maria Domingas da Silva, era cozinheira.Quando anunciaram o fim das atividades ela se desesperou – não porque perdia um posto de trabalho e eu uma vaga no projeto, mas porque não suportava a ideia de que as crianças ficassem desamparadas. Então, foi à luta. Nascia assim, a Acamis”.

Os móveis foram doados e a sede também foi herdada. O nome da instituição foi ideia de uma criança, que participou de um concurso cultural. A ganhadora foi Márcia Pereira, que esteve por lá por oito anos e hoje tem 21. “Guardo comigo tudo que aprendi”, recorda-se Márcia. “A Acamis foi tão importante que consegui o meu primeiro trabalho, aos 16, porque ao ter me atrasado e ter que chegar às pressas na entrevista de emprego, fui de uniforme. O contratante disse que conhecia o projeto e eu consegui a vaga na hora”.

Ensaio na aula de hip-hop em imagem anterior à pandemia: Acamis investe em atividades lúdicas e linguagens que dão protagonismo a jovens e crianças. Foto: Itaú Social

Um lugar na família
Mayhara diz que ao garantir a alimentação às crianças e adolescentes atendidos, bem como as oficinas e aulas de reforço no contraturno, a Acamis se empenha para que consigam concluir o nível fundamental e que além de arrumar emprego, tenham chances de cursar uma faculdade.

“O objetivo é mudar a realidade deles e por consequência, de suas famílias”. A propósito, a relação com as famílias se estreitou durante a pandemia. “Com a suspensão das atividades presenciais, realizamos uma força-tarefa para que a comida chegasse às suas casas. Assim, tivemos condições de alimentar não só as crianças, mas também, em grande parte, de garantir o almoço da família toda”. 

Com a retomada das atividades, as crianças voltam a ser servidas na instituição. Porém, as famílias que ainda não se sentem seguras de encaminhá-las podem retirar a refeição na sede. De lá saem também com atividades impressas para as crianças se ocuparem em casa. Assim como antes, quem comparece no período da tarde tem direito a lanche reforçado. 

“Atualmente, temos em média 12 alunos em cada turma, que antes chegavam a 60. Eles vêm de vários bairros do entorno; algumas crianças chegam a percorrer 4 km a pé para chegar à nossa sede”.

Aula de música em imagem de 2019: do reforço na tarefa às lições de artes, a sala é adaptada às necessidades do dia Foto: Itaú Social

Rumo a outros sonhos
Para atender as crianças há uma equipe formada por professores que ajudam com as tarefas da escola, merendeira e instrutores de esportes tradicionais, karatê, música, cultura hip hop e siriri, dança folclórica de Mato Grosso. As demais atividades são norteadas por campanhas educativas e temas transversais repassados pela Secretaria de Assistência Social do município. 

Completa a equipe uma assistente social. “Que é minha mãe”, orgulha-se Mayhara. “Ela acolhe as famílias e realiza encaminhamentos para atendimentos de saúde e até no caso de receber denúncias de abuso sexual e violência doméstica e encaminhá-las aos órgãos competentes”, explica.

Às mães, também são ofertados cursos para garantir reforço na renda, como é o caso de confeitaria, produção de salgados e pintura em tecido, por exemplo. Mayhara explica que atualmente a instituição é amparada por recursos provenientes de editais. “Queremos buscar novos parceiros. Hoje, ocupamos a sede em regime de comodato com a igreja católica, mas sonhamos com o dia em que teremos autonomia, um local só nosso para que possamos ampliar a estrutura. Construir uma sala de balé e uma de informática. Já perdemos oportunidades de participar de editais de aquisição de computadores por não termos espaço. Não sei se teremos como atender mais crianças – que hoje são pouco mais de 200 -, mas ao menos, queremos aumentar o conforto”. 

Leia mais