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Somos capazes

Educador do Rio Grande do Norte relata seus desafios e conta como se mantém atualizado com formações on-line, como a que acabou de concluir no Polo


Janderley Lima: uma vida inteira dedicada à educação, seja para estudar ou para ensinar. Foto: Arquivo pessoal

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Lauro de Freitas (BA)
Depoimento de Janderley Lima, filho e sobrinho de professoras, licenciado em letras, técnico da Secretaria de Educação de Lagoa de Pedras (RN), coordenador pedagógico em Brejinho (RN) — e cursista do Polo

Quando prestei vestibular, aos 17 anos, sonhava com o curso de medicina. Por conta da nota que obtive, optei por letras. Essa foi a primeira decisão importante para a minha carreira profissional. Lembro que eu dava aulas de língua inglesa numa escola da minha cidade, apesar de não ter pretensão alguma de me tornar educador. Virar médico era um sonho distante, mas que parecia trazer para perto a possibilidade de mudar a realidade da minha família.

Às vezes, eu digo que caí de paraquedas na área da educação. Digo isso porque cheguei a ser aprovado num concurso da polícia e quase segui carreira militar. Mudei de ideia graças a muita conversa com meus familiares — foi a segunda decisão importante. A principal conselheira foi dona Creuza Dalva. Além de minha mãe, foi minha professora no ensino fundamental, em Brejinho, cidade onde nasci. Sou o do meio de três filhos, e nossa mãe sempre nos incentivou a levar os estudos a sério. Mesmo quando eu ajudava meu pai, seu José Ferreira, que era agricultor, o horário de estudar sempre foi sagrado. Fui a primeira pessoa da minha família a concluir o ensino superior.

Brejinho, a terra da farinha, é uma cidadezinha tão perto de Natal que é quase um bairro da capital. É também a minha casa. Nasci, cresci e até hoje moro aqui. Mesmo quando fazia faculdade, ia a Natal e voltava todos os dias. Anos depois, o movimento diário de ida e volta permanece em minha rotina, desta vez para um outro destino. Lagoa de Pedras, a pouco mais de 12 quilômetros de Brejinho, se tornou a minha segunda casa. Tem uma bela barragem e um modo de vida rural, com economia baseada na agricultura. Faço parte da educação do município há 20 anos.

Era recém-formado quando soube do concurso para professor da rede municipal de Lagoa de Pedras. Eu levava jeito com concursos. Já tinha até sido aprovado no da Polícia Militar do Rio Grande do Norte. Resolvi, então, fazer a prova e dois meses depois já estava trabalhando. Aluguei uma moto para poder economizar no movimento pendular. De casa para o trabalho, logo cedo. De volta para Brejinho, ao fim do dia.

Em Lagoa de Pedras, as minhas primeiras turmas foram da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Eu dava aulas de língua portuguesa na zona urbana do município em três dias da semana e na zona rural nos outros dois. Depois de um tempo trabalhando com a EJA, passei a lecionar em turmas do ensino fundamental II. A sala de aula é parte essencial da minha trajetória na educação, entretanto passei a me interessar também pela gestão. Assim, assumi a coordenação da Escola Municipal Professor José Luiz Rodrigues.

Considero que minha jornada me fez desenvolver um olhar muito aguçado para a pedagogia, apesar de não ser formado na área. Acredito que todo educador que tiver oportunidade deve assumir um cargo de gestão. Isso contribuiu para a minha prática pedagógica porque me possibilitou um olhar para além da sala de aula. Atualmente, sou responsável pela parte técnica e pedagógica da Secretaria de Educação de Lagoa de Pedras. Fui escalado para contribuir na secretaria devido ao meu interesse por gestão e à minha experiência. Durante um curto período, estive à frente da Secretaria de Educação de Brejinho. Sigo em atividade na minha terra natal, onde atuo como coordenador pedagógico da Escola Estadual José Lúcio Ribeiro.

Sou muito satisfeito com a área que escolhi. Quem trabalha nela o faz por amor. Costumo dizer que a educação não nos enriquece financeiramente, mas com sabedoria. Beneficia a quem é educado e a quem educa. Infelizmente, os dois municípios do meu coração enfrentam algumas dificuldades no setor. Por exemplo, muitas famílias locais ainda não têm noção da importância da educação para a vida das suas crianças, deixando de incentivá-las nos estudos. Nas zonas urbanas, a superlotação das salas de aula dificulta o trabalho do professor. 

Gosto bastante de uma frase atribuída a Aristóteles: “A educação tem raízes amargas, mas os frutos são doces”. Creio que essa doçura nos faz crescer como pessoas e como profissionais. Quando lembro de minha mãe, entendo por que há tantas mulheres nesse campo. Geralmente, elas têm um olhar mais sensível e afetuoso, e sua presença é um ponto forte da educação. Eu as admiro e busco me inspirar nelas, assim como me inspiro no exemplo que tive em casa.

O incentivo familiar possibilitou que eu e meus irmãos focássemos em nossos estudos. Hoje, estamos inseridos no mercado de trabalho. Janeclei é agente de saúde. Já Janderclei se tornou técnico em geologia. Contribuo para que a educação siga transformando vidas e, por isso, não pretendo deixar de estudar. Todo educador precisa se manter atualizado porque as coisas mudam muito rápido. 

A pandemia, por exemplo, pegou a todos de surpresa. De repente, precisamos interromper todo o processo educacional sem sequer saber por quanto tempo estaríamos impedidos de exercer o nosso trabalho. Após o susto, a minha experiência e a minha sede de conhecimento me ajudaram a planejar com calma. Encontrei o curso Ensino Híbrido, oferecido pelo Polo, o ambiente de formação do Itaú Social. É um conteúdo que contribui muito neste momento atípico. Aprendi sobre estratégias, organização e aplicabilidade desse tipo de ensino. Descobri, por exemplo, que é uma ótima forma de desenvolver a autonomia dos estudantes.

Quero, um dia, ver a melhoria nos índices de educação em Lagoa de Pedras e em Brejinho. Quero que todos entendam quanto a educação é fundamental. Se a educação vai bem, a saúde também vai, porque as pessoas passam a ter conhecimento e a se conscientizar.

Quando olho para trás, agradeço por ter seguido esse caminho. Lembrar da minha trajetória desperta o meu lado mais emotivo. E também o artístico, por que não? A minha paixão pela leitura me fez gostar de escrever. Amo compor poesias. Fiz uma curta, para encerrar este depoimento, cujo título é o resumo do que eu acredito, enquanto educador: “Somos capazes”.

Somos capazes de mudar o mundo através da educação e da nossa prática pedagógica

Somos capazes de incentivar e formar cidadãos conscientes de sua autonomia

Somos capazes de construir uma educação com cidadania, equidade e qualidade

Basta ter consciência de nosso papel como educador

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