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Polo de desenvolvimento educacional

Seminário Nacional da Olimpíada apresenta estudo inédito sobre jovens

O Seminário Nacional da Olimpíada da Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro foi realizado em São Paulo nos dias 30 e 31 de outubro, com o objetivo de mobilizar, articular e formar profissionais envolvidos no programa em todo o Brasil. Foram apresentadas durante o evento informações sobre o lançamento a quarta edição da Olimpíada, programado para dia 17 de fevereiro de 2014. Resultado de uma parceria entre a Fundação Itaú Social, o Ministério da Educação (MEC) e o Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), a Olimpíada é um programa de formação de professores que busca contribuir para a formação de professores, melhoria do ensino, da leitura e da escrita nas escolas públicas.

O que (nos) dizem os jovens

Durante o encontro, foi apresentado o estudo Ecos das cidades na voz dos jovens, que procurou captar e interpretar as vozes de jovens brasileiros a partir de artigos de opinião escritos entre 2008 e 2012 por alunos que participaram da Olimpíada. Coordenado por Maria Tereza Cardia, membro da equipe da Olimpíada e doutora em psicologia da educação pela PUC-SP, o levantamento foi baseado em uma mostra de 600 textos, entre os mais de 12 mil escritos por estudantes do Ensino Médio de escolas públicas.

Entre as temáticas mais relatadas pelos jovens está a escola. De acordo com os textos, os jovens acreditam que o espaço é fundamental para o desenvolvimento das pessoas e do país e veem os professores como figuras centrais para o aprendizado. Contudo, têm a clareza de que há necessidade de muitos investimentos e apontam que isso só é possível com a pressão dos movimentos populares. Quando o assunto é o comportamento dos jovens, muitos defendem mais controle dos pais sobre os filhos. “A maioria que elege transcorrer sobre juventude assume o discurso moralista dos adultos, atribuindo a responsabilidade dos problemas principalmente às famílias e às autoridades públicas, que deveriam criar leis mais duras”, explica Maria Tereza.
Para analisar o estudo, foram convidados três especialistas, entre eles, a jornalista e escritora Eliane Brum. “Lendo os textos, pude perceber que faltava certa oralidade neles. Um artigo de opinião é a busca pela própria voz. É papel da escola ampliar os espaços para a realização da singularidade, o papel do texto e da palavra escrita é a expressão dessa potência”, relatou a jornalista. A escritora comentou sobre a influência da mídia, sobretudo, da televisão nas narrativas dos jovens sobre a maneira de contarem suas próprias histórias. “A referência para os artigos de opinião é a imprensa, e esse meio, ainda que valorize a diversidade, o que dissemina e fortalece na prática é a padronização”.

Para Alexandre Barbosa Pereira, antropólogo e professor da Universidade Federal de São Paulo, as novas tecnologias não devem tirar o prestígio da escrita. As redes sociais, por exemplo, têm de ser encaradas como uma das múltiplas formas de escrita dos alunos. “É preciso mapear o que os jovens têm de conhecimento em tecnologia e o que estão utilizando. Os textos não podem ser escritos como o sistema impõe para passar uma barreira, como a prova ou o ENEM, mas têm que apresentar criatividade e ter algum sentido sobre o que pensa o jovem. Isso precisa ser refletido”, afirmou Alexandre.
O historiador, roteirista e diretor do Canal Futura, João Alves dos Reis Júnior, também participou da reflexão sobre o estudo e disse que as narrativas que leu mostraram o desafio dos jovens em participar e viver em uma sociedade múltipla. Ele analisou também a falta de singularidade nos textos. “Estamos excessivamente apostilados, o que acaba massacrando oportunidades de opiniões. As redes sociais têm sido espaço de fala não autorizada e, portanto, um espaço extremamente criativo. Nunca se escreveu tanto nesse país”, comentou João Alegria, como é conhecido no meio da comunicação.

Da teoria à prática

O seminário trouxe para a discussão a frágil relação entre a teoria e a prática, quando o assunto é a formação continuada de professores. Participaram como mediadoras a pedagoga e superintendente do Cenpec, Anna Helena Altenfelder, e a especialista em gestão educacional e gerente da Fundação Itaú Social, Patricia Mota Guedes.

Divididos em três grupos de trabalho, o público, – composto de docentes, técnicos de secretarias de educação e mediadores dos cursos a distância da Olimpíada – discutiu e desenvolveu ações relacionadas à prática em sala de aula. “Não existe uma única estratégia de formação continuada que dê conta. O grande segredo é a articulação entre todas as estratégias propostas para que seja possível avançar na melhoria do ensino e aprendizagem dos alunos”, refletiu Patricia sobre a tendência colaborativa na área de formação continuada.
Uma experiência que pode servir de exemplo para muitos educadores foi a do professor de literatura do curso de Letras da Universidade Federal do Acre, Henrique Silvestre Soares, que disseminou o conteúdo que aprendeu na formação da Olimpíada dentro da universidade. “Eu propus na grade do curso uma disciplina optativa que se chama literatura, leitura e ensino, para que os alunos possam ter contato com o que aprendi, que me ajudou muito com a prática em sala de aula. Nessa disciplina, compartilho conteúdo e bibliografias, além disso, penso que é uma forma de os alunos, a maioria professores, conhecerem o programa de formação da Olimpíada e futuramente se envolverem com a causa”, contou o professor universitário.

Formação de professores a distância

No segundo dia do seminário, cerca de 50 professores mediadores dos cursos a distância da Olimpíada assistiram à palestra de Heloisa Collins, pesquisadora da Fundação Vanzolini, sobre mediação em ambientes virtuais de aprendizagem. De acordo com Heloisa, a responsabilidade do mediador de um curso online é muito grande, quando se tem consciência sobre o imprevisto durante os fóruns de discussão. “Mais do que planejamento, o mediador precisa ter espontaneidade no ensino, ou seja, descobrir durante as aulas quais caminhos seguir e ter consciência de que naquilo que não foi planejado ele também está ensinando”, salientou a especialista.

Desde o início do programa, em 2005, foram realizadas 558 turmas dos cursos a distância de formação continuada e mais de 11 mil professores se inscreveram neste período com o objetivo de aperfeiçoar o ensino da escrita. As temáticas são divididas em duas: Caminhos da Escrita e Sequência Didática: Aprendendo por meio de resenhas.

A formação dos grupos de professores mediadores é recente. De acordo com Patricia Calheta, coordenadora de mediadores da Olimpíada, antes de se tornar um mediador ele precisa ser um cursista, se inscrever, fazer o curso e se destacar. “Esse destaque de desempenho, envolvimento e participação nas nossas propostas é que vai gerar a indicação daquela turma para nosso banco de futuros mediadores”, explicou Patrícia.

Os cursos com participação de mediadores existem desde 2011 e este foi o primeiro encontro presencial que os reuniu. Para a carioca e professora Édina Moura Vianna, que já foi seis vezes mediadora, a oportunidade é muito interessante pela troca de informações entre pessoas do Brasil inteiro e suas peculiaridades e características diversas. “Acho que o curso presta também o grande serviço de auxiliar o letramento digital de muitos professores, porque para muitos é o primeiro curso online”, comentou a professora que criou um blog chamado Édina na Rede, no qual compartilha com os professores todas as experiências vividas como mediadora e conteúdos sobre atividades de Língua Portuguesa para a sala de aula.