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Polo de desenvolvimento educacional

Seminário internacional discute competências não cognitivas e seus impactos

A Fundação Itaú Social realizou, no dia 2 de setembro, em São Paulo, o 11º Seminário Itaú Internacional de Avaliação Econômica de Projetos Sociais. Durante o evento foram discutidos os efeitos de competências socioemocionais no desenvolvimento cognitivo de crianças e jovens. Foram considerados estudos internacionais e brasileiros que indicam a importância dessas características (como responsabilidade, colaboração, resiliência e criatividade) e, partir da sua compreensão, o Seminário proporcionou discussões sobre estratégias que podem auxiliar o Brasil a desenvolver políticas públicas que garantam uma formação plena e sólida a esses indivíduos.

Na abertura do evento, o vice-presidente da Fundação Itaú Social, Antonio Matias, ressaltou o uso da avaliação de impacto como uma ferramenta estratégica para construir políticas públicas que auxiliam a preparar cidadãos cada vez mais capazes de responder às complexas exigências do século 21. “Esse tema foi escolhido, entre outras razões, porque permeia diariamente as discussões e inquietações apresentadas por gestores de programas, projetos e políticas sociais”, explicou.

Com mediação do Profº Dr. Daniel dos Santos, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP de Ribeirão Preto, o painel inicial teve como foco Competências socioemocionais para o século 21. Fizeram parte dessa primeira discussão John Lawrance Aber, especialista em psicologia e políticas públicas e presidente do Instituto de Desenvolvimento Humano e Transformação Social da Universidade de Nova York (EUA), e Oliver P. John, psicólogo e diretor do Laboratório de Personalidade da Universidade de Berkeley (EUA). Os especialistas foram convidados a apresentar suas experiências de forma a proporcionar contextualização sobre o tema.

Em sua fala, J. L. Aber apresentou resultados de pesquisas sobre o aprendizado social e emocional de crianças em idade escolar em Nova York. Um dos aspectos destacados pelo especialista foi a demonstração do efeito que essas características têm sobre o desenvolvimento, a partir de estudos realizados nos EUA e no Congo, com crianças que participaram de programas de intervenção voltados para o aperfeiçoamento de competências socioemocionais e a alfabetização. “Nessas pesquisas constamos uma mudança na relação dos alunos com os colegas e com os professores, redução da agressividade, além de uma melhoria na leitura dos alunos que tinham o comportamento mais agressivo”, relatou. Outro ponto abordado pelo pesquisador foi a importância de mudar a sala de aula para avançar no desenvolvimento das competências não cognitivas. “Mais do que simplesmente trabalhar as habilidades socioemocionais por meio de intervenções, é preciso levar em conta como esse processo vem sendo feito, aprimorar a qualidade das práticas pedagógicas, o relacionamento entre professor e aluno, o suporte de instrução emocional que é oferecido às crianças, além do próprio gerenciamento da classe para melhorar a qualidade do ensino”, disse.

Na segunda parte do painel, Oliver P. John compartilhou informações sobre a elaboração do The Big Five Personality Test – método para identificar habilidades socioemocionais – na qual teve participação. A metodologia se baseia em cinco características da psicologia humana: abertura a novas experiências, conscienciosidade, extroversão, amabilidade e estabilidade emocional. Para ilustrar o tema, foi oferecido ao público do Seminário um questionário em que, a partir da contagem dos pontos em cada dimensão das habilidades socioemocionais apresentadas, os participantes puderam realizar uma reflexão prática sobre o método Big Five.

Segundo O. P. John, a organização das principais características nesses cinco grupos foi muito importante pois facilitou o processo de análise, além de permitir que o modelo fosse replicado em outros países – foram realizadas aplicações do teste na Alemanha, Holanda, Estados Unidos e no Japão. “Muitas das características do Big Five apareceram nesses estudos, deixando claro que eram questões universais e, por isso, a iniciativa poderia ser replicada independentemente da cultura local”, afirmou. O pesquisador destacou, ainda, que um dos principais desafios em torno do tema é ampliar a realização de estudos que permitam utilizar as características socioemocionais para potencializar a aprendizagem dos estudantes.

O segundo painel teve como foco Avaliações de Impacto das Habilidades e Competências Socioemocionais. O Profº. Dr. Filip De Fruyt, da Universidade de Gent, na Bélgica, a Profª. Miriam Gensowski, do Departamento de Economia da Universidade de Copenhague e o Profº Dr. Daniel dos Santos (USP-Ribeirão Preto) apresentaram avaliações realizadas em suas respectivas comunidades acadêmicas, com mediação de Naercio Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas (CPP) do Insper e Ph.D. em Economia pela Universidade de Londres.

Em sua apresentação, o Prof. Dr. Filip De Fruyt relatou estratégias que podem ajudar os professores a alavancar a aprendizagem dos seus alunos. Segundo ele, os contextos aos quais os alunos pertencem e as diversas situações cotidianas a que estão expostos devem ser levados em conta pelos professores para que seja possível avançar no desenvolvimento das competências socioemocionais. “Muitas vezes aprendemos muito mais fora da escola, seja por meio de uma viagem, de um jantar com os amigos ou de uma conversa. Não podemos excluir esses momentos do processo de aprendizagem, pois eles completam as experiências vividas em sala de aula”, explicou.

Em seguida, a Profª Miriam Gensowski expôs os resultados do estudo intitulado Personalidade, QI e salário durante a vida. A pesquisadora utilizou uma base de dados que acompanhou homens e mulheres californianos com alto QI durante 92 anos. Considerando esse levantamento, Gensowski verificou que homens mais extrovertidos e meticulosos obtiveram maiores salários. Segundo a pesquisadora, as habilidades socioemocionais podem impactar na vivência profissional. “Por exemplo, uma pessoa que não tenha estudado muito, mas é persistente e pontual, pode ter estas características recompensadas pelo empregador”, disse.

Na fala do Prof. Dr. Daniel Santos, especialista em economia da educação, desenvolvimento infantil e mercado de trabalho, foram apresentados os principais resultados de um estudo realizado pelo Instituto Ayrton Senna em escolas do Rio de Janeiro. A análise verificou que alunos com nível mais alto de conscienciosidade – mais organizados e persistentes – obtinham melhores notas em matemática.  Na opinião de Santos, essa pesquisa reforça o poder transformador da escola e a importância do papel da família no estímulo a determinadas habilidades socioemocionais.