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"Alcancei a nota máxima na redação do Enem e ajudo outros estudantes de escolas públicas a tornar realidade o sonho da universidade"


Gabriela, junto à escrivaninha de onde acompanha o trabalho de redação de 30 alunos: “É muito gratificante perceber a evolução de cada um deles.” Foto: Arquivo pessoal

Depoimento de Gabriela Costa, 24 anos, licenciada em geografia, Salvador, Bahia
Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Lauro de Freitas, Bahia

Meus pais estudaram até concluir o ensino médio. A minha avó nem chegou a concluir. Filha mais velha, em casa sempre fui incentivada a estudar. Lembro de minha mãe repetindo inúmeras vezes que a educação é a base de tudo e que a filha dela não só seria a primeira da família a cursar o ensino superior, como o faria numa universidade federal. Ela sonhava com isso. Com tanto estímulo, desde pequena sou apaixonada pela literatura. Eu era a aluna que mais lia livros na biblioteca da escola onde estudei no ensino fundamental e já ajudava meus colegas com os estudos. Era uma escola de classe média alta num bairro nobre de Salvador. Meus pais não tinham condições de pagar, mas eu era bolsista. Essa oportunidade me deu base para desenvolver minha habilidade com a escrita.

Eu amava escrever redações e a prática me possibilitou um belo desempenho no processo seletivo para cursar o ensino médio no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA). Dessa forma, pude continuar tendo uma educação de nível excelente, e sem que meus pais entrassem em apuros financeiros. No IFBA, a educação é integrada, numa modalidade que eles chamam de ensino médio técnico. Escolhi a formação de técnica em geologia, a qual finalizei em 2014. Ensino médio concluído, era a hora de realizar o sonho de minha mãe. Mais uma vez, usei a meu favor a paixão pela escrita e ingressei no seleto grupo de candidatos do Enem que escreveram uma redação nota mil. Realizada, contei a minha mãe qual seria o meu próximo passo: licenciatura em geografia na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Missão cumprida.

Na UFBA, me deparei com uma realidade diferente da que eu imaginara encontrar. Ao mesmo tempo em que estava feliz por ingressar numa universidade federal, me senti incomodada ao ver por lá tão pouca gente oriunda de escolas públicas. Transformei o incômodo em motivação e resolvi agir. Eu não podia transformar o mundo mas me apeguei à possibilidade de transformar vidas. Na verdade, isso sempre me moveu. Pretendo ser professora de escola pública. Eu tinha duas alternativas. A primeira era esperar até me formar, cursar um mestrado, ser aprovada num concurso e, enfim, ser convocada. A outra, começar a fazer o que eu conseguisse com o que estava à minha disposição naquele momento. Fiquei com a segunda opção. Resolvi, em 2015, criar uma rede de alunos, no IFBA, e oferecer-lhes assistência com redação.

Troca de mensagens com alunos movimenta a caixa de entrada de e-mail de Gabriela durante a pandemia: feedback cuidadoso. Fotos: Reprodução/Gmail

O projeto começou com os estudantes me entregando suas redações para que eu as devolvesse corrigidas. Com o tempo, passei a recebê-las por e-mail e, desse jeito, hoje dou conta de 30 estudantes. Eles próprios escolhem os temas das redações. Geralmente, temas de edições anteriores do Enem ou outros sugeridos por professores na internet. A propósito, a internet ajuda, mas também atrapalha. Existe muito conteúdo prejudicial, como influenciadores vendendo fórmulas para a redação perfeita. Não existe fórmula. Justamente por isso, tenho o cuidado de dar um feedback cuidadoso para cada redação que recebo. Sempre elogio os pontos fortes e aponto o que poderia ser melhorado no texto. Os alunos costumam me dizer que poucos professores fazem isso e que se sentem encorajados. A troca é muito positiva. É muito gratificante perceber a evolução de cada um deles.

Após finalizar a minha formação na UFBA, comecei a tentar uma bolsa de mestrado no exterior. Bati na trave em 2019, quando fui aprovada, mas sem bolsa. Recentemente, consegui a aprovação com bolsa para a University of Bristol, na Reino Unido. Isso me inspirou a criar uma conta no Instagram para incentivar estudantes e tirar dúvidas de quem também tem o sonho de estudar fora do Brasil. No @escolapublicapode, aproveito para produzir conteúdos sobre redação e indicar os trabalhos voluntários de professores de outras áreas. Estou redigindo uma apostila onde explico como estruturar um texto e pretendo disponibilizá-la gratuitamente. Acredito muito no uso da internet para praticar a solidariedade e criar redes de apoio.

A maior dificuldade que encontro, sobretudo nesse momento de isolamento social, é o acesso precário à tecnologia por parte de alguns alunos. Muitos utilizam pacote de dados limitados em seus celulares e não conseguem ver os vídeos que publico no Instagram, por exemplo. Certa vez, eu estava atendendo um grupo de alunas que moravam no mesmo bairro. Apenas uma delas tinha boas condições de acesso à internet em casa. Ela, então, se comprometeu a coletar as redações de todas as outras colegas e me enviar. Quando eu devolvia o material corrigido, elas voltavam a se encontrar para que a colega que tinha internet distribuísse as correções. Por essas e outras, acredito na força da solidariedade para transformar vidas através da educação.

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